Cientistas detetam sinais de formação de nova fronteira de placas tectónicas em África

Como é que começa um novo limite de placas? As fases iniciais são muito mais subtis.
A questão fundamental que os cientistas esperam responder estudando a Fenda de Kafue e o seu potencial para se tornar uma nova fronteira tectónica.

Análise de hélio em fontes termais da Zâmbia revela atividade do manto terrestre, sugerindo que a Fenda de Kafue está tectonicamente ativa após séculos de dormência. O processo de divisão continental levaria entre alguns milhões a 20 milhões de anos, com sismos, vulcões e formação de lagos antes da criação de um novo oceano.

  • Amostras de hélio de seis locais na Zâmbia mostram sinais de atividade do manto terrestre
  • A Fenda de Kafue faz parte de uma linha de rift com 2.500 quilómetros de comprimento
  • O processo de divisão continental levaria entre alguns milhões a 20 milhões de anos
  • A Zâmbia poderá beneficiar com energia geotérmica e extração de hélio

Investigadores descobriram evidências geoquímicas de que a Fenda de Kafue, em África, pode estar a transformar-se numa nova fronteira de placas tectónicas, processo que levaria milhões de anos e poderia dividir a África Subsariana.

Debaixo da Zâmbia, água quente borbulha à superfície através de fontes termais e poços geotérmicos. Rūta Karolytė e a sua equipa recolheram amostras dos gases que sobem dessa água — um trabalho que levou a uma descoberta que pode reescrever o futuro geológico de um continente inteiro. Nas proporções de hélio que encontraram, viram sinais de que o manto terrestre, aquela camada profunda entre a crosta e o núcleo que se estende por centenas de quilómetros, está a comunicar com a superfície. E isso sugere que a Fenda de Kafue, uma cicatriz na terra que os geólogos acreditavam estar morta há muito tempo, pode estar acordar.

A Fenda de Kafue é apenas um segmento de uma linha de rift que se estende por aproximadamente 2.500 quilómetros, desde a Tanzânia até à Namíbia. Um rift é uma fenda na crosta terrestre onde o solo pode afundar-se e onde ocorrem sismos. Existem milhares deles espalhados pelo planeta, e embora a maioria esteja inativa ou completamente morta, alguns ocasionalmente reativam-se. Durante décadas, os geólogos pensaram que a Fenda de Kafue era um desses rifts extintos. Mas nas últimas décadas, começaram a aparecer pistas de que algo estava a mudar. Sismos demasiado fracos para as pessoas sentirem, mas suficientemente fortes para os instrumentos detetarem. Aumentos na temperatura subterrânea. Pequenas alterações na elevação do solo, visíveis apenas através de satélites. Tudo isto apontava para uma possibilidade perturbadora: a fenda podia estar tectonicamente ativa.

O novo estudo, publicado em maio na revista Frontiers in Earth Science, vai mais longe do que qualquer investigação anterior. Pela primeira vez, os cientistas têm dados geoquímicos diretos da área. Karolytė, que liderou o trabalho quando era investigadora de pós-doutoramento na Universidade de Oxford, explica que encontraram mais hélio-3 do que normalmente se encontra na crosta terrestre — um sinal revelador de que fluidos do manto estão a subir para a água. Recolheram amostras de apenas seis locais numa área concentrada, e quando testaram duas fontes termais a cerca de 95 quilómetros de distância, não encontraram o mesmo padrão. Isto sugere que a atividade está localizada, e que está relacionada com a fenda.

O que torna isto significativo é o que pode significar para o futuro. Se a Fenda de Kafue se está realmente a transformar numa nova fronteira de placas tectónicas, África Subsariana pode dividir-se. Não amanhã, nem no próximo século, mas eventualmente. As placas tectónicas são gigantescas peças de rocha sólida que variam em tamanho desde algumas centenas até milhares de quilómetros de diâmetro, e deslizam sobre o manto a uma velocidade comparável ao crescimento das unhas humanas. Há cerca de 200 milhões de anos, o movimento destas placas começou a separar a Pangeia nos continentes que conhecemos hoje. Esse processo continua, e é ele que impulsiona sismos e vulcões. Uma fenda ativa em desenvolvimento pode, teoricamente, transformar-se numa fronteira de placa — mas não necessariamente. "Estas fendas geralmente começam e param, ou podem expandir-se um pouco e parar novamente. É difícil prever o que vai acontecer", diz Karolytė.

Se a transformação ocorrer, levaria tempo. Muito tempo. Mike Daly, coautor do estudo e professor convidado de Ciências da Terra na Universidade de Oxford, estima que na melhor das hipóteses isto poderia acontecer daqui a alguns milhões de anos; na pior, poderia demorar 10 a 20 milhões de anos. Antes disso, a região veria muito mais sismos e alguma atividade vulcânica, com lava a fluir. Surgiriam fendas profundas onde a água ficaria estagnada, formando lagos semelhantes aos que existem hoje na África Oriental. Finalmente, viria o mar — um oceano completamente novo, criado pela separação de um continente.

Mas há benefícios mais imediatos. A Zâmbia, um país sem litoral, poderá aproveitar economicamente a energia geotérmica — centrais geotérmicas estão já a surgir na região. O país poderia também recolher hélio, um elemento muito procurado com aplicações em medicina e tecnologia. Os investigadores estão agora a recolher mais amostras de uma área geográfica mais vasta ao longo da suposta fenda, trabalhando num novo estudo com resultados mais abrangentes. Folarin Kolawole, professor assistente na Universidade de Columbia, considera as descobertas inovadoras porque fornecem uma "forte confirmação" de que existe um fluxo ascendente direto de fluidos do manto através de zonas de rift recém-formadas. Estella Atekwana, da Universidade da Califórnia em Davis, concorda que os resultados são significativos, mas adverte que são necessárias mais evidências ao longo de todo o limite proposto. "Esta é uma importante linha de evidência, não a palavra final", diz ela. "Confirmar um novo limite de placas requer um teste completo à escala de limite de placas." O que está em jogo é a oportunidade de observar o nascimento de uma fronteira de placas — algo que raramente se consegue estudar antes de vulcões, grandes sismos e deformações da superfície alterarem as condições originais.

Temos os primeiros dados geoquímicos desta área. Esta é uma linha de evidência bastante diferente que realmente fortalece a ideia de que temos atividade de rift na área.
— Rūta Karolytė, investigadora que liderou o estudo
Se a Fenda de Kafue fizer parte de um limite de placas recém-formado, isto oferece-nos uma rara oportunidade de estudar o surgimento de um limite de placas antes que o vulcanismo, os grandes sismos e as grandes deformações da superfície alterem as condições originais.
— Estella Atekwana, professora de Ciências da Terra e Planetárias na UC Davis
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Porque é que isto importa? Uma fenda que pode levar 20 milhões de anos a fazer qualquer coisa parece muito abstrato.

Model

Porque estamos a ver algo que quase nunca conseguimos ver. Os limites de placas maduros são fáceis de reconhecer — estão nos oceanos, têm vulcões, têm sismos. Mas como é que começam? Essa é uma das questões mais fundamentais da geologia. A Fenda de Kafue pode ser um laboratório vivo.

Inventor

E para as pessoas que vivem lá agora? Qual é o risco?

Model

A curto prazo, não há risco imediato. Mas há mais sismos fracos a acontecer. A longo prazo — e estamos a falar de milhões de anos — a região veria muito mais atividade sísmica e vulcânica. Antes de qualquer divisão continental, haveria mudanças significativas na paisagem.

Inventor

Então a Zâmbia está a ganhar algo com isto?

Model

Sim. A energia geotérmica está já a ser explorada. E o hélio que sobe do manto é valioso — tem aplicações em medicina, em tecnologia, em investigação. Um país sem litoral pode não ter petróleo offshore, mas tem isto.

Inventor

Como é que sabem que isto é real e não apenas um padrão local?

Model

Ainda não sabem completamente. As amostras vieram de apenas seis locais. Por isso estão a recolher mais dados de uma área muito mais vasta. O que têm agora é uma pista forte, não uma prova final.

Inventor

E se estiverem errados?

Model

Então a Fenda de Kafue fica como estava — uma cicatriz antiga na terra. Mas os sinais que estão a ver — o hélio do manto, os sismos fracos, as mudanças de temperatura — tudo isto aponta na mesma direção.

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