O veto coloca em xeque a liderança que o Brasil tinha no BRICS
Em Kazan, o BRICS reuniu nações que representam mais da metade da humanidade em torno de uma ambição comum: construir caminhos econômicos que não passem pelo controle financeiro ocidental. O analista Pepe Escobar descreveu a cúpula como um momento de inflexão histórica — sistemas alternativos de pagamento sendo testados, novas rotas comerciais sendo traçadas, e uma geometria geopolítica em reconfiguração silenciosa. Mas toda arquitetura revela suas fissuras: o veto brasileiro à Venezuela expôs que a coesão do bloco, tão necessária para sua credibilidade, ainda é uma obra inacabada.
- O BRICS testa o BRICS Pay como alternativa ao Swift, sinalizando que a dependência do dólar e das estruturas financeiras de Washington pode ter prazo de validade.
- O veto do Brasil à entrada da Venezuela no bloco gerou frustração imediata e contradiz diretamente os interesses estratégicos de Rússia, China e Irã — três dos membros mais influentes.
- A Arábia Saudita navega com cautela entre Washington e o eixo Pequim-Moscou, consciente de que seus ativos no Ocidente podem ser congelados com um simples telefonema.
- O Corredor Internacional Norte-Sul, ligando São Petersburgo à Índia via Irã, emerge como infraestrutura concreta de uma ordem comercial alternativa ao canal de Suez.
- Com a presidência do BRICS em 2025, o Brasil carrega a expectativa de liderar avanços práticos — mas o veto à Venezuela lança dúvidas sobre sua capacidade de manter coesão no bloco.
Em Kazan, diante de cerca de 250 jornalistas reunidos para a coletiva de Putin, o analista geopolítico Pepe Escobar descrevia o que via como um momento decisivo: o BRICS finalmente em movimento para construir uma ordem econômica fora da órbita ocidental. A cúpula havia produzido avanços concretos — sistemas alternativos de pagamento em teste e novas redes de conectividade ligando Ásia e Oriente Médio.
O ponto central era a independência financeira. Putin esclareceu que o bloco ainda não operava seu próprio mecanismo, mas que o BRICS Pay estava em fase de testes fundamentais, explorando alternativas ao dólar e ao Swift — a espinha dorsal do sistema financeiro controlado por Washington. Não era ruptura imediata, mas um movimento deliberado em direção à autonomia.
Escobar também destacou a crescente aproximação entre Rússia e Coreia do Norte. Putin descartou rumores sobre tropas norte-coreanas na Ucrânia, mas confirmou cooperação militar com Pyongyang — um sinal de nova configuração no leste asiático. Já a Arábia Saudita, recém-integrada ao bloco, mantinha postura cautelosa: consciente de que seus ativos em Nova York e Londres poderiam ser congelados a qualquer momento, Riad navegava com cuidado entre Washington e o eixo Pequim-Moscou.
Mas havia uma fissura visível. O veto do Brasil à adesão da Venezuela causou frustração entre analistas. Segundo informações vazadas, a decisão partiu diretamente de Lula e do chanceler Celso Amorim. Para Escobar, o movimento contradizia frontalmente os interesses de Rússia, China e Irã — todos com laços estratégicos profundos com Caracas — e colocava em xeque a liderança brasileira no bloco.
Entre os avanços concretos, o Corredor Internacional Norte-Sul — ligando São Petersburgo à Índia via Irã — foi destacado como infraestrutura de uma ordem alternativa, capaz de reduzir a dependência do canal de Suez. Com o Brasil assumindo a presidência do BRICS em 2025, a expectativa era de que Lula coordenasse a implementação prática dessas iniciativas. A questão que ficou no ar: o veto à Venezuela era um tropeço isolado ou o sinal de que a coesão do bloco era mais frágil do que parecia?
Em Kazan, na Rússia, enquanto cerca de 250 jornalistas acompanhavam a coletiva de imprensa do presidente Vladimir Putin, o analista geopolítico Pepe Escobar observava o que descrevia como um momento decisivo: o BRICS finalmente em movimento para construir uma ordem econômica que escapasse à gravitação do Ocidente. A cúpula do bloco — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — havia produzido avanços concretos em sistemas alternativos de pagamento e em redes de conectividade que ligavam a Ásia e o Oriente Médio de novas formas. Para Escobar, aquilo era história sendo feita em tempo real, um trem-bala geoeconômico saindo finalmente da estação.
O ponto central das discussões, segundo o analista, girava em torno de um sistema de pagamento independente do Swift — a espinha dorsal do sistema financeiro norte-americano. Putin havia esclarecido que, embora o BRICS ainda não operasse seu próprio mecanismo, as nações membros estavam em testes fundamentais com o BRICS Pay, explorando alternativas ao dólar e às estruturas financeiras que Washington controlava. Não era uma ruptura instantânea, mas um movimento deliberado em direção à autonomia. Escobar enfatizava que o presidente russo, ao presidir um ano que considerava crucial para o fortalecimento do bloco, estava orquestrando essa transição com precisão estratégica.
Outra articulação que Escobar destacou foi a crescente cooperação entre Rússia e Coreia do Norte — um tema que circulava em boatos sobre possível envolvimento de tropas norte-coreanas na guerra ucraniana. Putin havia descartado isso como "nonsense", esclarecendo que a relação com Pyongyang envolvia treinamento militar, mas longe do front. Para Escobar, essa proximidade sinalizava uma nova configuração no leste asiático, uma região historicamente sensível para os cálculos geopolíticos russos.
Mas havia uma fissura. O veto do Brasil à adesão da Venezuela ao BRICS causou frustração entre analistas presentes. Informações vazadas indicavam que a decisão havia vindo diretamente do presidente Lula e do chanceler Celso Amorim. Escobar foi direto: esse veto colocava em xeque a liderança que o Brasil havia exercido até então no bloco. Pior ainda, contradizava frontalmente os interesses de Rússia, China e Irã — todas com relações estratégicas profundas com Caracas. Era um movimento que sinalizava divisão interna no momento em que o bloco tentava se apresentar como alternativa coesa à hegemonia ocidental.
A expansão do BRICS também revelava tensões. A Arábia Saudita havia entrado no bloco, mas com cautela visível. Putin havia mencionado, segundo Escobar, que com um simples telefonema os ativos sauditas em Nova York e Londres poderiam ser congelados — uma realidade que forçava Riad a manter um equilíbrio delicado entre Washington e a crescente influência de Pequim e Moscou. Não era adesão plena; era navegação cuidadosa entre potências.
Outro destaque foi a ênfase em novas rotas de conectividade. O Corredor Internacional Norte-Sul, que ligava São Petersburgo à Índia via Irã, representava para Escobar uma via direta para fortalecer o comércio entre os BRICS e reduzir a dependência do canal de Suez — uma artéria vital do comércio global que passaria a estar menos no centro da estratégia do bloco. Essas rotas eram infraestrutura de uma ordem alternativa.
Com o Brasil assumindo a presidência do BRICS em 2025, havia expectativa de que Lula coordenasse os próximos passos — a implementação prática do BRICS Pay, o fortalecimento dessas rotas comerciais, a consolidação de alternativas econômicas robustas. Mas o veto à Venezuela havia deixado uma marca. Para Escobar, os dias em Kazan revelavam o potencial de um mundo multipolar em formação, um cenário econômico e político global sendo redesenhado. Ainda assim, a questão permanecia: o Brasil conseguiria manter a liderança que havia conquistado, ou o veto à Venezuela sinalizava que a coesão do bloco era mais frágil do que parecia?
Citações Notáveis
O BRICS está realizando testes fundamentais com o BRICS Pay. Esse trem-bala já está em movimento— Pepe Escobar, analista geopolítico
Este veto coloca em xeque o papel de liderança que o Brasil tinha até então no BRICS— Pepe Escobar, analista geopolítico
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que o veto à Venezuela é tão significativo se o BRICS já tem cinco membros fortes?
Porque não é apenas sobre números. Rússia, China e Irã têm interesses estratégicos reais na Venezuela — petróleo, posicionamento geopolítico, influência na América Latina. Quando o Brasil bloqueia isso, está dizendo não a seus próprios parceiros no bloco.
Mas o Brasil pode ter razões legítimas para se afastar da Venezuela.
Pode ter, claro. Mas a questão que Escobar levanta é diferente: você não pode construir uma alternativa à hegemonia ocidental se você mesmo está fragmentado. O Ocidente adora ver isso — divisão interna.
E quanto ao BRICS Pay? É realmente uma ameaça ao dólar?
Ainda não. Estão em testes. Mas a intenção é clara: criar um sistema que não dependa do Swift, que não possa ser congelado por Washington. É movimento lento, mas é movimento.
A Arábia Saudita parece estar em posição desconfortável.
Exatamente. Putin praticamente disse: seus ativos em Nova York podem desaparecer amanhã. Então Riad fica presa entre dois mundos, não conseguindo se comprometer totalmente com nenhum.
O que muda quando o Brasil assume a presidência?
Tudo depende de como Lula navega isso. Ele precisa coordenar avanços econômicos reais, mas também reparar a confiança que o veto à Venezuela danificou. É um teste de liderança.