Cetamina IV em emergência pediátrica: revisão reafirma segurança em 67 mil casos

Um evento grave a cada 11.558 sedações com cetamina
A frequência de eventos sentinela graves em crianças sedadas com cetamina em pronto-socorros, conforme a revisão sistemática.

Por décadas, a cetamina tem sido o sedativo de escolha em emergências pediátricas, mas as diretrizes clínicas permaneciam ancoradas em evidências de 2009. Agora, uma revisão sistemática abrangendo quase 68 mil crianças confirma, com profundidade inédita, que o medicamento mantém um perfil de segurança notável — sem mortes, sem sequelas permanentes, e com eventos graves ocorrendo em menos de um caso a cada onze mil sedações. A ciência, ao revisitar o familiar, encontrou não uma surpresa, mas uma confirmação: algumas escolhas resistem ao tempo porque são, de fato, boas escolhas.

  • As diretrizes que orientavam o uso da cetamina em crianças estavam desatualizadas há mais de uma década, criando uma lacuna entre a prática clínica e a evidência acumulada.
  • Uma revisão sistemática reuniu 20 estudos e quase 68 mil pacientes pediátricos, tornando-se a análise mais abrangente já realizada sobre o tema.
  • Nenhuma morte ou sequela neurológica permanente foi registrada, e eventos adversos graves ocorreram em apenas 1 a cada 11.558 sedações — uma raridade estatística que reforça a confiança no medicamento.
  • Três fatores de risco foram identificados com precisão: idade igual ou superior a 10 anos, infecção ativa de vias aéreas superiores e uso simultâneo de opioides — todos com impacto modesto, mas mensurável.
  • A revisão atualiza o ponto de referência científico para pesquisadores e clínicos, orientando tanto a prática segura quanto as perguntas que ainda precisam ser respondidas em sedação pediátrica.

A cetamina ocupa há mais de trinta anos um lugar central na sedação de crianças em pronto-socorros, com um histórico de segurança amplamente reconhecido. O problema é que as diretrizes clínicas que guiavam seu uso ainda se apoiavam em uma revisão de 2009, baseada em pouco mais de 8 mil casos. Desde então, estudos maiores acumularam evidências — e era hora de compilá-las.

Os pesquisadores Green e Roback conduziram uma busca rigorosa, selecionando estudos com ao menos 250 pacientes pediátricos que receberam cetamina intravenosa para sedação em procedimentos de emergência. Foram excluídos trabalhos sobre a combinação com propofol, uso em distúrbios comportamentais ou sedação para ventilação mecânica. O resultado foi uma revisão de 20 estudos reunindo 67.871 crianças — uma escala sem precedentes para o tema.

Os dados são tranquilizadores: nenhum óbito, nenhuma sequela neurológica permanente. Os eventos adversos mais graves — como intubação de emergência, compressões torácicas ou uso de medicamentos vasoativos — ocorreram em apenas 1 a cada 11.558 sedações. Em um pronto-socorro movimentado, isso equivale a esperar décadas para encontrar um caso assim.

A revisão também identificou três fatores que elevam, de forma modesta, o risco de complicações graves: ter dez anos ou mais, apresentar infecção ativa de vias aéreas superiores ou receber opioides junto com a cetamina. Nesses grupos, a frequência de eventos adversos graves sobe para cerca de 1 em 100 a 160 sedações — ainda baixa, mas suficiente para justificar atenção redobrada. Já o estado físico geral do paciente e o uso concomitante de benzodiazepínicos não se mostraram preditores relevantes.

Para a prática clínica, a revisão oferece algo valioso: segurança baseada em dados reais e em larga escala, combinada com orientações precisas sobre quais pacientes merecem cuidado adicional. Ela não apenas confirma que a cetamina é segura — ela começa a responder para quem ela é mais segura e quando a cautela deve ser maior.

A cetamina vem sendo o sedativo intravenoso de escolha em emergências pediátricas há mais de três décadas, com um histórico de segurança bem documentado. Mas as diretrizes clínicas que orientam seu uso ainda se baseavam principalmente em uma revisão de 2009 que analisou pouco mais de 8 mil crianças. Desde então, estudos observacionais maiores acumularam evidências substanciais sobre o medicamento — dados que agora foram compilados em uma revisão sistemática publicada no Annals of Emergency Medicine, trazendo uma atualização importante sobre o que realmente acontece quando a cetamina é usada em pronto-socorros infantis.

Os pesquisadores Green e Roback conduziram uma busca rigorosa por estudos que incluíssem pelo menos 250 pacientes pediátricos recebendo cetamina intravenosa ou seu isômero, a esketamina, para sedação em procedimentos de emergência. Foram incluídos trabalhos publicados após 2009 que descrevessem eventos adversos associados ao medicamento. A revisão excluiu deliberadamente estudos sobre cetamina combinada com propofol — a mistura conhecida como ketofol — porque nesse caso o propofol é o sedativo principal e os efeitos adversos refletem mais o perfil do propofol do que da cetamina propriamente dita. Também foram deixados de fora estudos sobre uso do medicamento para distúrbios comportamentais, condições psiquiátricas ou sedação para ventilação mecânica, focando exclusivamente em procedimentos de emergência.

O resultado foi impressionante em sua amplitude: vinte estudos elegíveis totalizando 67.871 crianças. Nenhum desses casos registrou desfechos adversos permanentes, déficits neurológicos ou mortes. Os eventos mais graves — aqueles que exigem intervenção imediata, como intubação traqueal, bloqueio neuromuscular, compressões torácicas, aspiração ou uso de medicamentos vasoativos — ocorreram em apenas 1 a cada 11.558 sedações, uma frequência de 0,0087%. Para colocar em perspectiva: em um pronto-socorro pediátrico movimentado que realize centenas de sedações por ano com cetamina, espera-se encontrar um desses eventos graves a cada década ou mais.

Mas a história não termina em números globais. Os pesquisadores identificaram três fatores que aumentam o risco de eventos adversos graves: ter dez anos ou mais, apresentar infecção de vias aéreas superiores no momento da sedação, ou receber opioides concomitantemente com a cetamina. A magnitude desses aumentos de risco é modesta, mas mensurável. Em crianças com dez anos ou mais, a frequência de eventos adversos graves sobe para aproximadamente 1 em cada 103 sedações. Naquelas com infecção de vias aéreas superiores, o número é 1 em 110. Quando opioides são administrados junto, a proporção é 1 em 156. Curiosamente, o estado físico geral do paciente segundo a classificação da American Society of Anesthesiologists e o uso concomitante de benzodiazepínicos não se mostraram preditores significativos de complicações.

O que essa revisão muda na prática diária do pronto-socorro pediátrico? Ela oferece tranquilidade baseada em dados. A cetamina continua sendo uma escolha segura para sedação em procedimentos infantis, com um perfil de eventos adversos graves extraordinariamente baixo. Ao mesmo tempo, fornece aos médicos informações práticas sobre quais pacientes merecem atenção redobrada — aqueles mais velhos, com infecções respiratórias ativas, ou que receberão opioides. Essa revisão atualiza as recomendações clínicas que vinham sendo baseadas em evidências de mais de uma década atrás, incorporando o conhecimento acumulado de dezenas de milhares de casos reais. Para pesquisadores e clínicos, ela estabelece um novo ponto de partida para entender não apenas se a cetamina é segura, mas para quem exatamente ela é mais segura e em quais circunstâncias merece cautela adicional.

Os eventos sentinela mais graves foram extremamente raros, com frequência estimada de 1 em 11.558 atendimentos de sedação
— Revisão sistemática publicada no Annals of Emergency Medicine
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que essa revisão de 2026 importa se a cetamina já era considerada segura desde 2009?

Model

Porque a base de evidências era pequena — 8 mil crianças. Agora temos 67 mil casos. Isso muda a precisão das estimativas. Eventos raros só aparecem em números grandes.

Inventor

Então a cetamina ficou mais segura, ou apenas descobrimos que já era?

Model

Provavelmente descobrimos que já era. Mas há nuance: identificamos grupos de risco específicos que antes não estavam claros. Uma criança de dez anos não é igual a uma de cinco.

Inventor

Esses três fatores de risco — idade, infecção, opioides — mudam a prática?

Model

Mudam a vigilância. Não dizem para evitar cetamina nesses casos, mas para estar mais atento. O risco sobe de 1 em 11 mil para 1 em 100. Ainda é raro, mas diferente.

Inventor

E por que excluíram o ketofol da análise?

Model

Porque misturar cetamina com propofol cria um medicamento novo, basicamente. Os efeitos adversos refletem mais o propofol. Você não consegue isolar o que a cetamina faz sozinha.

Inventor

Nenhuma morte em 67 mil casos. Isso é definitivo?

Model

É muito tranquilizador, mas não é definitivo. Significa que eventos fatais são raríssimos — tão raros que talvez não apareçam nem em 67 mil. Mas não significa que nunca aconteçam.

Inventor

O que um médico de pronto-socorro faz com essa informação amanhã?

Model

Usa cetamina com confiança, mas pensa duas vezes antes de combinar com opioides em uma criança com tosse e febre. E sabe que pode explicar aos pais: em 11 mil sedações como essa, uma terá complicação séria.

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