Poupança volta a render mais com Selic em 9,25%, mas fica abaixo de outras aplicações

A poupança fica limitada enquanto outras aplicações oferecem retornos superiores
Com a Selic acima de 8,5%, a caderneta enfrenta um teto de rendimento que a torna menos competitiva que alternativas similares.

Quando a taxa básica de juros do Brasil ultrapassou 8,5% ao ano pela primeira vez em quatro anos, uma regra silenciosa de 2012 entrou em vigor: a poupança deixou de acompanhar a Selic e passou a render um teto fixo, enquanto o restante do mercado financeiro segue subindo. É um momento que revela como instrumentos criados para proteger o pequeno poupador podem, em determinados ciclos, trabalhar contra ele. O Banco Central reconhece o dilema, mas caminha com cautela — ciente de que mexer nas regras da caderneta mais popular do país é uma operação de consequências imprevisíveis.

  • A Selic chegou a 9,25% ao ano e ativou automaticamente um teto de rendimento para a poupança, congelando seus ganhos em 6,17% ao ano mais TR enquanto o mercado avança.
  • Tesouro Selic, CDBs e fundos DI já entregam retornos líquidos superiores, tornando a poupança a opção menos eficiente entre aplicações de perfil semelhante.
  • Os saques batem recordes históricos pelo quarto mês consecutivo, com 12,4 bilhões de reais retirados só em novembro — sinal de que os investidores já migraram para alternativas mais rentáveis.
  • O presidente do Banco Central admite estudar mudanças na caderneta, mas alerta que qualquer reforma exige consulta pública e cuidado para não desestabilizar o sistema de captação.
  • A discussão permanece em aberto: a poupança está presa entre um teto que limita seus ganhos e uma concorrência crescente que não encontra o mesmo obstáculo.

A taxa Selic chegou a 9,25% ao ano nesta semana, superando pela primeira vez em quatro anos o patamar de 8,5% — e ativando, de forma automática, uma regra que muda o funcionamento da poupança. Desde 2012, a caderneta opera sob dois regimes distintos: abaixo desse limite, rende 70% da Selic mais a TR; acima dele, o retorno fica travado em 0,5% ao mês, ou cerca de 6,17% ao ano, acrescido da TR. A mudança vale apenas para depósitos feitos a partir de maio de 2012.

Com a Selic anterior, em 7,75%, a poupança rendia 5,43% ao ano. Agora sobe para aproximadamente 6,96% — uma melhora aparente que esconde um problema estrutural. Simulações feitas por professores do Insper mostram que o Tesouro Selic entrega 7,73% líquido ao ano, enquanto CDBs e fundos DI chegam a 7,63%. A poupança fica para trás, mesmo isenta de imposto de renda.

O resultado é uma fuga acelerada de recursos. Em novembro, os saques superaram as aplicações em 12,4 bilhões de reais — o quarto mês consecutivo de retiradas líquidas e o terceiro recorde histórico seguido para um mês específico desde 1995. Setembro e outubro também registraram saques inéditos para seus respectivos períodos.

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, reconheceu o problema em evento de novembro, afirmando que a instituição estuda formas de melhorar a rentabilidade da caderneta. Ele ressaltou, porém, que qualquer mudança precisaria de consulta pública e cautela para evitar rupturas no sistema. Quando a Selic estava em 2%, o temor era de migração excessiva para a poupança; agora, o risco é o oposto. Consultado pelo InfoMoney, o Banco Central preferiu não se manifestar. O debate segue sem conclusão.

A taxa básica de juros do Brasil ultrapassou um marco importante nesta semana. O Banco Central elevou a Selic para 9,25% ao ano, marcando a primeira vez em quatro anos que a taxa superou o patamar de 8,5%. Para a poupança, essa mudança tem consequências diretas — e nem todas positivas.

Desde 2012, a caderneta de poupança funciona sob duas regras distintas, acionadas automaticamente conforme o nível da Selic. Quando a taxa fica abaixo de 8,5% ao ano, como ocorreu desde 2017 até agora, o rendimento equivale a 70% da Selic mais a variação da taxa referencial. Mas quando a Selic ultrapassa esse limite, a fórmula muda: o retorno passa a ser fixo em 0,5% ao mês, ou aproximadamente 6,17% ao ano, acrescido da TR. Essa mudança de regra foi estabelecida há uma década e afeta apenas os depósitos realizados a partir de 4 de maio de 2012. Quem colocou dinheiro na poupança antes dessa data continua recebendo os rendimentos antigos, independentemente do nível da Selic.

Com a Selic anterior, em 7,75% ao ano, a poupança rendia 5,43% ao ano. Agora, com a taxa em 9,25%, o rendimento sobe para aproximadamente 6,96% bruto ao ano. Parece uma melhora, mas o cenário revela um problema estrutural. Enquanto a poupança fica limitada a esse teto, outras aplicações com características similares — como Certificados de Depósito Bancário oferecendo 100% do CDI, o Tesouro Selic e fundos DI com taxas administrativas próximas de zero — todas oferecem retornos superiores. Uma simulação realizada por professores do Insper para uma aplicação de mil reais durante um ano mostrou que o Tesouro Selic entrega 7,73% líquido ao ano, enquanto a poupança rende 6,96% líquido. Os CDBs e fundos DI ficam em 7,63% líquido. A diferença pode parecer pequena, mas se amplifica em volumes maiores e períodos mais longos.

Essa desvantagem tem impulsionado uma fuga acelerada de recursos. Segundo dados do Banco Central, os saques superaram as aplicações na poupança pelo quarto mês consecutivo em novembro, com retiradas líquidas de 12,4 bilhões de reais. Mais impressionante ainda: essa foi a terceira vez seguida que os resgates bateram recorde em um mês específico desde que a série histórica começou em 1995. Setembro registrou saques de 7,719 bilhões e outubro de 7,430 bilhões — ambos inéditos para seus respectivos meses. A migração dos investidores para títulos de renda fixa com retornos mais atrativos está esvaziando a caderneta em ritmo acelerado.

O cenário não passou despercebido pelas autoridades. Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, afirmou em evento no fim de novembro que a instituição estava estudando formas de melhorar a rentabilidade da poupança. Ele ressaltou, porém, que qualquer mudança precisa ser feita com cautela para não criar rupturas no sistema. Campos Neto observou que seria importante uma poupança mais alinhada com a destinação de recursos e que mudanças precisariam passar por consulta pública, ouvindo todos os envolvidos. O presidente também sinalizou uma preocupação dupla: quando a Selic estava em 2%, havia temor de migração excessiva para a poupança; agora, com os juros subindo, o risco é o oposto — a saída em massa de recursos. Quando questionado pelo InfoMoney sobre o avanço desses estudos, o Banco Central preferiu não se posicionar. A discussão sobre o futuro da poupança segue em aberto, com a caderneta pressionada entre a limitação de seus rendimentos e a atração crescente de alternativas mais rentáveis.

Seria importante uma poupança mais casada com a destinação de recursos
— Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central
Com a Selic em 2%, estávamos preocupados com a migração alta para a poupança. Com a taxa de juros subindo, temos preocupação com a saída de recursos da poupança
— Roberto Campos Neto
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que a poupança tem duas regras diferentes? Parece complicado.

Model

É uma tentativa de equilibrar dois objetivos. Quando a Selic está baixa, a poupança fica mais atrativa para proteger a captação de recursos. Quando sobe, a regra muda para evitar que o Estado pague demais. Mas o efeito é exatamente o oposto do que se pretendia.

Inventor

Como assim?

Model

Quando os juros sobem, as pessoas saem da poupança porque outras aplicações ficam mais rentáveis. Justamente quando o Banco Central gostaria que o dinheiro permanecesse lá.

Inventor

E por que não simplesmente aumentar o rendimento da poupança?

Model

Porque isso teria custo fiscal. A poupança é um instrumento de política pública, não apenas um investimento. Aumentar seu retorno significaria o governo pagando mais juros, o que afeta as contas públicas.

Inventor

Então está preso em um dilema.

Model

Exatamente. Se deixa a poupança pouco atrativa, as pessoas saem. Se a torna atrativa, custa caro ao tesouro. Campos Neto falou em fazer mudanças com cautela justamente por isso.

Inventor

E quem sai da poupança vai para onde?

Model

Para CDBs, Tesouro Selic, fundos DI — basicamente, renda fixa que oferece mais retorno. São aplicações seguras, com liquidez diária, mas que rendem melhor. É uma migração natural quando as oportunidades aparecem.

Inventor

Isso é ruim para o sistema?

Model

Depende da perspectiva. Para quem poupa, é ótimo — rende mais. Para o Banco Central, é complicado porque afeta a captação de recursos. E para a poupança como instrumento de inclusão financeira, é preocupante, porque historicamente ela era o lugar onde pessoas com menos recursos guardavam dinheiro.

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