O solo leva tempo a drenar-se; a estabilidade ainda vai demorar
Quando o temporal cede, a ilusão de segurança pode ser mais perigosa do que a própria tempestade. Em Portugal, o antigo presidente do LNEC alertou que solos saturados e infraestruturas inundadas continuam a representar riscos reais mesmo após a melhoria do tempo — e o Governo respondeu com um despacho ministerial que ordena uma auditoria técnica independente a toda a rede rodoviária e ferroviária nacional. É um reconhecimento de que os danos mais profundos raramente são visíveis a olho nu, e que a responsabilidade coletiva não termina com o fim da chuva.
- O perigo persiste em silêncio: solos encharcados e estruturas fragilizadas continuam a ameaçar utilizadores mesmo depois de o céu limpar.
- Fissuras nas estradas são sinais de alerta que os cidadãos devem aprender a reconhecer antes que o terreno ceda sem aviso.
- O ministro das Infraestruturas assinou um despacho urgente que mobiliza o LNEC para auditar pontes, túneis, viadutos e taludes em zonas vulneráveis.
- A escala do desafio é considerável: Portugal possui uma rede extensa espalhada por territórios geologicamente sensíveis, e o prazo para o relatório final é de um ano.
- Medidas provisórias de aplicação imediata poderão ser exigidas antes mesmo de a auditoria estar concluída, para proteger quem circula nas infraestruturas mais críticas.
Carlos Matias Ramos, antigo presidente do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, deixou um aviso claro após o temporal que varreu Portugal: o fim da chuva não significa o fim do perigo. Qualquer infraestrutura que tenha sido inundada ou que assente em solo saturado continua a representar um risco real para os seus utilizadores. Nas estradas, as fissuras são o sinal mais visível de uma instabilidade que pode demorar semanas ou meses a resolver-se, porque a água drena lentamente e o risco de deslizamentos persiste muito além do que os olhos conseguem ver.
O Governo português reagiu com determinação. O ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, formalizou através de despacho uma avaliação técnica independente a toda a rede rodoviária e ferroviária nacional. O LNEC foi mandatado para liderar esta auditoria de carácter prioritário, podendo recorrer a apoio técnico internacional se necessário. O foco recairá sobre pontes, túneis, viadutos, passagens hidráulicas e estruturas geotécnicas nas zonas mais afetadas pelos fenómenos extremos.
O laboratório tem 30 dias úteis para apresentar os critérios de seleção dos pontos críticos e o plano de ação, e um ano para entregar o relatório final. As entidades gestoras das infraestruturas ficam obrigadas a partilhar toda a informação técnica disponível, incluindo relatórios de inspeção pós-temporal. O que está em causa é a segurança de milhões de pessoas — e a capacidade do país de compreender, com rigor, o que o mau tempo deixou escondido nas estruturas que sustentam o quotidiano de todos.
Quando a chuva para e o céu limpa, a maioria das pessoas respira aliviada. Mas Carlos Matias Ramos, antigo presidente do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, quer que se saiba: o perigo não desaparece com o bom tempo. Qualquer infraestrutura que tenha sido inundada ou que esteja assente num solo saturado continua a representar um risco real para quem a usa, alertou em declarações à CNN Portugal. As pessoas precisam de manter a vigilância, porque podem encontrar-se numa situação altamente desfavorável sem o perceberem.
O aviso é específico. Nas estradas, por exemplo, as fissuras são um sinal de alerta que os cidadãos devem aprender a reconhecer. O solo leva tempo a drenar-se naturalmente — o processo é lento porque a água se move muito devagar no seu interior. Antes que a terra se estabilize completamente e deixe de correr o risco de deslizamentos, podem passar semanas ou meses. É um processo invisível, mas consequente.
O Governo português compreendeu a gravidade da situação. Na quarta-feira, o ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, assinou um despacho que ordena uma avaliação técnica independente a todas as principais infraestruturas rodoviárias e ferroviárias do país. A decisão tinha sido anunciada no início da semana, após uma reunião com as várias entidades do setor, mas agora ganhou forma oficial e urgência.
O desafio é imenso. Portugal, apesar de não ser um país de grande dimensão, possui uma rede de infraestruturas extensa e espalhada por zonas vulneráveis aos efeitos das inundações. O LNEC foi mandatado para conduzir esta auditoria com carácter prioritário, podendo recorrer a serviços externos internacionais se necessário, mas mantendo sempre a sua capacidade de conceção e execução de obra.
A avaliação vai incidir sobre pontes, túneis, viadutos, passagens hidráulicas e estruturas geotécnicas como muros de contenção e taludes — especialmente aqueles localizados em áreas geologicamente sensíveis ou nas zonas mais afetadas pelos fenómenos meteorológicos extremos. O Governo quer saber o estado de conservação destes pontos críticos, a sua resiliência, operacionalidade e grau de risco para os utilizadores. Quer também que sejam propostas medidas de diagnóstico, correção estrutural, regulamentares ou outras que se considerem adequadas, incluindo medidas provisórias de aplicação imediata.
As entidades gestoras das infraestruturas têm de disponibilizar ao LNEC toda a informação técnica existente, incluindo relatórios de inspeção e diagnóstico realizados após os fenómenos meteorológicos extremos. O LNEC tem 30 dias úteis para apresentar os critérios de seleção dos pontos críticos a avaliar e o planeamento das ações. O relatório final da auditoria deve estar pronto num horizonte não superior a um ano.
O que está em jogo é a segurança de milhões de pessoas que circulam diariamente por estas infraestruturas. O temporal passou, mas a sua marca permanece no solo, nas estruturas, nas fraturas invisíveis que só uma avaliação técnica rigorosa consegue revelar. Nos próximos meses, Portugal vai descobrir exatamente o que o mau tempo deixou para trás.
Citas Notables
Qualquer infraestrutura que esteja numa zona que foi inundada ou que está num solo altamente saturado está em risco; as pessoas têm de ter muito cuidado na circulação— Carlos Matias Ramos, ex-presidente do LNEC
O solo para se auto drenar leva um bocado de tempo, porque tem uma velocidade de escoamento no seu interior muito baixa. Para estabilizar de modo a evitar deslizamento, ainda vai demorar um tempo— Carlos Matias Ramos
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Porque é que o risco persiste mesmo depois de o tempo melhorar? Não deveria tudo voltar ao normal?
Porque a água não sai do solo de um dia para o outro. Um solo saturado é instável — a água move-se muito lentamente no seu interior, e enquanto estiver lá, qualquer estrutura assente nele está em risco de colapso ou deslizamento.
Então as pessoas não conseguem ver o perigo?
Exatamente. Por isso é que Carlos Matias Ramos fala em fissuras nas estradas — são sinais visíveis de que algo está a acontecer lá em baixo. Mas muitas pessoas não sabem o que procurar.
E o Governo está a fazer algo concreto?
Sim. Ordenou uma auditoria técnica completa a todas as estradas e ferrovias do país. O LNEC tem um ano para avaliar pontes, túneis, muros, taludes — tudo o que pode estar comprometido.
Um ano parece muito tempo.
É, mas a rede é vasta e o trabalho é complexo. Além disso, o Governo quer medidas provisórias já — coisas que possam ser implementadas imediatamente para proteger as pessoas enquanto a auditoria completa decorre.