Tem teste, mas não tem a vaga para a senhora
No limiar de 2022, o Distrito Federal se viu diante de uma convergência de crises sanitárias: a aceleração da Covid-19 e uma onda de Influenza A H3N2 sobrecarregaram simultaneamente as unidades de saúde públicas, revelando a distância entre os estoques declarados pelo poder público e o acesso real vivenciado pela população. Filas, senhas esgotadas e horas de espera tornaram-se o retrato cotidiano de quem buscava apenas um teste ou um atendimento básico. É um momento que recorda, mais uma vez, que sistemas de saúde são tão resilientes quanto sua capacidade de distribuir — não apenas de acumular.
- UPAs e UBSs do DF amanheceram lotadas, com pacientes esperando do lado de fora e filas de até cinco horas apenas na triagem de alguns hospitais.
- A Secretaria de Saúde afirmava ter 800 mil testes em estoque, mas nas unidades as senhas se esgotavam logo cedo, deixando pacientes sintomáticos sem acesso ao exame no mesmo dia.
- O surto simultâneo de Influenza A H3N2 ampliou a demanda, com muitos buscando testes de gripe que, segundo o protocolo oficial, não estavam disponíveis na atenção primária.
- A falha no sistema de informações da UPA do Gama agravou ainda mais o caos, gerando aglomerações na sala de espera em plena onda de transmissão.
- A orientação oficial — repouso, hidratação e alimentação — soava distante para quem já estava nas ruas enfrentando filas para conseguir um simples teste de Covid-19.
No início de janeiro de 2022, as unidades de saúde do Distrito Federal começaram o ano sob pressão intensa. Nas portas das UPAs e das Unidades Básicas de Saúde, filas se formavam desde cedo, impulsionadas pela aceleração da Covid-19 e por uma onda paralela de Influenza A H3N2 que dobrou a demanda por atendimento e testes.
Na UPA do Recanto das Emas, pacientes aguardavam do lado de fora, com apenas os casos mais graves sendo atendidos. No Hospital Regional Leste, no Paranoá, a espera chegava a cinco horas só na triagem. No Gama, uma falha no sistema de informações gerou aglomeração na sala de espera. O cenário se repetia em diferentes pontos da capital.
O acesso aos testes de Covid-19 revelou uma contradição incômoda. Enquanto a Secretaria de Saúde garantia ter mais de 800 mil testes em estoque, pacientes relatavam encontrar senhas esgotadas logo pela manhã. Em uma gravação que circulou, um atendente de UBS confirmou que havia testes disponíveis — mas não havia vagas para aplicá-los. Uma mulher sintomática questionou se teria que sair de casa novamente no dia seguinte para fazer o exame, caso estivesse infectada.
Sobre a Influenza, a Secretaria esclareceu que a testagem para gripe não integrava o protocolo da atenção primária, pois o tratamento era o mesmo independentemente do subtipo viral. Os testes de influenza ocorriam apenas em oito unidades sentinelas, com fins epidemiológicos. A orientação oficial para casos leves era repouso, hidratação e alimentação — uma recomendação que soava distante para quem já enfrentava horas de fila em busca de um simples diagnóstico.
No início de janeiro de 2022, as unidades de saúde do Distrito Federal enfrentavam uma pressão crescente. Filas se formavam nas portas das Unidades de Pronto Atendimento e nas Unidades Básicas de Saúde, com pessoas em busca de testes para Covid-19 e atendimento para sintomas gripais. A transmissão do coronavírus havia acelerado, e junto com ela veio uma onda de casos de Influenza A H3N2 que amplificou ainda mais a demanda.
Na terça-feira 4 de janeiro, a UPA do Recanto das Emas estava tão cheia que pacientes esperavam do lado de fora da unidade. Relatos indicavam que apenas os casos mais graves conseguiam ser atendidos. Situação semelhante se repetia em outros pontos da capital: no Hospital Regional Leste, no Paranoá, pessoas aguardavam até cinco horas apenas na triagem. Na UPA do Núcleo Bandeirante, as reclamações sobre demora eram constantes. Na UPA do Gama, o sistema de informações saiu do ar na segunda-feira, causando aglomeração na sala de espera.
O acesso aos testes de Covid-19 revelava-se particularmente problemático. A Secretaria de Saúde do Distrito Federal afirmava ter mais de 800 mil testes em estoque nas Unidades Básicas de Saúde, além de postos no Aeroporto de Brasília e na Rodoviária do Plano Piloto. Mas a realidade que os pacientes vivenciavam era outra. Uma mulher gravou uma conversa com um atendente da UBS do Riacho Fundo em que o funcionário informava que ela não poderia fazer o teste naquele dia porque as senhas da manhã e da tarde já haviam acabado. Quando ela questionou se havia testes disponíveis, o atendente confirmou que havia, mas não havia vaga. A mulher, com sintomas, perguntou se precisaria voltar no dia seguinte — e se estivesse infectada, teria que sair de casa novamente para fazer o exame.
A Secretaria de Saúde reconhecia o cenário de sobrecarga. Em comunicado oficial, a pasta afirmou que o aumento de casos de síndrome gripal registrados em todo o Brasil e no Distrito Federal havia contribuído para um aumento na demanda dos hospitais da rede. Ainda assim, garantia que as unidades continuavam atendendo todas as demandas de urgência e emergência, sem falta de assistência à população.
O surto de Influenza A H3N2 adicionava uma camada de complexidade ao problema. Muitas pessoas procuravam testes para gripe, mas a Secretaria de Saúde esclareceu que a testagem de Influenza não fazia parte do protocolo comum de atendimento na Atenção Primária. Segundo Paula Lawall, subsecretária de Atenção Integral à Saúde, a identificação do sorotipo viral não era necessária para iniciar o tratamento, que permanecia o mesmo para todos os casos de síndrome gripal sem complicação. Os testes de gripe ocorriam apenas em oito unidades sentinelas espalhadas pela capital, e mesmo nessas, o rastreio era feito de forma aleatória para identificar os subtipos em circulação e incorporá-los na vacina do ano seguinte.
A orientação da Secretaria para quem apresentava sintomas de gripe era simples: hidratação, repouso e boa alimentação. Caso os sintomas se agravassem, o paciente deveria procurar uma unidade de saúde. Mas para quem já estava nas ruas em busca de um teste de Covid-19, essa orientação soava distante da realidade das filas que enfrentavam.
Notable Quotes
O aumento dos casos de síndrome gripal registrados em todo Brasil e no Distrito Federal tem contribuído para um aumento na demanda dos hospitais da rede— Secretaria de Saúde do DF
A identificação do sorotipo viral não é necessária para que seja iniciado o plano terapêutico e não muda a conduta clínica— Paula Lawall, subsecretária de Atenção Integral à Saúde
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que as pessoas estão tão desesperadas para fazer o teste se a Secretaria diz que tem 800 mil em estoque?
Porque estoque não é o mesmo que acesso. Os testes existem, mas as unidades têm limite de senhas por dia. Quando você chega e já se foram todas, você volta para casa sem resposta.
E se a pessoa estiver realmente infectada e sair de casa novamente?
Exatamente o dilema que a mulher do Riacho Fundo colocou. Ela precisava do teste para saber se tinha Covid, mas para conseguir o teste teria que se expor novamente.
A Secretaria diz que está atendendo todas as emergências. Isso não é verdade?
Tecnicamente pode ser verdade para emergências graves. Mas gripe e Covid-19 não são sempre emergências óbvias no primeiro momento. As pessoas querem diagnóstico, não apenas atendimento de urgência.
Por que a testagem de gripe não faz parte do protocolo?
Porque saber qual vírus você tem não muda o tratamento. É repouso, hidratação, alimentação — igual para todos. Os testes sentinela existem para rastrear quais cepas estão circulando, não para diagnosticar cada paciente.
Então o sistema está funcionando como deveria, só que está sobrecarregado?
Sim. O sistema existe e tem lógica. Mas quando duas epidemias batem à porta ao mesmo tempo, a lógica não aguenta a pressão.