Costa promete honrar contrato do Novo Banco apesar de chumbo parlamentar

Contrato assinado tem de ser honrado, lei que existe tem de ser respeitada
Costa recusa detalhar alternativas legais mas garante que o Governo cumprirá o compromisso com o Novo Banco apesar do bloqueio parlamentar.

Orçamento 2021 aprovado com medidas de esperança: lay-off a 100%, mil milhões para PME e reforço do SNS. Costa promete cumprir contrato com Lone Star sobre capitalização do Novo Banco apesar do chumbo parlamentar das verbas.

  • Orçamento 2021 aprovado com lay-off a 100%, mil milhões para PME e reforço do SNS
  • Parlamento rejeitou inscrição de verbas para Fundo de Resolução do Novo Banco
  • Contrato com Lone Star obriga a injeções de capital quando rácios de solvência caem abaixo dos limites
  • Costa criticou Bloco de Esquerda e PSD pela rejeição de fundos e aprovação de descida de portagens

António Costa aprova Orçamento do Estado 2021 mas critica Bloco de Esquerda e PSD pela rejeição de fundos para o Novo Banco e aprovação de descida de portagens, prometendo honrar compromissos internacionais.

O Orçamento do Estado para 2021 foi aprovado na quarta-feira, mas a vitória legislativa veio acompanhada de uma derrota que deixou o primeiro-ministro visível e irritado. Saindo da votação final, António Costa dirigiu-se aos jornalistas com uma mensagem clara: o Parlamento tinha rejeitado a inscrição de verbas para o Fundo de Resolução, o mecanismo que financia as injeções de capital no Novo Banco quando os seus rácios de solvência caem abaixo dos limites regulatórios. Mas o contrato assinado com a Lone Star, a empresa que comprou o banco em 2017, seria honrado de qualquer forma.

Costa não detalhou quais seriam as alternativas legais para contornar o bloqueio parlamentar. Preferiu falar em princípios. "Contrato assinado tem de ser honrado, lei que existe tem de ser respeitada e a legalidade tem de ser respeitada num país de estado de direito", disse, com um tom que sugeria que a questão não era técnica, mas moral. O primeiro-ministro estava a dirigir-se tanto aos portugueses quanto aos credores internacionais e aos mercados financeiros que observavam a situação: Portugal não é um país que quebra os seus compromissos, mesmo quando o Parlamento tenta impedir.

A frustração de Costa tinha dois alvos específicos. O Bloco de Esquerda, que tinha sido parceiro do Governo na legislatura anterior, tinha desertado no momento crítico. E Rui Rio, líder do PSD, tinha cedido à tentação populista ao aprovar a descida de portagens nas antigas estradas de portagem, uma medida que Costa considerava irresponsável e prejudicial à imagem internacional do país. "É muito triste ver como é que, num momento de crise tão grave, como é que não hesitaram em desertar perante a primeira dificuldade", disse sobre o Bloco. E sobre Rio: "Como é que um político com tantos anos experiência deita pela janela a credibilidade de afirmações que fez, relativamente às portagens, e volta atrás para obter popularidade efémera."

O primeiro-ministro prometeu que o Governo faria "tudo" para que aqueles que "quiseram brincar com fogo não queimem o país". A linguagem era dramática porque a situação o era: se Portugal não conseguisse honrar o contrato do Novo Banco, a sua credibilidade internacional ficaria abalada num momento em que o país precisava de confiança dos mercados para financiar a recuperação pós-pandemia. Costa assegurou que o Estado português continuaria a ser um estado de direito, que honraria as leis e os contratos que assinava, independentemente das maiorias negativas que pudessem surgir no Parlamento.

Mas o Orçamento aprovado também tinha dimensões positivas que Costa quis destacar. O documento previa o pagamento a 100% do lay-off para trabalhadores em situação de desemprego técnico, mil milhões de euros a fundo perdido para micro, pequenas e médias empresas, e um reforço significativo do Serviço Nacional de Saúde. Estas medidas refletiam, na visão do primeiro-ministro, uma "dimensão de esperança" num momento em que o país enfrentava simultaneamente a pandemia de covid-19 e uma crise económica e social profunda.

Costa reconheceu que a aprovação de um orçamento não resolvia magicamente todos os problemas do país. Mas insistiu que era uma ferramenta indispensável para que o Governo pudesse agir. A sua mensagem final foi de determinação inabalável: quanto mais difícil fosse a situação, mais determinado estaria em seguir em frente. O país não perdoaria se o Governo não fizesse o que tinha de fazer, e se não honrasse todos os compromissos que tinha assumido. A luta continuava.

Tudo faremos para que aqueles que quiseram brincar com fogo não queimem o país
— António Costa, primeiro-ministro
É muito triste ver como é que, num momento de crise tão grave, como é que não hesitaram em desertar perante a primeira dificuldade
— António Costa, sobre o Bloco de Esquerda
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Porque é que Costa insistiu tanto em falar de "honrar contratos" quando o Parlamento tinha claramente dito não?

Model

Porque o contrato não é apenas com um banco português. É com a Lone Star, uma empresa estrangeira, e com os mercados internacionais que estão a observar se Portugal cumpre as suas obrigações. Se o Governo não conseguir contornar isto, a mensagem é: Portugal não honra os seus compromissos.

Inventor

Mas o Parlamento votou contra. Não é isso uma forma de democracia a funcionar?

Model

É, mas Costa vê isto como populismo a vencer a responsabilidade. O Bloco desertou, o PSD cedeu às portagens. Ninguém quis fazer o trabalho difícil de explicar por que é que o Novo Banco importa.

Inventor

E as alternativas legais que Costa mencionou mas não explicou?

Model

Exatamente. Ele sabia que não podia detalhar porque ainda não tinha a resposta. Mas precisava de tranquilizar os mercados de que haveria uma solução.

Inventor

Então o Orçamento foi aprovado, mas o Governo saiu enfraquecido?

Model

Aprovado, sim. Mas com uma ferida aberta. Costa conseguiu o Orçamento, mas perdeu a confiança de parceiros que tinha. E agora tem de encontrar uma forma de cumprir uma promessa que o Parlamento rejeitou.

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