O gado emite sozinho mais do que as emissões totais do Japão
Redução de emissões é a segunda maior da história brasileira, puxada pelo controle do desmatamento, enquanto outros setores permaneceram estáveis ou aumentaram. Queimadas em 2024 emitiram 441 milhões de toneladas de CO₂ não contabilizadas, contradizendo o otimismo dos números oficiais de redução.
- Redução de 17% em emissões de CO₂ em 2024, segunda maior da história
- Queimadas emitiram 441 milhões de toneladas de CO₂ não contabilizadas oficialmente
- Rebanho bovino emite 1,1 bilhão de toneladas de CO₂ por ano
- Brasil pode não cumprir meta de 2025 (1,32 bilhão de toneladas), com projeção de 1,44 bilhão
- Meta para 2030 é 1,2 bilhão de toneladas, abaixo da soma de emissões de outros setores
O Brasil registrou queda de 17% nas emissões de CO₂ em 2024, impulsionada pelo combate ao desmatamento, fortalecendo sua posição na COP 30. Porém, explosão de queimadas emitiu 441 milhões de toneladas não contabilizadas oficialmente.
O Brasil conseguiu reduzir suas emissões de dióxido de carbono em 17% durante 2024, a segunda maior queda registrada em toda a história do país. O resultado chega em momento estratégico, poucos meses antes da COP 30, e repousa quase inteiramente sobre um único pilar: o combate ao desmatamento. Enquanto isso, os demais setores da economia — agropecuária, indústria, resíduos e energia — permaneceram estáveis ou cresceram.
Os números provêm do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa, um projeto independente de monitoramento que, embora não seja oficialmente vinculado ao governo federal, ganhou peso político por sua agilidade. O inventário oficial mais recente do governo é de 2022. O SEEG oferece um retrato mais detalhado e atualizado das emissões brasileiras, razão pela qual seus dados circulam com força nos debates climáticos internacionais.
Mas há uma contradição incômoda embutida nesse resultado. Enquanto o desmatamento caiu, 2024 foi marcado por uma explosão de queimadas em todo o país. Os focos de fogo emitiram 441 milhões de toneladas de CO₂ — um volume que quase se equipara às emissões do próprio desmatamento. Bárbara Zimbres, cientista do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, observa que essas emissões por incêndios florestais não entram na contabilidade oficial e aumentaram duas vezes e meia em relação ao ano anterior. A ONU não exige que o Brasil inclua essas emissões em seus relatórios porque presume que árvores degradadas pelo fogo podem se recuperar e reabsorver o carbono. Porém, à medida que a frequência e a intensidade dos incêndios crescem nos biomas brasileiros, essa premissa começa a parecer frágil.
O otimismo do resultado de 2024 também enfrenta outro obstáculo: a projeção para 2025. Embora o ano ainda não tenha terminado, o SEEG estima uma redução adicional de 50 milhões de toneladas em relação a 2024. Ainda assim, essa queda não será suficiente para cumprir a meta estabelecida pela Contribuição Nacionalmente Determinada, o documento oficial que o Brasil entrega à ONU com suas promessas de corte de emissões. O país se comprometeu a não emitir mais de 1,32 bilhão de toneladas líquidas de CO₂ em 2025, mas a projeção aponta para 1,44 bilhão — um estouro estreito, mas um estouro.
A palavra "líquida" nesse compromisso revela uma manobra contábil: o inventário brasileiro desconta as remoções de CO₂ realizadas por suas florestas, já que árvores em crescimento absorvem carbono. Esse recurso, apelidado de "pedalada florestal", inclui no cálculo a remoção de carbono por todas as unidades de conservação e terras indígenas, presumivelmente imunes ao desmate. Cientistas criticam o método, mas a Convenção do Clima da ONU o referenda.
Apesar dessas ressalvas, Márcio Astrini, secretário-geral do Observatório do Clima, afirma que a redução total de emissões terá peso moral significativo para o Brasil na COP 30. Nenhum país do G20 e nenhum dos dez maiores emissores do mundo chegou perto desse nível de queda. O único revés ambiental capaz de contrabalançar essa notícia positiva, segundo Astrini, seria a liberação da prospecção de petróleo na Margem Equatorial — um movimento que comprometeria as negociações climáticas.
O Brasil integra um grupo restrito de nações — junto com Indonésia e República Democrática do Congo — onde o desmatamento emite mais carbono do que petróleo, carvão, gás ou qualquer outro setor. À medida que o combate ao desmate avança, porém, as emissões da agropecuária e da energia correm o risco de se tornar os novos gargalos. A pecuária já é a maior fonte de emissões do país, responsável por metade dos gases-estufa brasileiros. O rebanho bovino sozinho emite 1,1 bilhão de toneladas de CO₂ por ano — mais do que as emissões totais do Japão. O setor elétrico, apesar de metade de sua matriz estar ancorada em fontes renováveis, ainda recorre a termelétricas em anos secos, e em 2024 a eletricidade emitiu 44 milhões de toneladas, um aumento de 17% em relação ao ano anterior.
David Tsai, coordenador do SEEG, resume o desafio à frente: cumprir a meta de 2030 — 1,2 bilhão de toneladas de CO₂ — será "super desafiador", pois esse patamar já está abaixo da soma das emissões de todos os outros setores, excluindo mudança de uso da terra. O controle das emissões no Brasil não pode mais repousar unicamente sobre o combate ao desmatamento. É evidente agora que o país precisa de um aprimoramento simultâneo em agropecuária, energia e transporte.
Citações Notáveis
As emissões por incêndios florestais aumentaram duas vezes e meia em um ano dramático em que o Brasil inteiro queimou— Bárbara Zimbres, Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia
O controle das emissões no Brasil não deve ficar mais só nas costas do controle do desmatamento. Está evidente agora que a gente precisa ter um aprimoramento nos outros setores também— David Tsai, coordenador do SEEG
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Como o Brasil conseguiu uma redução tão expressiva se as queimadas explodiram?
A redução vem quase inteiramente do desmatamento. As queimadas não entram na contabilidade oficial porque a ONU presume que as árvores se recuperam. É uma premissa que está começando a falhar.
Então os números que o Brasil vai apresentar na COP 30 não refletem a realidade completa?
Refletem uma realidade parcial. Os 441 milhões de toneladas de CO₂ das queimadas são reais, mas invisíveis nos relatórios oficiais. É uma contradição que fica cada vez mais difícil de ignorar.
E quanto às metas futuras? O Brasil conseguirá cumprir?
Provavelmente não em 2025. E em 2030 será ainda mais difícil, porque o desmatamento está caindo, mas a agropecuária e a energia não estão. O gado sozinho emite mais do que países inteiros.
Qual é o maior risco agora?
Que o Brasil use essa vitória no desmatamento como desculpa para não enfrentar os outros setores. A pecuária, a energia, o transporte — tudo isso precisa mudar simultaneamente.
A liberação do petróleo na Margem Equatorial mudaria tudo isso?
Completamente. Seria um sinal de que o país está disposto a sacrificar o futuro climático por ganho econômico de curto prazo. Anularia moralmente tudo o que foi conquistado.