O Congresso está decidindo que muito mais brasileiros vão morrer
Luciana Gatti, climatologista titular do Inpe, lança pré-candidatura a deputada federal argumentando que reduzir desmatamento não basta; é necessária restauração florestal urgente para reverter aceleração de eventos extremos. Pesquisadora foi perseguida pelo governo Bolsonaro e atacada por ruralistas; dados mostram 478 mortes por chuvas em 2022 e 601 em 2023, demonstrando que proteção ambiental insuficiente do Congresso mata brasileiros.
- Luciana Gatti, pesquisadora titular do Inpe, lança pré-candidatura a deputada federal pelo PSOL
- 601 brasileiros morreram por eventos climáticos extremos em 2023; 478 em 2022
- Lula reduziu desmatamento em 50% comparado a 2022, mas mortes por chuvas continuaram subindo
- Gatti foi vigiada pela Presidência da República durante governo Bolsonaro
- 24 árvores foram cortadas por segundo só em 2020, segundo Portal PlenaMata
Pesquisadora do Inpe abandona carreira acadêmica para se candidatar a deputada federal pelo PSOL, alertando que decisões do Congresso sobre desmatamento determinarão morte de milhares de brasileiros por eventos climáticos extremos.
Luciana Vanni Gatti está angustiada. A climatologista que passa décadas estudando a Amazônia sabe algo que a maioria dos brasileiros ainda não internalizou completamente: reduzir o desmatamento não é suficiente. A floresta precisa ser restaurada, e precisa ser agora. Essa convicção a levou a uma decisão radical. Em julho de 2026, a pesquisadora titular do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, que coordena o Laboratório de Gases de Efeito Estufa, anunciou sua pré-candidatura a deputada federal pelo PSOL de São Paulo. Não é um movimento calculado de alguém buscando visibilidade. É o gesto desesperado de uma cientista que olha para os números e não consegue mais ficar quieta.
Os dados que ela lidera são perturbadores. Nas regiões mais desmatadas da Amazônia, as chuvas diminuíram e as temperaturas subiram ao longo de décadas. Isso não é especulação climática abstrata. Tem rosto, tem número de mortos. Em 2018, eventos extremos relacionados a chuvas mataram 59 brasileiros. No primeiro ano do governo Bolsonaro, em 2019, foram 297. Durante toda a gestão do ex-presidente, nunca houve menos de 200 mortes anuais por catástrofes climáticas. Em 2022, o último ano de Bolsonaro, a conta chegou a 478. Mesmo depois que Luiz Inácio Lula da Silva retomou o combate ao desmatamento e conseguiu reduzi-lo em 50% comparado a 2022, as mortes não pararam de subir: 601 brasileiros morreram por chuvas em 2023.
Gatti é clara sobre o que isso significa. O Congresso Nacional, ao fragilizar leis de proteção ambiental e direitos indígenas, está tomando decisões que resultarão em morte em massa. "O Congresso está decidindo que muito mais brasileiros vão morrer", ela diz, com a precisão de quem passou três décadas traduzindo dados climáticos em linguagem humana. Ela sabe que parar de desmatar é apenas o começo. É como parar de colocar gasolina em um carro em chamas. O veículo ainda vai queimar. Para reverter a aceleração dos eventos extremos, seria necessário restaurar a floresta ao estado em que estava até 2018. Enquanto isso, o Portal PlenaMata calculou que só em 2020 foram cortadas 24 árvores por segundo.
A decisão de se candidatar não veio do nada. Gatti passou pelo terror do governo Bolsonaro. Foi vigiada diretamente pela Presidência da República. Seus chefes no Inpe consideraram que ela corria risco de vida. Recebeu pressão de autoridades do governo para calar a boca. Seus filhos, parentes e amigos pediam que se protegesse, que não valeria a pena morrer por isso. Mas ela escolheu honrar seus valores. "Se eu me calasse, ia perder o respeito por mim mesma. E aí não valeria a pena continuar vivendo", ela explica. Também foi atacada por ruralistas quando criticou o governador Tarcísio de Freitas pelos incêndios em São Paulo em 2024 e o uso de fogo em plantações de cana-de-açúcar. O secretário de Agricultura do estado a chamou de "nefasta e criminosa". Ela respondeu com ironia: nefasto não é quem tocou fogo na lavoura, mas sim a cientista que dá uma opinião.
Gatti não é ingênua sobre as chances. O PSOL é um partido pobre. Prioriza a reeleição de quem já tem mandato e reserva pouco de seu escasso fundo para iniciantes. Ela sabe que tem pouca chance de se eleger. Mas vê sua candidatura como parte de um movimento maior. Outros cientistas também estão se candidatando: Ricardo Galvão, ex-diretor do Inpe; Wilson Cabral, do ITA; Nísia Trindade, ex-ministra da Saúde e pesquisadora da Fiocruz. Não é um movimento organizado, ela ressalva, mas uma reação ao Congresso da ignorância. "Não dá pra gente assistir ao Congresso do absurdo, da ignorância, e ficarmos no nosso cantinho fazendo ciência", ela diz, exasperada.
Sua crítica vai além do Congresso. Ela aponta que o próprio governo Lula financia a destruição através dos Planos Safra, que colocam dinheiro público na monocultura de soja e carne bovina para exportação. O Ministério de Minas e Energia do governo, em sua visão, é negacionista. Lula coloca exportadores de carne no avião presidencial para ampliar mercados. A pecuária é o maior veículo de destruição da natureza. Sem dúvida, Lula é "ordem de grandeza melhor" que a direita, mas não é suficiente. O Brasil precisa de uma transição radical: agrofloresta como estratégia simultânea de recuperação florestal e produção alimentar. Isso exigiria um plano de transição que o país não está fazendo.
Gatti fala com a urgência de quem sabe que já estamos atrasados. Repete dados, fatos, como quem busca garantir que nada escape. É crítica com sua própria profissão. A ciência tem uma cultura fechada. Cientistas falam para cientistas em congressos e revistas especializadas. A sociedade fica de fora. "O cientista tem que se colocar numa posição de devolver conhecimento à sociedade", ela diz. Na mudança climática, essa obrigação é moral. As pessoas que entendem mais sobre o tema têm mais chances de sobreviver. Ela começou a pensar assim durante a Covid, quando percebeu que estava servindo à ciência, mas não estava ajudando a fazer políticas públicas que salvassem vidas. "Aqui fala uma cientista desiludida", ela conclui. Agora, leva essa desilusão para o Congresso.
Citas Notables
A situação climática está indo para o caos. A gente tem que fazer alguma coisa não planejada, fora do comum.— Luciana Gatti
Se eu me calasse, ia perder o respeito por mim mesma. E aí não valeria a pena continuar vivendo.— Luciana Gatti
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Você diz que reduzir desmatamento não é solução. Mas não é um passo necessário?
Claro que é necessário. Mas é como parar de colocar gasolina em um carro que já está em chamas. O carro ainda vai queimar. Precisamos restaurar a floresta ao estado de 2018 para reverter a aceleração dos eventos extremos. Parar de desmatar só faz a aceleração ser um pouco menor.
Os números de mortes por eventos climáticos continuaram subindo mesmo depois que Lula reduziu o desmatamento em 50%. Como você explica isso?
Porque a floresta já foi destruída. O dano está feito. Mesmo que paremos de desmatar hoje, as mudanças climáticas já estão em movimento. Precisamos de décadas de restauração florestal para reverter isso. E enquanto isso, mais gente vai morrer.
Você foi perseguida pelo governo Bolsonaro. Não teme ser ainda mais atacada como deputada?
Temo, sim. Mas pensei muito nisso. Se eu me calasse, perderia o respeito por mim mesma. E aí não valeria a pena continuar vivendo. Resolvi honrar meus valores. Além disso, não posso estar sozinha. Precisamos eleger muita gente preocupada com mudança climática.
Você critica o governo Lula por financiar a destruição através dos Planos Safra. Como isso se encaixa em sua candidatura?
Lula é ordem de grandeza melhor que a direita. Mas não é suficiente. O Brasil precisa de uma transição radical da economia. Agrofloresta, não monocultura. Comida, não apenas exportação. Isso exigiria um plano que o governo não está fazendo.
A ciência não deveria estar acima da política?
A ciência sempre esteve na política. O problema é que cientistas fingem que não estão. Nós recebemos dinheiro público para estudar. A sociedade diz: vivam aí estudando, mas voltem e contem o que aprenderam. Na mudança climática, essa obrigação é moral. Quem entende mais tem mais chances de sobreviver.
Qual é sua esperança neste momento?
Vejo nas pessoas uma receptividade muito grande aos alertas sobre emergência climática. Mas a mensagem precisa chegar a mais gente. E para isso precisaríamos de financiamento de campanha, que não temos. Mesmo assim, vamos tentar. As mudanças climáticas têm uma coisa positiva: a oportunidade de o ser humano evoluir.