O etanol emite 80% menos gases de efeito estufa que a gasolina
Em outubro de 2023, o etanol voltou a ocupar um lugar privilegiado na escolha dos motoristas brasileiros: em nove estados, sua relação de preço com a gasolina caiu para 63%, bem abaixo do limiar de 70% que define sua vantagem econômica. Mas o que se revela nas bombas de combustível é apenas a superfície de uma transformação mais profunda — um biocombustível que fecha ciclos de carbono, limpa motores e começa a navegar pelos oceanos em busca de um mundo com menos emissões.
- Com o litro a R$ 3,55 contra R$ 5,61 da gasolina, o etanol tornou-se a escolha racional em nove estados, reacendendo uma demanda que havia esfriado por mudanças tributárias.
- A incerteza paira sobre a duração dessa vantagem: conflitos geopolíticos no Oriente Médio podem elevar o preço da gasolina a qualquer momento, enquanto a entressafra do etanol testa os estoques.
- Minas Gerais projeta moagem recorde de 72 milhões de toneladas de cana, e a Conab prevê expansão de área cultivada, sinalizando que a oferta crescente pode sustentar preços competitivos por meses.
- Além da economia, o etanol emite 80% menos gases de efeito estufa que a gasolina — desde os carros flex, quase 600 milhões de toneladas de CO2 foram evitadas no Brasil.
- A Raízen e a Wärtsilä firmaram acordo para levar o etanol ao transporte marítimo, expandindo o alcance do biocombustível para além das estradas e para os esforços globais de descarbonização.
Nos postos de combustível de Minas Gerais e em outros oito estados brasileiros, o etanol voltou a fazer sentido financeiro. Segundo dados da ANP divulgados em outubro de 2023, a relação entre o preço do biocombustível e o da gasolina caiu para 63,27% — bem abaixo do limiar de 70% que define a vantagem econômica do etanol. Com o litro a R$ 3,55 contra R$ 5,61 da gasolina, a diferença supera dois reais e abrange São Paulo, Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio de Janeiro e Bahia.
Mário Campos, presidente da Siamig, explica que mudanças tributárias anteriores haviam distorcido a percepção dos consumidores, reduzindo a demanda. Agora, com preços mais favoráveis, o consumo retoma o ritmo. Campos acredita que a produção crescente de etanol — que aumentou neste ano — será absorvida pelo mercado interno, sustentando a competitividade por meses. Minas Gerais deve produzir acima de 72 milhões de toneladas de cana nesta safra, com a Conab projetando expansão de área cultivada. A dinâmica da gasolina, porém, permanece vulnerável a tensões geopolíticas, especialmente no Oriente Médio.
A vantagem do etanol não é apenas econômica. Isadora Montebello Capeletti, coordenadora de Sustentabilidade da Raízen, destaca que o biocombustível emite cerca de 80% menos gases de efeito estufa que a gasolina. O ciclo é virtuoso: o CO2 liberado na queima é reabsorvido pela cana durante a fotossíntese. Desde o lançamento dos carros flex, o etanol evitou quase 600 milhões de toneladas de CO2 no Brasil — equivalente a plantar quatro milhões de hectares de Mata Atlântica por ano. O consultor automotivo Sérgio Melo acrescenta que o etanol também oferece maior potência e queima mais limpa, reduzindo a carbonização interna do motor.
O horizonte do etanol se alarga além das estradas. A Raízen e a Wärtsilä firmaram um acordo para explorar o biocombustível no transporte marítimo, setor onde estudos apontam redução de até 80% nas emissões de CO2. Para Paulo Neves, vice-presidente de Trading da Raízen, o etanol é um combustível promissor e já disponível para contribuir com a descarbonização global. O que começou como uma vantagem no bolso do motorista revela, afinal, uma ambição muito maior.
Nos postos de combustível de Minas Gerais e em oito outros estados brasileiros, o etanol voltou a fazer sentido na carteira do motorista. A relação de preço entre o biocombustível e a gasolina caiu para 63,27%, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis divulgados em outubro de 2023. Isso significa que o litro de etanol, vendido a R$ 3,55, custa menos da metade do que a gasolina, que sai por R$ 5,61. A diferença ultrapassa dois reais. Quando essa proporção fica abaixo de 70%, o etanol se torna economicamente atrativo — e agora está bem abaixo desse patamar em São Paulo, Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio de Janeiro e Bahia, além de Minas.
O que explica essa virada? Mário Campos, presidente da Associação das Indústrias Sucroenergéticas de Minas Gerais, aponta que alterações tributárias haviam prejudicado a percepção dos consumidores sobre as diferenças de preço nos meses anteriores, reduzindo a demanda. Agora, com a relação de preço mais favorável, o consumo de etanol retoma seu ritmo. A questão é simples: quando o preço fica vantajoso, as pessoas escolhem o combustível mais barato. Campos não consegue prever por quanto tempo essa competitividade durará, mas acredita que a tendência é a produção crescente de etanol — que aumentou este ano — ser absorvida pelo mercado interno, criando uma pressão de preços que pode se estender por alguns meses, inclusive durante o período de entressafra. A dinâmica do preço da gasolina, por sua vez, segue vulnerável a fatores geopolíticos, como a situação no Oriente Médio, região que controla grande parte da distribuição global de combustíveis fósseis.
Minas Gerais deverá produzir acima de 72 milhões de toneladas de cana-de-açúcar nesta safra, conforme estimativas da Siamig. A expectativa é que a produção supere até mesmo a moagem registrada em 2020. A Companhia Nacional de Abastecimento também projeta não apenas melhora no rendimento das lavouras, mas expansão da área destinada ao cultivo.
Mas o etanol não atrai apenas pela carteira. Do ponto de vista ambiental, o biocombustível oferece vantagens significativas. Isadora Montebello Capeletti, coordenadora de Sustentabilidade da Raízen, empresa integrada de energia, explica que o etanol emite cerca de 80% menos gases de efeito estufa na atmosfera em comparação com a gasolina comum. Isso ocorre porque o dióxido de carbono liberado na queima do combustível no motor é recuperado quando a cana-de-açúcar cresce — as plantas absorvem carbono durante a fotossíntese. O ciclo fecha. Desde o lançamento dos carros flex, que permitem ao motorista escolher entre etanol e gasolina, o consumo de etanol evitou a emissão de quase 600 milhões de toneladas de CO2 no Brasil. Para colocar em perspectiva, isso equivale aproximadamente a plantar quatro milhões de hectares com árvores da Mata Atlântica a cada ano. A tecnologia flex representa, portanto, uma oportunidade concreta para o motorista participar da transição energética.
Além das emissões reduzidas, o etanol oferece benefícios mecânicos. Sérgio Melo, consultor automotivo, aponta que veículos abastecidos com etanol apresentam maior potência e melhor desempenho. Há também a questão da limpeza interna do motor: enquanto a gasolina deixa resíduos em alguns componentes, o etanol produz uma queima mais limpa na câmara de combustão, reduzindo a carbonização.
O potencial do etanol vai além das ruas. A Raízen e a Wärtsilä, líder global em tecnologias para os setores marítimo e de energia, assinaram um acordo de descarbonização para reduzir emissões no transporte marítimo. Um estudo liderado pela Raízen mostrou que substituir combustíveis fósseis por etanol produzido de forma sustentável no setor marítimo pode reduzir as emissões de CO2 em até 80%. O biocombustível oferece flexibilidade e viabilidade conforme a indústria avança em direção a um portfólio diversificado de combustíveis com menores emissões. Paulo Neves, vice-presidente de Trading da Raízen, vê o etanol como um combustível promissor e prontamente disponível, capaz de contribuir para os esforços globais de descarbonização do setor marítimo. O que começou como uma vantagem econômica na bomba de gasolina agora se expande para horizontes bem mais amplos.
Citas Notables
A questão econômica pesa bastante para a escolha do consumidor, e agora observamos a retomada do consumo de álcool— Mário Campos, presidente da Associação das Indústrias Sucroenergéticas de Minas Gerais
O etanol é um combustível promissor prontamente disponível e pode contribuir para os esforços globais de descarbonização do setor marítimo— Paulo Neves, vice-presidente de Trading da Raízen
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que o etanol ficou tão mais barato agora? Isso é permanente?
Não é permanente. A produção cresceu este ano e está sendo absorvida pelo mercado interno, o que cria pressão nos preços. Isso pode durar alguns meses, mas depende também do preço da gasolina, que é influenciado por conflitos geopolíticos e pela dinâmica do petróleo.
Se o etanol é tão melhor para o ambiente, por que não é sempre mais barato?
Porque o preço segue a oferta e a demanda. Quando há muita produção e pouca demanda, o preço cai. Mas isso não significa que o etanol seja intrinsecamente mais barato — é uma questão de mercado, não de natureza.
Esse número de 80% menos emissões — como funciona isso na prática?
O carbono que sai do escapamento do carro é absorvido novamente pela cana-de-açúcar quando ela cresce. É um ciclo fechado. Com a gasolina, aquele carbono fica na atmosfera. Por isso o etanol é considerado mais limpo.
E nos motores, há diferença real ou é só marketing?
Há diferença real. O etanol queima mais limpo, deixa menos resíduo na câmara de combustão e oferece mais potência. Não é marketing — é química.
Por que as empresas estão colocando etanol em navios?
Porque o setor marítimo é responsável por muitas emissões e precisa descarbonizar. O etanol oferece uma solução viável e disponível agora, não é algo que depende de tecnologia futura. Pode reduzir emissões em até 80% no transporte marítimo também.
Minas vai produzir 72 milhões de toneladas de cana. Tudo isso vira etanol?
Nem tudo. A cana é usada para açúcar, etanol e outros produtos. Mas a estimativa é que a produção supere a de 2020, e com mais oferta, mais etanol pode chegar ao mercado interno.