Ciência questiona teoria viral sobre memórias reprimidas armazenadas no corpo

Pessoas podem desenvolver falsas memórias de trauma através de terapias sugestivas, causando sofrimento psicológico desnecessário e potencial dano emocional baseado em eventos que não ocorreram.
Uma pessoa pode sair convencida de que sofreu um trauma que nunca aconteceu
O risco das terapias sugestivas com psicodélicos é implantar falsas memórias das quais o paciente fica absolutamente certo.

Há décadas, a ideia de que o corpo armazena memórias traumáticas inacessíveis à consciência divide pesquisadores e clínicos. Popularizada pelo livro 'O Corpo Guarda as Marcas', essa teoria ressurge agora com nova roupagem — terapias alternativas, psicodélicos e visualizações guiadas prometem 'liberar' o que estaria oculto. Mas a ciência da memória adverte: o que se recupera em estados de alta sugestionabilidade pode ser criado, não encontrado, e a convicção de que algo aconteceu não é prova de que aconteceu.

  • Um livro com quase seis anos na lista de mais vendidos do New York Times transformou uma metáfora sobre trauma em teoria clínica adotada por milhões.
  • As 'guerras da memória' dos anos 1990 já haviam abalado essa ideia — mas o debate, que muitos acreditavam encerrado, retorna com força renovada.
  • Técnicas sugestivas como hipnose, visualização guiada e terapia psicodélica aumentam a propensão a aceitar memórias fabricadas como reais, segundo alertas da APA e da Sociedade Britânica de Psicologia.
  • Psicodélicos como MDMA e psilocibina combinam dois fatores perigosos: elevam a sugestionabilidade e criam sensação intensa de que a experiência é absolutamente verdadeira.
  • Pesquisas nos EUA e na Austrália indicam que a crença em memórias reprimidas é amplamente difundida na população, sinalizando um risco coletivo de sofrimento baseado em eventos que podem nunca ter ocorrido.

A frase 'o corpo guarda as marcas' parece descrever algo intuitivamente verdadeiro — e em parte é: o trauma altera hormônios, perturba o sono, provoca ataques de pânico. Mas o livro do psiquiatra holandês Bessel van der Kolk, publicado em 2014 e fenômeno editorial por anos, vai além dessa constatação. Ele propõe que memórias traumáticas vivem literalmente no corpo, inacessíveis à consciência, à espera de emergir. Quando essa ideia se espalhou pela cultura popular, foi simplificada até virar certeza.

O problema é que essa teoria tem um passado turbulento. Nos anos 1990, a hipótese de memórias reprimidas desencadeou as chamadas 'guerras da memória', uma das maiores disputas da psicologia moderna. Pesquisas subsequentes levantaram dúvidas sérias sobre a confiabilidade desse mecanismo. Muitos acreditavam que o debate estava encerrado. Não estava.

A versão atual da teoria propõe que a cura exige 'liberar' essas memórias ocultas por meio de yoga, visualização guiada ou terapia assistida por psicodélicos. A ciência da memória, porém, é clara: lembrar não é reproduzir uma gravação — é reconstruir. Cada evocação é moldada pelo contexto, pelas emoções e pelas expectativas alheias. Técnicas sugestivas são especialmente propensas a implantar memórias que nunca existiram, e tanto a Associação Americana de Psicologia quanto a Sociedade Britânica de Psicologia já emitiram alertas nesse sentido.

O risco se aprofunda com os psicodélicos. MDMA e psilocibina aumentam a sugestionabilidade e, ao mesmo tempo, criam uma sensação avassaladora de que o que se experimenta é real. Uma pessoa pode encerrar uma sessão absolutamente convicta de uma memória que nunca aconteceu. Relatos iniciais já descrevem casos assim. Pesquisas nos EUA e na Austrália sugerem que a crença em memórias reprimidas é mais difundida do que se imagina — o que torna o fenômeno não apenas uma questão clínica, mas um risco coletivo.

A frase é tão comum que passa despercebida: "o corpo guarda as marcas". Milhões de pessoas a usam para descrever algo que sentem ser verdadeiro — que o estresse e o trauma deixam impressões físicas, que o corpo responde quando a mente sofre. O problema é que essa expressão simples esconde uma afirmação muito mais radical, e muito mais questionável.

Tudo começou com um livro. Em 2014, o psiquiatra holandês Bessel van der Kolk publicou "O Corpo Guarda as Marcas", que se tornou um fenômeno editorial, passando quase seis anos na lista de mais vendidos do The New York Times. O livro não apenas argumenta que o trauma afeta o corpo — isso é amplamente aceito. Ele vai além: propõe que memórias traumáticas vivem literalmente no corpo, armazenadas em algum lugar inacessível à consciência, esperando para emergir. E quando essa ideia se espalhou pela cultura, ela foi simplificada ainda mais, transformando-se em certeza.

Mas essa teoria tem um passado complicado. Nos anos 1990, a ideia de memórias reprimidas provocou uma das maiores disputas científicas da psicologia moderna — as chamadas "guerras da memória". Clínicos e pesquisadores discordavam fundamentalmente: seria possível que a mente bloqueasse completamente um evento traumático, removendo-o da consciência como mecanismo de defesa, apenas para que ele reaparecesse depois em terapia? A pesquisa que se seguiu levantou sérias dúvidas sobre essa possibilidade. Muitos acreditavam que o debate havia sido encerrado. Mas não foi.

Agora a ideia retorna, e com uma roupagem nova. Não se trata apenas de memórias reprimidas — trata-se de memórias armazenadas no corpo, que supostamente reemergem através de sintomas físicos. O livro de van der Kolk sugere que a cura exige "liberar" ou "integrar" essas memórias ocultas por meio de terapias alternativas: yoga, terapia assistida por psicodélicos, visualização guiada. Muitas dessas abordagens carecem de base em evidências sólidas.

Os cientistas que estudam memória não negam que o trauma afeta o corpo. Há consenso científico de que o estresse altera níveis hormonais como adrenalina, noradrenalina e cortisol, que por sua vez impactam pressão arterial, libido, sono e a sensação de segurança. Para algumas pessoas, o trauma leva ao transtorno de estresse pós-traumático, com sintomas físicos reais: náusea, ataques de pânico, dificuldade para respirar, exaustão. Tudo isso é verdadeiro. A questão é diferente: como isso se relaciona com a memória?

A memória não funciona como uma gravação que podemos simplesmente reproduzir. Décadas de pesquisa mostram que cada vez que lembramos de algo, na verdade reconstruímos aquela memória. O contexto em que estamos, novas informações, nossas emoções, as expectativas de outras pessoas — tudo isso influencia o que lembramos e como lembramos. Técnicas terapêuticas sugestivas, como hipnose ou visualização guiada, onde os pacientes entram em estado altamente sugestionável, são especialmente propensas a implantar falsas memórias. A Associação Americana de Psicologia e a Sociedade Britânica de Psicologia alertaram repetidamente que essas técnicas podem criar memórias que nunca aconteceram.

O perigo se intensifica com os psicodélicos. Substâncias como MDMA e psilocibina mostraram resultados promissores em pesquisas rigorosamente controladas, e van der Kolk agora promove terapias assistidas por essas drogas. Mas do ponto de vista da memória, elas levantam preocupações específicas. Os psicodélicos tornam as pessoas mais sugestionáveis — mais propensas a aceitar ideias como verdadeiras, mesmo quando vêm de fora. Ao mesmo tempo, criam uma sensação poderosa de que o que se experimenta é profundamente real. É uma combinação arriscada: uma pessoa pode sair da sessão com uma falsa memória da qual está absolutamente convencida de que aconteceu. Relatos iniciais já descrevem casos em que aparentes memórias de trauma emergiram durante terapia psicodélica, com incerteza sobre sua precisão.

Pesquisas recentes nos Estados Unidos descobriram que a grande maioria das pessoas endossa a crença em memórias reprimidas e a ideia de que o corpo guarda as marcas. Esses estudos estão sendo replicados na Austrália, com resultados preliminares sugerindo que essas crenças podem ser ainda mais difundidas lá. O que começou como uma metáfora útil para descrever o impacto físico do trauma transformou-se em uma teoria com consequências reais — e potencialmente prejudiciais.

Pesquisas sugerem que os psicodélicos podem afetar a memória de algumas formas preocupantes, tornando as pessoas mais sugestionáveis
— Pesquisadores citados no artigo
Uma pessoa pode sair com uma falsa memória da qual está convencida de que aconteceu
— Análise de pesquisadores sobre riscos dos psicodélicos
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que os cientistas estão tão preocupados agora? A ideia de memórias reprimidas não é nova.

Model

Porque ela desapareceu da ciência, mas não da cultura. Nos anos 1990, a pesquisa mostrou que a repressão não era um mecanismo confiável. Mas o livro de van der Kolk a trouxe de volta, agora com uma roupagem diferente — não apenas reprimida, mas armazenada no corpo.

Inventor

E qual é o risco real? Se alguém faz yoga ou toma psicodélicos e se sente melhor, não é bom?

Model

Pode ser. Yoga pode reduzir estresse. O problema é quando se afirma que essas técnicas recuperam memórias reprimidas. Aí você entra em território perigoso.

Inventor

Perigoso como?

Model

Técnicas sugestivas — hipnose, visualização guiada, psicodélicos — podem implantar falsas memórias. Uma pessoa pode sair convencida de que sofreu um trauma que nunca aconteceu. E isso causa sofrimento real.

Inventor

Mas como alguém pode ficar convencido de algo que não aconteceu?

Model

Os psicodélicos tornam você mais sugestionável e criam uma sensação de profunda realidade. Combine os dois e você tem uma receita para falsas memórias muito convincentes.

Inventor

Então o livro está errado?

Model

Não completamente. O trauma afeta o corpo — isso é verdade. Mas a ideia de que memórias traumáticas vivem no corpo, inacessíveis, esperando para serem liberadas? Isso não tem base científica sólida.

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