Crise de combustíveis atinge quase toda a Rússia após intensos ataques ucranianos a refinarias

População russa enfrenta escassez de combustível com filas prolongadas, compras por pânico e racionamento forçado, afetando mobilidade, economia doméstica e bem-estar social generalizado.
A capacidade de resistência está sendo levada perigosamente ao limite
Pesquisador descreve como os ataques ucranianos superam a velocidade de reparo das refinarias russas.

Enquanto a guerra na Ucrânia avança para o coração industrial da Rússia, uma campanha persistente de drones contra refinarias transformou a escassez de combustível em fenômeno nacional, alcançando quase todas as 83 regiões do país. O que começou como uma crise localizada na Crimeia em junho tornou-se um espelho das fragilidades estruturais de uma economia em guerra: filas de 18 horas, mercado negro florescente e um presidente que, ao prometer mais defesa antiaérea, inadvertidamente confirmou a profundidade do problema. A história que se desenrola não é apenas sobre gasolina — é sobre os limites da resistência de uma sociedade submetida a pressões que se acumulam silenciosamente.

  • A produção russa de gasolina está 20% abaixo da demanda interna, com refinarias operando nos menores níveis dos últimos anos e reparos de ataques anteriores ainda inconclusos.
  • Filas de até 18 horas, brigas em postos de combustível e um jovem flagrado vendendo gasolina quatro vezes acima do preço médio revelam uma tensão social que o governo tenta conter com multas e proibições.
  • A Ucrânia não apenas manteve o ritmo dos ataques, mas ampliou o número de drones empregados, transformando a disputa em uma corrida entre reparos e destruição — e a balança pende contra Moscou.
  • Putin anuncia medidas emergenciais — redução de manutenções, possível proibição de exportações, importação de gasolina da Índia —, mas especialistas alertam que as opções se estreitam e que qualquer solução rápida, como combustível de menor qualidade, transfere o custo diretamente ao cidadão.
  • Se os ataques ucranianos continuarem no ritmo atual, a 'normalização' esperada pelo governo pode não ocorrer, agravando inflação e déficit orçamentário em uma economia já estagnada pelos custos da guerra.

Quase todas as 83 regiões da Rússia enfrentam agora algum grau de escassez de gasolina. A crise teve início na Crimeia, onde as autoridades proibiram a venda de combustível para pessoas físicas em 21 de junho, mas rapidamente se alastrou pelo território nacional, impulsionada por uma campanha intensiva de ataques ucranianos com drones contra refinarias russas. Mais de 50 regiões reconhecidas internacionalmente relataram oficialmente problemas de abastecimento, e pelo menos três — incluindo Irkutsk e Transbaikal — decretaram estado de alerta reforçado.

Especialistas apontam que a situação é mais grave do que a escassez de agosto do ano anterior. A diferença, segundo analistas da Kpler e do Carnegie Russia Eurasia Center, está na escala e na persistência dos ataques: a Ucrânia aumentou tanto a frequência quanto o número de drones empregados, levando a capacidade de resistência da indústria petrolífera russa a limites perigosos. Putin tentou minimizar a crise em entrevista à televisão estatal, mas ao anunciar que a prioridade era ampliar a produção de sistemas antiaéreos, revelou involuntariamente a vulnerabilidade crescente do país.

No cotidiano, a crise se traduz em filas de até 18 horas, postos impondo limites de compra e sites criados para orientar motoristas sobre onde encontrar combustível. Vídeos nas redes sociais mostram discussões em postos de Moscou e Krasnodar; memes circulam com pessoas montando mesas ao lado de carros parados. Em Irkutsk, a polícia multou revendedores clandestinos, incluindo um jovem de 20 anos que cobrava quatro vezes o preço médio nacional.

O governo russo ainda dispõe de ferramentas — redução de manutenções programadas, possível proibição de exportações de diesel, importação de gasolina da Índia e até a cogitada liberação de combustível de menor qualidade. Mas cada opção carrega custos: especialistas alertam que carros novos não funcionam bem com gasolina de baixa qualidade e que, de qualquer forma, é a população quem arca com as consequências. Se os ataques ucranianos continuarem no ritmo atual, a normalização esperada pode não se concretizar, agravando a inflação e o déficit orçamentário de uma economia já enfraquecida pelos gastos de guerra.

Quase todas as 83 regiões da Rússia estão enfrentando escassez de gasolina ou interrupções no abastecimento. A crise começou na Crimeia, onde as autoridades decretaram estado de emergência e proibiram completamente a venda de combustível para pessoas físicas em 21 de junho. Agora se espalha por todo o território russo, alimentada por uma campanha intensiva de ataques com drones ucranianos contra refinarias do país.

Uma análise da CNN de declarações oficiais de prefeitos e governadores regionais, além de reportagens da imprensa nacional e local, constatou que mais de 50 das regiões reconhecidas internacionalmente relataram oficialmente problemas de abastecimento. Há relatos não oficiais de interrupções em quase todas as demais. Pelo menos três regiões, incluindo Irkutsk e Transbaikal, no leste da Rússia, decretaram "estado de alerta reforçado", um nível imediatamente inferior ao estado de emergência. O presidente Vladimir Putin tentou tranquilizar a população em entrevista à televisão estatal no domingo, afirmando que havia "certa escassez, embora ela não seja crítica". Mas sua declaração de que a tarefa mais urgente era "aumentar rápida e significativamente a produção de sistemas de defesa antiaérea" revelou a crescente vulnerabilidade da Rússia aos ataques ucranianos.

Especialistas afirmam que a situação atual é muito mais grave do que a escassez generalizada que a Rússia enfrentou em agosto do ano anterior. Sumit Ritolia, analista-chefe de oferta e modelagem de refino da Kpler, uma empresa especializada em inteligência de mercado de commodities, explicou que "a principal diferença está na escala e na persistência dos ataques". A produção russa de gasolina está atualmente cerca de 20% abaixo da demanda interna devido aos ataques ucranianos. Os níveis de processamento das refinarias estão nos menores patamares dos últimos anos, e os trabalhos de reparo após a campanha de ataques do ano passado ainda estão em andamento. Sergey Vakulenko, que trabalhou por 25 anos no setor russo de petróleo e gás e atualmente é pesquisador sênior do Carnegie Russia Eurasia Center, descreveu a situação como uma corrida entre quem faz os reparos e quem realiza os ataques, com a balança se inclinando contra a Rússia. A Ucrânia não apenas aumentou a frequência dos ataques nas últimas semanas, como também ampliou o número de drones empregados nas ofensivas. "A capacidade de resistência da indústria petrolífera russa está sendo levada perigosamente ao limite", escreveu Vakulenko em um artigo recente.

Os postos de combustíveis em todo o país passaram a impor limites para a compra de gasolina, e surgiram sites que monitoram a disponibilidade de combustível para orientar motoristas sobre os melhores locais para abastecer. À medida que as filas de veículos aumentam, a tensão também cresce. Um vídeo publicado nas redes sociais mostra duas mulheres em Moscou trocando insultos durante uma discussão sobre a ordem da fila para abastecer. Na cidade de Krasnodar, no sul do país e próxima à Crimeia, outro vídeo mostra um homem enchendo um recipiente na traseira de seu veículo enquanto duas mulheres o repreendem por descumprir as regras. Diversas regiões russas proibiram o uso de galões de grande capacidade, cerca de cinco galões (aproximadamente 19 litros), para evitar o armazenamento excessivo de combustível. A mídia russa informou que há pessoas esperando até 18 horas em filas para abastecer. Na internet, os memes se multiplicaram, incluindo um que mostra pessoas montando mesas com bebidas e narguilés ao lado de seus veículos parados.

Putin demonstrou preocupação suficiente ao alertar que os ataques tinham como objetivo "gerar incerteza ou, melhor ainda, provocar uma ruptura na sociedade russa". As autoridades também estão sendo obrigadas a adotar medidas mais rígidas contra aqueles que tentam lucrar com a crise. Na cidade siberiana de Irkutsk, a polícia multou quatro pessoas acusadas de revender combustível no mercado negro a preços inflacionados. Um jovem de 20 anos foi flagrado em uma operação encoberta depois que agentes anticorrupção se passaram por compradores. Ele supostamente vendia o combustível por um preço quatro vezes maior que a média nacional. O governador de Irkutsk decretou "estado de alerta reforçada" e proibiu a venda de combustível em galões para qualquer pessoa que não pertença aos serviços de emergência.

Em Moscou, a preocupação aumentou após o ataque com drones realizado pela Ucrânia em 18 de junho, que foi o maior desde o início da invasão em larga escala e o segundo direcionado à refinaria de Kapotnya em menos de uma semana. Uma tentativa de interceptação gerou uma grande explosão que arrancou o teto de um tanque de combustível. Alguns motoristas em Moscou disseram à CNN que passam dias circulando pela cidade em busca de gasolina. Uma motorista de 27 anos contou que estava há duas horas na fila em um posto de combustíveis e que o funcionário revelou que cada posto decide por conta própria como administrar a situação. Vakulenko considera que os problemas de abastecimento em Moscou são reais, não apenas devido aos ataques de junho, mas também aos múltiplos impactos sofridos pelas refinarias das regiões vizinhas que fornecem combustível para a capital.

A Rússia ainda dispõe de ferramentas para enfrentar essa crise, mas as opções estão se tornando cada vez mais limitadas. Putin listou as medidas que o governo estava adotando: desde a redução dos prazos de manutenção programada nas refinarias até a possibilidade de proibir exportações de diesel e aumentar as importações. A Reuters informou que a Rússia havia começado a comprar gasolina da Índia, uma mudança surpreendente em uma dinâmica já consolidada. A Rússia também pode estar considerando permitir a comercialização de gasolina de menor qualidade para ampliar o abastecimento, uma medida que traz riscos aos consumidores. Alexander Kolyandr, pesquisador sênior do Centro de Análise de Política Europeia, alertou que "os carros novos não funcionam bem com gasolina de baixa qualidade", então "seja qual for a perspectiva, é a população que acaba pagando as consequências". Se o governo conseguir estabilizar o abastecimento e tranquilizar a população, poderá ocorrer uma "normalização", na qual as pessoas percebam que a escassez não é tão grave quanto temiam e reduzam suas compras. No entanto, se os ataques da Ucrânia continuarem no ritmo atual, essa normalização pode não acontecer. Os riscos econômicos decorrentes de uma inflação mais alta e de uma redução no consumo causada pela escassez de combustível surgem no pior momento possível para uma economia russa já estagnada, apesar de os gastos com defesa continuarem aumentando.

A principal diferença está na escala e na persistência dos ataques
— Sumit Ritolia, analista-chefe da Kpler
A capacidade de resistência da indústria petrolífera russa está sendo levada perigosamente ao limite
— Sergey Vakulenko, pesquisador sênior do Carnegie Russia Eurasia Center
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que essa crise de combustível é diferente da que a Rússia enfrentou há um ano?

Model

A escala e a persistência. Os ataques não apenas aumentaram em frequência — a Ucrânia também está usando mais drones por ofensiva. Além disso, as refinarias ainda estão reparando os danos do ano passado enquanto sofrem novos golpes.

Inventor

Qual é o impacto real na vida das pessoas?

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Filas de até 18 horas para abastecer. Compras por pânico que pioram a escassez. Mercado negro com preços quatro vezes maiores. E agora o governo proibindo galões grandes para evitar armazenamento. É uma pressão constante.

Inventor

Putin disse que a situação não é crítica. Ele está sendo honesto?

Model

Ele está tentando acalmar a população, mas sua própria fala o contradiz. Quando diz que a prioridade urgente é aumentar a defesa antiaérea, está admitindo que a Rússia não consegue parar os ataques.

Inventor

A Rússia tem saída para isso?

Model

Tem opções, mas todas têm custos. Comprar gasolina da Índia, reduzir exportações, vender combustível de qualidade inferior. Nenhuma resolve o problema de fundo: os drones ucranianos continuam destruindo refinarias mais rápido do que a Rússia consegue consertar.

Inventor

O que acontece se os ataques não pararem?

Model

A economia piora. Inflação sobe, consumo cai, o déficit orçamentário aumenta. E a população fica cada vez mais tensa. Putin já está preocupado com uma "ruptura na sociedade russa".

Inventor

Isso pode forçar a Rússia a fazer algo militarmente?

Model

Possivelmente. Se o dinheiro está acabando e a paciência pública também, a lógica russa seria intensificar o conflito para resolvê-lo mais rápido. Mas para a Ucrânia, a estratégia está funcionando — por que parar?

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