A empresa não foi feita para dar lucro, foi feita para entregar serviço
Em Santa Catarina, 25 agências dos Correios enfrentam o risco de fechar as portas — seis já o fizeram —, revelando uma tensão mais profunda entre a lógica do equilíbrio financeiro e o papel histórico do serviço postal como elo entre comunidades distantes e o restante do país. Com um prejuízo recorde de R$ 8,5 bilhões em 2025, a estatal busca se reestruturar, mas cada agência encerrada representa, para os pequenos municípios catarinenses, não apenas a perda de um balcão de atendimento, mas de uma presença do Estado no cotidiano. A questão que permanece é antiga e urgente: quando uma instituição pública precisa escolher entre sobreviver financeiramente e cumprir sua missão social, o que, afinal, justifica sua existência?
- Vinte e cinco agências dos Correios em Santa Catarina operam com um único funcionário cada, tornando-as vulneráveis ao colapso imediato caso esse servidor saia ou se aposente.
- Seis unidades já foram encerradas nos últimos meses, obrigando moradores de municípios pequenos a se deslocar para outras cidades para acessar serviços postais básicos.
- Sob ameaça de greve geral, os Correios congelaram temporariamente novos fechamentos e cortes de gratificações até 31 de julho, mas o plano de reestruturação — que inclui demissões voluntárias e venda de imóveis — segue de pé.
- O sindicato alerta que a lógica de corte de custos pode resultar em demissões em massa e questiona se alternativas como pontos de coleta realmente substituem o atendimento presencial que as comunidades menores necessitam.
- O destino das agências dependerá das negociações entre a estatal, o sindicato e o governo federal nas semanas seguintes ao fim do congelamento, em um cenário de prejuízo histórico de R$ 8,5 bilhões registrado em 2025.
Os Correios atravessam um momento crítico em Santa Catarina: 25 agências espalhadas por pequenos municípios correm risco de encerramento, segundo alerta do sindicato da categoria. O problema é estrutural — cada uma dessas unidades funciona com apenas um funcionário, e sem garantia de reposição, a saída de qualquer um deles pode significar o fim do serviço local.
Helio Samuel de Medeiros, secretário-geral do sindicato, descreve a cascata de efeitos que um fechamento provoca: a população precisa se deslocar para outra cidade, enquanto os carteiros remanescentes passam a cobrir territórios muito maiores, comprometendo a qualidade das entregas. Seis agências já foram encerradas — Águas de Chapecó, Ibiam, Planalto Alegre, Presidente Castello Branco, Rio das Antas e Xavantina —, com os Correios justificando as ações como parte de um plano de otimização da rede.
A crise que alimenta essas decisões é de proporções históricas. Em 2025, a estatal registrou prejuízo de R$ 8,5 bilhões — o maior de sua história —, resultado da perda de mercado para empresas privadas de logística, da queda nas encomendas internacionais após mudanças tributárias e do aumento dos custos operacionais. Em resposta, a empresa anunciou desligamentos voluntários, redução de jornada e salários, venda de imóveis e contratação de empréstimo bilionário.
Sob forte pressão sindical e ameaça de greve, os Correios recuaram parcialmente, congelando novos fechamentos e cortes de gratificações até 31 de julho. Mas o sindicato mantém o alerta: teme demissões em massa durante a reestruturação e reafirma que a empresa pública não foi criada para gerar lucro, mas para garantir acesso postal à população. Outras seis agências já funcionam em regime de atendimento alternado ao longo da semana — cumprindo formalmente o mínimo legal, mas deixando comunidades sem serviço diário. O que acontece a seguir dependerá das negociações que se seguirão ao fim do congelamento.
Os Correios enfrentam um momento crítico em Santa Catarina. Vinte e cinco agências espalhadas por municípios pequenos do estado correm risco de encerramento, segundo alertou o Sindicato dos Trabalhadores na Empresa de Correios e Telégrafos e Similares. O problema é estrutural: essas unidades funcionam com apenas um funcionário cada, o que as torna extremamente vulneráveis. Se esse único servidor sair ou se aposentar, não há reposição garantida, deixando comunidades inteiras sem acesso direto aos serviços postais.
Helio Samuel de Medeiros, secretário-geral do sindicato, explicou à reportagem a cascata de consequências que um fechamento provoca. Quando uma agência fecha, a população precisa se deslocar para outro município para acessar o serviço. Ao mesmo tempo, os funcionários que continuam trabalhando precisam fazer entregas em territórios muito maiores, gastando mais tempo e reduzindo a efetividade do trabalho. A missão básica dos Correios — entregar uma carta ou encomenda de forma satisfatória — fica comprometida nesse cenário.
Seis agências já foram encerradas nos últimos meses: Águas de Chapecó, Ibiam, Planalto Alegre, Presidente Castello Branco, Rio das Antas e Xavantina. Os Correios justificam essas ações como parte de um plano de reestruturação que busca otimizar a rede de atendimento e garantir sustentabilidade financeira. A estatal também menciona parcerias com prefeituras e estabelecimentos comerciais para criar modalidades alternativas como o Correios Essencial e pontos de coleta. Mas o sindicato questiona se essas alternativas realmente substituem o atendimento presencial que pequenos municípios necessitam.
A crise que força essas decisões é profunda. Em 2025, os Correios registraram um prejuízo de oito bilhões e meio de reais — o maior de sua história — mesmo em um contexto de crescimento do comércio eletrônico no país. A perda de mercado para empresas privadas de logística, a redução de encomendas internacionais após mudanças nas regras de tributação e o aumento dos custos operacionais criaram uma tempestade perfeita. Diante disso, a estatal anunciou um pacote agressivo: programas de desligamento voluntário, fechamento de agências deficitárias, redução de jornada e salários para parte dos empregados, venda de imóveis e contratação de empréstimo bilionário.
Na semana em que a reportagem foi publicada, os Correios recuaram parcialmente. Sob forte pressão sindical e ameaça de greve geral, a empresa congelou temporariamente o fechamento de agências e os cortes nas gratificações de funcionários até 31 de julho. Mas Medeiros deixa claro que a preocupação com demissões permanece. O sindicato teme que, durante a reestruturação, a empresa opte por desligamentos em massa para salvar a saúde financeira. Ele ressalta um ponto fundamental: os Correios não foram criados para gerar lucro, mas para entregar serviço à população. Quando uma empresa pública começa a priorizar números sobre acesso, algo essencial se perde.
Além das 25 agências em risco crítico, há outras seis que já funcionam com atendimento alternado ao longo da semana — Erval Velho, Meleiro, Morro da Fumaça, Paraíso, Ponte Alta do Norte e União do Oeste. Os Correios argumentam que essas unidades atendem às diretrizes de universalização postal, que exigem um mínimo de quatro horas semanais de atendimento. Mas para quem vive nessas cidades, a realidade é que o serviço postal não está mais disponível todos os dias. O que acontece agora dependerá das negociações entre a estatal, o sindicato e o governo nos próximos meses, especialmente após o congelamento terminar em julho.
Citas Notables
Essas agências ficam sujeitas ao risco do funcionário sair ou se aposentar e não ter reposição. A população precisaria buscar outro município, gerando maiores deslocamentos— Helio Samuel de Medeiros, Secretário-Geral do Sintect
Nossa empresa não foi feita para dar lucro, foi feita para entregar serviço à população— Helio Samuel de Medeiros, Secretário-Geral do Sintect
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que exatamente agências com um único funcionário são tão frágeis? Não é só uma questão de eficiência?
É mais que eficiência. É vulnerabilidade total. Se aquele funcionário sai, se adoece, se se aposenta, a agência fecha. Não há cobertura, não há backup. E em um município pequeno, isso significa que centenas de pessoas perdem acesso ao serviço.
Os Correios dizem que estão criando alternativas — Correios Essencial, pontos de coleta. Isso não resolve?
Resolve parcialmente, mas não é a mesma coisa. Uma agência é um espaço onde você pode fazer várias coisas: enviar encomendas, comprar selos, resolver problemas. Um ponto de coleta é mais limitado. E nem sempre existe perto de casa.
A empresa está em crise real, certo? Oito bilhões de prejuízo é muito dinheiro.
É real, sim. Mas o sindicato questiona se fechar agências em cidades pequenas é a solução certa. Essas agências talvez não sejam lucrativas, mas servem a uma função pública que a empresa foi criada para cumprir.
Então qual é a saída? A empresa não pode ficar quebrando para sempre.
Essa é a pergunta difícil. O sindicato diz que a empresa pública não deveria ser avaliada só por lucro. Mas também não dá para ignorar um rombo de oito bilhões. Provavelmente a resposta está em algum lugar no meio — reestruturação, sim, mas sem abandonar cidades pequenas.