É uma festa do Trump, não dos Estados Unidos
A cada grande aniversário, uma nação é convidada a olhar para si mesma e decidir o que merece ser lembrado. Nos 250 anos da independência americana, essa pergunta não encontrou resposta comum: o que deveria ser celebração tornou-se campo de batalha, com duas organizações rivais, duas narrativas concorrentes e um país dividido sobre o próprio significado de ser americano. A ruptura não é apenas logística — ela revela uma crise mais profunda sobre quem tem o direito de contar a história e a quem ela pertence.
- Trump criou por decreto a Freedom 250 em janeiro de 2025, fragmentando as comemorações que o Congresso havia planejado por quase uma década através da comissão bipartidária America250.
- A disputa foi além das palavras: as duas organizações competiram por patrocinadores durante o Super Bowl, lançaram campanhas rivais e dividiram empresas como Boeing, Deloitte e United Airlines entre dois lados.
- Artistas convidados para os eventos federais desistiram em massa ao perceber o caráter político das apresentações, e a programação foi reformulada com nomes alinhados ao universo conservador.
- Enquanto Washington encenou um espetáculo centrado na figura presidencial — com Trump no passaporte comemorativo e na moeda especial —, nove estados recusaram participar e outros construíram narrativas próprias, mais inclusivas.
- A fratura se traduz em números: 90% dos republicanos declaram orgulho de ser americanos, contra apenas 45% dos democratas, tornando o aniversário um termômetro da polarização nacional.
Os Estados Unidos chegaram ao seu 250º aniversário de independência já divididos sobre o que a data significa. O que deveria ter sido um momento de união — planejado por quase uma década pelo Congresso através da comissão bipartidária America250 — transformou-se numa disputa sobre quem tem o direito de narrar a história americana.
O ponto de ruptura veio em janeiro de 2025, quando Trump assinou um decreto criando a Freedom 250, grupo paralelo encarregado dos principais eventos federais em Washington. A decisão dividiu as comemorações em duas narrativas concorrentes: na capital, um espetáculo centrado na figura presidencial, com 850 mil fogos de artifício e a Orquestra das Forças Armadas; em Los Angeles, a America250 organizava um evento focado em diversidade cultural, com Queen Latifah, Chaka Khan e Smashing Pumpkins. Nos bastidores, as duas organizações competiram por patrocinadores e lançaram campanhas rivais durante o Super Bowl.
O financiamento refletiu a divisão. A America250 recebeu apenas 25 dos 50 milhões de dólares previstos para eventos federais, enquanto pelo menos 68 milhões foram destinados à organização responsável pela Freedom 250. Planos originais para Washington — um desfile multicultural, um festival do Smithsonian Institution — foram substituídos pela Great American State Fair, inaugurada pelo próprio Trump. Artistas anunciados desistiram em massa ao perceber o caráter político das apresentações; a programação foi reformulada com nomes do universo conservador, como Lee Greenwood.
Para especialistas, a mudança é historicamente inédita. Nas comemorações dos 200 anos, em 1976, o tom foi estritamente institucional. Agora, Trump aparece no passaporte comemorativo e na moeda especial, transformando uma festa nacional em vitrine pessoal — o que, segundo analistas, coloca à prova os valores americanos de liberdade e democracia perante aliados e rivais.
Enquanto Washington concentrava a disputa, estados seguiram caminhos próprios. Colorado reuniu 50 episódios decisivos da história americana em exposição que chegou a mais de 600 locais; Washington e Oregon abordaram a perseguição a imigrantes chineses e o internamento de nipo-americanos; Kansas incluiu a criação da primeira bandeira do orgulho LGBTQIA+. Essas iniciativas revelam uma tentativa de contar a história de forma mais inclusiva — em contraste direto com a narrativa centralizada e personalista que dominou as celebrações federais.
Os Estados Unidos chegaram ao sábado de sua celebração de 250 anos de independência já divididos sobre o significado da data. O que deveria ter sido um momento de união nacional — planejado durante quase uma década pelo Congresso através de uma comissão bipartidária chamada America250 — transformou-se numa disputa sobre quem tem o direito de contar a história americana e o que significa ser patriota.
O ponto de ruptura veio em janeiro de 2025, quando o presidente Donald Trump assinou um decreto criando a Freedom 250, um grupo paralelo encarregado de organizar os principais eventos federais em Washington. A decisão não foi apenas administrativa. Ela dividiu as comemorações em duas narrativas concorrentes. Na capital, a Freedom 250 montou um espetáculo centrado na figura presidencial: apresentações da Orquestra Conjunta das Forças Armadas, um show pirotécnico de 40 minutos e 850 mil fogos de artifício lançados de dez pontos da cidade. Simultaneamente, em Los Angeles, a America250 organizava um evento focado em diversidade cultural, com Queen Latifah, Chris Stapleton, Chaka Khan e Smashing Pumpkins. Nos bastidores, as duas organizações competiram por patrocinadores privados, lançaram campanhas publicitárias rivais durante o Super Bowl e promoveram concursos estudantis diferentes.
O financiamento refletiu essa divisão. O Congresso havia aprovado 150 milhões de dólares para a America250, mas a comissão recebeu apenas 25 milhões dos 50 milhões previstos para atividades ligadas aos eventos federais. Ao mesmo tempo, pelo menos 68 milhões de dólares foram destinados pelo governo à organização sem fins lucrativos responsável pela Freedom 250. Empresas como Palantir, United Airlines, Deloitte, Boeing e UFC acabaram patrocinando ambas as iniciativas, enquanto outras escolheram um lado.
A mudança também alterou os planos originais para Washington. Documentos de 2024 previam um desfile com carros alegóricos representando diferentes comunidades, um festival cultural organizado pelo Smithsonian Institution e apresentações musicais espalhadas pelo país. Após a criação da Freedom 250, essas iniciativas foram substituídas pela Great American State Fair, uma feira patriótica inaugurada por Trump. Pelo menos nove estados decidiram não participar diretamente do evento. A programação cultural também sofreu transformações. Artistas como Martina McBride, Young MC, Milli Vanilli e Bret Michaels foram inicialmente anunciados, mas quase todos desistiram dias depois, afirmando terem sido pegos de surpresa pelo caráter político das apresentações. A programação foi reformulada com artistas mais alinhados ao universo conservador, como o cantor country Lee Greenwood e o tenor Christopher Macchio.
Segundo Roberto Uebel, professor de Relações Internacionais da ESPM, essa mudança é historicamente inédita. Nas celebrações dos 200 anos em 1976 — no pós-Guerra do Vietnã e durante a Guerra Fria — e no centenário de 1876, o tom foi estritamente protocolar e institucional, focado no papel dos Estados Unidos no mundo. Nunca antes a figura do governante foi personalificada dessa forma. Agora, Trump aparece no passaporte comemorativo, na moeda especial, transformando o que deveria ser uma festa nacional em uma vitrine pessoal. Essa mudança traz reflexos para a projeção internacional do país. Embora os Estados Unidos ainda se projetem como superpotência nos aspectos político, econômico e cultural, as ações do segundo mandato de Trump colocam à prova os tradicionais valores norte-americanos de liberdade, individualidade, justiça e democracia — valores agora questionados pela comunidade internacional, incluindo rivais como Rússia e China, e até aliados históricos como União Europeia e Reino Unido.
A polarização reflete-se nas próprias estatísticas de identidade nacional. Pesquisas de opinião mostram que cerca de 90% do eleitorado republicano diz sentir orgulho de ser americano. Entre eleitores democratas, esse percentual cai para aproximadamente 45%. O senador democrata Alex Padilla afirmou que o presidente transformou o aniversário da independência em uma plataforma de promoção pessoal. Oliver Stunkel, professor associado de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas, observa que as comemorações nacionais funcionam como um termômetro do estado de uma nação, refletindo a narrativa dominante sobre passado, presente e futuro. A Freedom 250, segundo ele, não se limita à organização de eventos, mas expressa uma leitura específica do passado totalmente alinhada ao trumpismo e utilizada como instrumento político.
Enquanto Washington concentrava a disputa, estados de diferentes regiões seguiram caminhos próprios. Muitos preparavam suas comemorações há anos com equipes reduzidas e orçamentos limitados, decidindo destacar a contribuição de suas comunidades para a construção dos Estados Unidos. No Colorado, a exposição "Moments That Made Us" reúne 50 acontecimentos decisivos para a história americana, apresentando diferentes interpretações sobre cada episódio, incluindo a guerra com o México e os movimentos por direitos civis. A mostra chegou a mais de 600 locais em pelo menos 36 estados. Arizona criou uma exposição itinerante sobre sua formação; Washington e Oregon abordaram a perseguição a imigrantes chineses e o internamento de nipo-americanos durante a Segunda Guerra Mundial; Kansas incluiu a criação da primeira bandeira do orgulho LGBTQIA+; e Utah adotou a expressão "história completa" para tratar da diversidade de experiências que formaram o estado. Essas iniciativas estaduais revelam uma tentativa de contar a história americana de forma mais inclusiva, contrastando com a narrativa centralizada e personalista que dominou as celebrações federais.
Notable Quotes
Ele não conseguiu evitar transformar o aniversário de 250 anos dos Estados Unidos em algo voltado para si mesmo— Senador democrata Alex Padilla
Esse projeto é totalmente uma interpretação da história alinhada ao trumpismo e utilizada como instrumento político— Oliver Stunkel, professor associado de Relações Internacionais da FGV
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que essa celebração se tornou tão diferente das anteriores? Parece haver algo mais profundo do que apenas uma disputa administrativa.
É que pela primeira vez na história americana, um presidente decidiu fazer uma comemoração nacional girar em torno de si mesmo. Nos 200 anos, em 1976, mesmo com a Guerra Fria acontecendo, mantiveram o tom protocolar. Agora Trump colocou seu rosto na moeda, no passaporte. Transformou uma festa do país em uma festa dele.
E como isso afeta a forma como o mundo vê os Estados Unidos?
Quando você personaliza uma celebração nacional dessa forma, você está dizendo algo sobre quais valores importam. Os valores tradicionais americanos — liberdade, democracia, justiça — começam a ser questionados. Rivais como China e Rússia veem isso. Até aliados europeus veem.
Os números de orgulho nacional que você mencionou — 90% dos republicanos contra 45% dos democratas — isso é realmente sobre Trump, ou é sobre algo mais antigo?
É sobre Trump, mas também revela uma divisão muito mais profunda. As pesquisas mostram que essas celebrações funcionam como um espelho do presidente e da narrativa dominante. Se houvesse um presidente democrata, os números provavelmente se inverteriam. A polarização é tão profunda que até o significado de ser americano virou questão política.
E os estados que criaram suas próprias narrativas — eles estão tentando consertar algo?
Estão tentando contar uma história mais completa. Colorado mostra 50 momentos diferentes, incluindo guerras e movimentos por direitos. Utah fala em "história completa". Eles entendem que a história americana não é uma coisa só — é indígena, é imigração, é escravidão, é diversidade. Enquanto Washington disputava quem controlava a narrativa, os estados estavam dizendo: a narrativa é maior do que qualquer um de nós.
Isso significa que a América está contando duas histórias sobre si mesma agora?
Três, na verdade. A história de Trump em Washington, a história institucional do Congresso em Los Angeles, e as histórias locais dos estados. Nenhuma delas consegue falar por todas. Isso é o que a polarização realmente significa — não é só desacordo político, é desacordo sobre quem você é como país.