Fomos surpreendidos pelo crescimento de 2023
Em Madri, a economista-chefe do Santander admitiu que o Brasil surpreendeu até os próprios analistas do banco em 2023, crescendo mais do que o esperado graças a uma safra agrícola excepcional e a preços favoráveis de commodities. A revisão do PIB de 2,5% para 3% é um reconhecimento de que economias, como colheitas, às vezes desafiam as previsões. Ainda assim, por trás da abundância dos campos e do superávit comercial, persiste uma questão mais antiga e mais difícil: a saúde das contas públicas, que exige do país um esforço fiscal que ainda não foi feito.
- O Santander foi forçado a revisar sua projeção de crescimento do Brasil de 2,5% para 3%, surpreendido por uma safra de soja 25% maior e condições climáticas excepcionalmente favoráveis.
- O superávit comercial deve superar US$ 85 bilhões e o déficit em transações correntes deve ficar em apenas 2% do PIB, sinalizando uma economia externa em momento raro de equilíbrio.
- O mercado de trabalho resiste: o setor de serviços puxa o emprego, a inadimplência deve cair com a renda familiar crescendo 4%, e os litígios trabalhistas recuaram 50% após a reforma.
- A inflação desacelera — IPCA projetado em 4,6% para 2023 e 3,8% para 2024 —, mas a trajetória dos juros depende dos movimentos do Federal Reserve americano, ainda em patamar elevado.
- A sombra fiscal permanece: o país registra déficit de 1% do PIB quando precisaria de superávit acima de 1% para estabilizar a dívida pública no longo prazo — o principal risco apontado pela economista.
Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander, chegou à conferência internacional do banco em Madri com uma admissão incomum: o Brasil cresceu mais do que ninguém dentro da instituição havia previsto. A projeção de PIB foi revisada de 2,5% para 3% em 2023 — uma correção que reflete não um erro de cálculo, mas a força inesperada de uma economia impulsionada pelos campos.
A agricultura foi o motor da surpresa. A safra de soja cresceu 25% em relação ao ano anterior, o milho avançou 10%, e o PIB agrícola deve atingir 13,5% no ano. Os preços internacionais das commodities ampliaram o efeito: o superávit comercial deve ultrapassar US$ 85 bilhões, e o déficit em transações correntes deve ficar em apenas 2% do PIB — um patamar historicamente favorável.
No mercado de trabalho, o setor de serviços sustenta o emprego, a renda familiar deve crescer 4%, e a inadimplência tende a recuar. A reforma trabalhista contribuiu com uma queda de 50% nos litígios. Ao mesmo tempo, a desinflação avança, puxada pela queda nos preços dos alimentos. O Santander projeta IPCA de 4,6% em 2023 e 3,8% em 2024, com a Selic chegando a 9,5% ao fim do próximo ano — trajetória que, porém, depende dos rumos dos juros americanos.
Mas Vescovi não deixou a conferência sem nomear a sombra que paira sobre esse cenário favorável. O risco fiscal é real: o Brasil projeta déficit de 1% do PIB quando precisaria de superávit acima de 1% para estabilizar a dívida no longo prazo. A economista reconhece os trunfos do país — entre eles, a liderança em custo-benefício para descarbonização e a perspectiva de quase dobrar a produção de petróleo com o pré-sal — mas é direta: há dever de casa a fazer, e ele começa pelo ajuste fiscal.
Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander, chegou à Santander Internacional Banking Conference em Madri com uma admissão que surpreendeu até quem trabalha dentro do banco. O Brasil, disse ela, cresceu mais do que ninguém esperava em 2023. "Fomos surpreendidos", afirmou na terça-feira, 31 de outubro.
O Santander havia projetado um crescimento de 2,5% para o PIB brasileiro neste ano. Agora, a instituição revisa a estimativa para 3%. A mudança não é pequena — reflete uma economia que se comportou de forma inesperadamente robusta. O motor dessa surpresa foi a agricultura. A safra de soja cresceu 25% em relação ao ano anterior, impulsionada por avanços tecnológicos e condições climáticas favoráveis. O milho avançou 10%. Juntos, esses ganhos devem fazer o PIB agrícola atingir 13,5% neste ano.
Mas a história não termina nos campos. Os preços internacionais das commodities também trabalham a favor do Brasil. O superávit comercial deve ultrapassar US$ 85 bilhões — um número expressivo que reflete a capacidade do país de vender mais do que compra no mercado internacional. O déficit em transações correntes, por sua vez, deve ficar em apenas 2% do PIB, um patamar historicamente baixo. Esses números indicam uma economia externa saudável, pelo menos por enquanto.
No mercado de trabalho, a resiliência também aparece. O setor de serviços puxa o emprego para cima, fenômeno que Vescovi observa também nos Estados Unidos e em outras economias desenvolvidas. A reforma trabalhista brasileira contribuiu para isso: houve uma queda de 50% no número de litígios relacionados a questões trabalhistas. Com mais pessoas empregadas e renda familiar projetada para crescer 4%, a inadimplência deve cair, especialmente porque a oferta de crédito está mais restrita. Simultaneamente, um processo desinflacionário ganha força, puxado pela queda nos preços dos alimentos.
O Santander projeta um IPCA de 4,6% para 2023 e de 3,8% para 2024. A taxa Selic, a taxa básica de juros brasileira, deve chegar a 9,5% ao final de 2024. Mas Vescovi deixa claro que essa trajetória dependerá dos movimentos dos juros americanos, que atualmente estão entre 5,25% e 5,50% ao ano — o maior patamar desde maio de 2021.
Por trás dessa narrativa de crescimento e resiliência, porém, paira uma sombra. Vescovi não hesita em nomear o risco que mais preocupa: a fragilidade fiscal. O Santander estima um déficit de 1% do PIB para o Brasil. Para que a dívida pública se estabilize ao longo do tempo, o país precisaria alcançar um superávit acima de 1% do PIB — o oposto do que está acontecendo. É um desafio macroeconômico real, embora Vescovi reconheça que o Brasil está bem posicionado em outros aspectos.
Ela aponta a transição energética como um trunfo. O Brasil possui o melhor custo-benefício para descarbonização no mundo atual, diz. Nos próximos anos, a produção de petróleo deve quase dobrar graças aos projetos de cessão onerosa do pré-sal. Há, portanto, grandes oportunidades no médio e longo prazo. Mas, como Vescovi resume, o país tem "dever de casa a fazer" — e esse dever começa com o ajuste fiscal.
Citações Notáveis
Temos uma recuperação importante desde a pandemia e em 2023, um crescimento surpreendente. Todos nós, o mercado e nós do banco, fomos surpreendidos— Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander
País tem desafio macroeconômico, mas está muito bem posicionado. Em termos de transição energética, temos o melhor custo-benefício de descarbonização hoje— Ana Paula Vescovi
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que a safra de soja foi tão importante para revisar a projeção de crescimento para cima?
Porque a agricultura representa uma fatia significativa do PIB brasileiro, e quando você tem uma safra 25% maior que o ano anterior, isso não é um ajuste marginal — é uma mudança real na atividade econômica. Além disso, commodities agrícolas geram divisas, e isso alimenta o superávit comercial.
O mercado de trabalho resiliente parece ser um fator tão importante quanto a agricultura. Como isso se conecta?
Exatamente. Enquanto a agricultura dá um impulso de curto prazo, o emprego sustenta a demanda interna. Mais pessoas trabalhando significa mais consumo, mais renda nas famílias. A reforma trabalhista reduziu litígios, o que torna mais fácil para as empresas contratar. É um círculo virtuoso.
Mas você mencionou que o Santander espera apenas 1% de crescimento para 2024. Por que tão baixo?
Porque a safra de 2024 deve se manter no mesmo nível de 2023 — não há mais surpresa ali. E o crescimento de 2023 foi impulsionado por fatores que não se repetem. Em 2024, você volta a uma economia mais "normal", com crescimento mais modesto.
O risco fiscal parece ser o elefante na sala. Como isso afeta o consumidor comum?
Se o governo não conseguir equilibrar as contas, a dívida cresce, os juros sobem para financiá-la, e isso pressiona a taxa Selic. Juros mais altos encarecem o crédito para as famílias, reduzem o consumo, desaceleram a economia. É um risco que não é imediato, mas é real.
A dependência dos juros americanos também parece crítica.
Sim. Se os EUA mantiverem juros altos por mais tempo, o Brasil precisa acompanhar para manter a moeda competitiva e atrair investimento estrangeiro. Isso limita a capacidade do Banco Central de cortar juros, mesmo que a inflação caia.
Então, resumindo: Brasil cresceu mais que esperado, mas tem que resolver sua casa fiscal?
Isso. É um país bem posicionado em muitos aspectos — energia, agricultura, mercado de trabalho — mas com um desafio macroeconômico real que não pode ser ignorado.