O fado é uma linguagem que me apaixona e nunca se esgota
Carminho regressa aos Açores não apenas para apresentar um disco, mas para fechar um ciclo que a transformou como artista e como pessoa. No Teatro Micaelense, em São Miguel — ilha onde fez os seus 18 anos e onde deu o seu primeiro voo —, a fadista traz 'Portuguesa', o seu sexto álbum, numa que poderá ser a última grande apresentação desta obra. É o momento em que a estrada encontra a memória, e em que o fado, linguagem viva e em permanente busca, se reencontra com um público que a fadista descreve como dos mais fiéis e ávidos que conhece.
- Depois de anos em tournée, 'Portuguesa' aproxima-se do seu encerramento — e Carminho sente o peso e a beleza de fechar um ciclo que a marcou profundamente.
- Assumir a produção do disco foi um salto inevitável: a artista passou a pensar não só nos poemas e no repertório, mas em como cada fado se traduz sonoramente em estúdio.
- A nomeação para o Grammy Latino trouxe visibilidade internacional ao fado e a outros artistas, mas Carminho é clara — o que a move é o trabalho, não os prémios.
- Colaborações com Caetano Veloso, Bárbara Bandeira e Chico Buarque ensinaram-lhe que dois artistas juntos criam um terceiro mundo, algo que antes não existia.
- Os Açores não são apenas mais uma paragem na digressão — são o lugar do primeiro voo, dos 18 anos, de um amor profundo pelas ilhas e pelo seu público.
Carminho sobe ao palco do Teatro Micaelense no próximo sábado carregando consigo anos de estrada e um disco que a acompanhou e transformou. 'Portuguesa', o seu sexto álbum lançado em 2023, pode estar a chegar ao fim da sua vida em tournée — e a fadista sente que esta apresentação nos Açores tem o peso de um encerramento de ciclo.
O disco nasceu de um exercício que Carminho considera natural no fado: pegar em poemas de autores como Pedro Homem de Mello ou David Mourão Ferreira, musicá-los, compor novos fados tradicionais, conjugar letras novas com clássicos. Mas 'Portuguesa' foi além disso. Pela primeira vez, a artista assumiu também a produção, pensando não apenas no repertório mas em como cada fado se apresenta em gravação — que texturas, que sons, que emoção. A pergunta que a move é sempre a mesma: onde está o fado?
Desde o primeiro disco, 'Fado', em 2009, a evolução é evidente, mas a identidade nunca se perdeu. Carminho estabeleceu critérios que não atravessa: experimenta novos lugares sonoros, desafia-se, mas sem pretensão de mudar o género. O fado é uma linguagem que a apaixona e que, diz ela, nunca se esgota.
Ao longo dos anos, partilhou palco com Caetano Veloso, Bárbara Bandeira e Chico Buarque. Descreve essas colaborações como a criação de um terceiro mundo — quando duas identidades se encontram, nasce algo que antes não existia. A nomeação de 'Portuguesa' para o Grammy Latino veio reforçar a visibilidade do seu trabalho e do fado em geral, mas Carminho mantém os pés na terra: o que a trouxe até aqui foi o trabalho, e é o trabalho que a faz continuar.
Os Açores têm um lugar singular na sua história. Foi aqui que fez a sua primeira viagem de avião, com os pais. Foi aqui que completou 18 anos. Regressou muitas vezes desde então, e conhece bem o público açoriano — descreve-o como ávido, fiel e maravilhoso, um público que, por não ter acesso imediato a toda a programação do continente, se dedica ainda mais aos artistas. Regressar a São Miguel não é apenas cumprir uma data de digressão. É, para Carminho, regressar a casa.
Carminho regressa ao Teatro Micaelense no próximo sábado com um disco que a acompanha há anos de estrada. A fadista portuguesa traz consigo 'Portuguesa', seu sexto álbum, lançado em 2023, e acredita que esta pode ser a última grande apresentação desta obra que tanto a marcou. Não é um regresso simples — é o encerramento de um ciclo de tournée que transformou o disco de formas inesperadas, mas sem nunca o deslocar do seu núcleo: a prática do fado como linguagem viva, em busca constante de novos poemas e novas possibilidades.
O trabalho de Carminho com o fado passa por um exercício que ela considera natural entre os fadistas: pegar em poemas de autores como Pedro Homem de Mello ou David Mourão Ferreira e musicá-los com a linguagem fadista, compor novos fados tradicionais, conjugar letras novas com clássicos. Este é o exercício que transportou para 'Portuguesa', um disco que ganhou uma sonografia própria e que lhe trouxe muita felicidade. Assumir a produção do disco foi, para ela, algo inevitável. Depois de 'Maria', já vinha com ideias de estúdio que se aprofundaram: não se trata apenas de escolher poemas e repertório, mas de pensar como a música se apresenta em gravação, como cada fado se traduz musicalmente. A sua busca permanente é pela emoção do fado — onde está o fado, essa é a pergunta que a move. Experimenta novos lugares sonoros, novas texturas, novos sons, sempre mantendo a energia que a define, sem pretensão de mudar o género, mas com vontade de se desafiar.
Entre o primeiro disco, 'Fado', lançado em 2009, e 'Portuguesa', a evolução é clara, mas a identidade fadista nunca se perdeu. Carminho estabeleceu critérios que permanecem sempre presentes. O que gosta mesmo é de cantar fado — é uma linguagem que a apaixona, que a motiva, que continua sempre a desafiá-la, nunca se esgota. Todas as experiências que faz só as permite quando não atravessam os limites que estabeleceu sobre o que pensa ser a sua tradução do fado.
Ao longo dos anos, Carminho partilhou palcos com artistas de gerações e tradições distintas — Caetano Veloso, Bárbara Bandeira, Chico Buarque. Descreve estas colaborações como a criação de um novo mundo: quando dois artistas se juntam, nasce um terceiro mundo, porque duas identidades criam algo que não existia antes. Estas experiências ensinaram-lhe muito sobre a música, sobre si mesma como artista e como pessoa.
O reconhecimento internacional chegou também. 'Portuguesa' foi nomeado para um Grammy Latino, um marco que aumenta a visibilidade do seu trabalho e do fado em geral. Para Carminho, as nomeações significam visibilidade — mais pessoas veem e procuram o seu trabalho, o fado, outros artistas ao seu lado. É um momento de reconhecimento, de motivação, marcos num tempo. Mas não definem o futuro: o que a levou até ali foi o seu trabalho, e o que a faz continuar é também o seu trabalho.
Os Açores ocupam um lugar especial na vida de Carminho. Já atuou várias vezes nas ilhas, em diferentes salas, e conhece bem o público açoriano — descreve-o como muito interessado, maravilhoso e ávido. A sua opinião é que, por não terem acesso imediato a toda a programação como no continente, as pessoas se dedicam ainda mais aos artistas, procuram mais as salas, são fiéis. Mas há mais: a primeira viagem de avião da sua vida, com os pais, foi a São Miguel. Fez os seus 18 anos nos Açores. É um lugar que visitou muitas vezes desde então, e tem um amor profundo pelas ilhas. Regressar aos Açores não é apenas um compromisso profissional — é um regresso a casa.
Citações Notáveis
Quando dois artistas se juntam há um terceiro mundo que nasce, porque são duas identidades que ao se juntarem, criam algo que não existia antes— Carminho, sobre colaborações artísticas
Estou sempre à procura da emoção do fado. Onde é que está o fado? Essa é a minha busca— Carminho, sobre o seu processo criativo
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Quando diz que 'Portuguesa' pode ser a última apresentação deste disco, sente que esgotou o que tinha a dizer com ele?
Não é exatamente isso. Depois de anos de tournée, o disco transformou-se de muitas maneiras ao vivo. Mas chega um momento em que sente que fechou um ciclo, que explorou o que tinha para explorar naquele contexto. Há sempre novos discos, novas buscas.
Fala muito em "busca da emoção do fado". Como é que sabe quando encontrou?
Não é uma coisa que se encontra e pronto. É contínua. Quando experimenta novos sons, novas texturas, sente se aquela emoção — aquele núcleo do fado — continua viva. Se continua, então está no caminho certo.
Assumir a produção do disco foi uma decisão importante. O que mudou quando passou a ter esse controlo?
Passou a pensar não só nos poemas e nas letras, mas em como tudo soa em estúdio. Como é que cada fado se traduz musicalmente. É um nível de detalhe que só consegue controlar se estiver envolvida na produção.
Trabalhou com artistas muito diferentes — Caetano Veloso, Chico Buarque, Bárbara Bandeira. O que aprendeu com cada um?
Que quando duas identidades se encontram, criam algo completamente novo. Não é uma mistura — é um terceiro mundo. E aprendeu sobre si mesma, sobre o que é ser artista, através desses encontros com gerações tão distintas.
A nomeação para Grammy Latino muda algo na forma como trabalha?
Muda a visibilidade, traz mais pessoas ao fado. Mas o que a move continua a ser o trabalho em si. As nomeações são marcos, momentos de reconhecimento, mas não definem o que vem a seguir. Isso continua a ser o trabalho.
Os Açores parecem significar algo muito pessoal para si.
Sim. A primeira viagem de avião da minha vida foi para São Miguel, com os meus pais. Fiz 18 anos lá. Não é apenas um palco — é um lugar que a acompanha desde sempre.