Juros artificialmente baixos sem âncora fiscal geram inflação que afeta principalmente os pobres
Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, reafirmou nesta terça-feira em São Paulo uma verdade incômoda: sem disciplina fiscal genuína, juros baixos são uma ilusão que se desfaz em inflação. Num país onde a dívida pública caminha para 81% do PIB em 2028, o mercado exige sinais concretos de responsabilidade — e, na ausência deles, são sempre os mais pobres que pagam o preço do desequilíbrio.
- O Banco Central já deu o primeiro sinal de alerta em setembro, elevando a Selic para 10,75% ao ano diante da deterioração do cenário fiscal.
- A dívida bruta do governo deve alcançar 81% do PIB em 2028, superando as próprias projeções da equipe econômica quando o arcabouço fiscal foi aprovado.
- O governo recorre a manobras contábeis — financiamento do auxílio-gás fora do Orçamento, uso de recursos esquecidos em bancos — para maquiar o resultado fiscal, mas o BC rejeita parte dessas medidas.
- Campos Neto adverte que juros artificialmente baixos sem âncora fiscal geram inflação no médio prazo, penalizando desproporcionalmente os mais pobres.
- O mercado aguarda um choque fiscal crível e transparente; enquanto esse sinal não chega, a curva de juros longos permanece pressionada.
Roberto Campos Neto foi direto ao ponto nesta terça-feira, durante evento da gestora Crescera Capital em São Paulo: o Brasil não conseguirá sustentar juros baixos enquanto não enfrentar seu desequilíbrio fiscal de frente. Para o presidente do Banco Central, as dúvidas do mercado sobre a trajetória da dívida pública funcionam como um teto invisível que impede a queda dos custos de financiamento do país.
O raciocínio tem uma dimensão social que Campos Neto fez questão de destacar. Quando o governo tenta forçar juros baixos sem uma base fiscal sólida, o resultado inevitável é inflação — e a inflação não é democrática. Os mais ricos conseguem proteger seu patrimônio por meio de ativos e investimentos; os mais pobres, sem essa defesa, absorvem o impacto direto no custo de vida. É, nas palavras implícitas do diagnóstico, uma transferência de renda às avessas.
O Banco Central já havia traduzido essa preocupação em ação em setembro, reiniciando o ciclo de alta da Selic com um aumento de 0,25 ponto percentual, levando a taxa a 10,75% ao ano. A mensagem institucional foi clara: política fiscal crível e transparente não é opcional — é condição para que os juros longos não subam automaticamente sempre que o mercado sentir o risco aumentar.
O governo, por sua vez, enfrenta números difíceis. O secretário do Tesouro projeta que a dívida bruta chegará a 81% do PIB em 2028, acima do que a própria equipe econômica havia estimado ao desenhar o novo arcabouço fiscal. Para contornar a pressão, o governo tem recorrido a soluções criativas: financiar o auxílio-gás fora do Orçamento, mobilizar fundos privados para políticas públicas e tentar usar recursos esquecidos em contas bancárias para melhorar o resultado primário — proposta que o BC rejeita. Também reduziu o congelamento orçamentário de 15 bilhões para 13,3 bilhões de reais, argumentando que receitas acima do previsto compensam o aumento de despesas obrigatórias.
Campos Neto deixou claro que essas engenharias contábeis não chegam ao cerne do problema. O que o mercado exige não é criatividade fiscal, mas ajuste real. Enquanto esse sinal não vier, a pressão sobre os juros continuará — e adiar o problema só garante que ele retorne, desta vez disfarçado de inflação.
Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, deixou claro nesta terça-feira que o Brasil não conseguirá manter juros baixos sem antes resolver seu problema fiscal. Falando em um evento da gestora Crescera Capital em São Paulo, ele apontou que as dúvidas do mercado sobre o rumo da dívida pública funcionam como um obstáculo concreto à redução dos custos de financiamento do país.
O diagnóstico é direto: o Brasil precisará de algum programa que transmita ao mercado a sensação de um choque fiscal genuíno se quiser conviver com taxas de juros menores. Sem isso, disse Campos Neto, a tentativa de manter juros artificialmente baixos sem uma base fiscal sólida acaba gerando inflação no médio prazo — e essa inflação não afeta a todos igualmente. Quem sofre mais são os pobres, que não conseguem se proteger do aumento de preços. Os ricos, com seus ativos e investimentos, conseguem se blindar. É uma transferência de renda disfarçada.
Em setembro, o Banco Central já havia sinalizado essa preocupação ao reiniciar a alta dos juros, elevando a taxa Selic em 0,25 ponto percentual para 10,75% ao ano. A comunicação do BC foi clara: é preciso uma política fiscal que seja ao mesmo tempo crível e transparente. Quando o mercado começa a questionar para onde vai a dívida pública, a curva de juros de longo prazo sobe rapidamente — é uma reação automática dos investidores que sentem o risco aumentar.
O cenário que o governo enfrenta é desafiador. O secretário do Tesouro, Rogério Ceron, previu que a dívida bruta do governo vai subir até se estabilizar em 81% do PIB em 2028, um patamar mais alto do que a equipe econômica havia projetado quando aprovou o novo arcabouço fiscal. Diante dessa trajetória preocupante, o governo tem recorrido a soluções criativas para ampliar a contabilização de receitas ou implementar programas sem pressionar o Orçamento.
Entre essas medidas estão propostas para financiar o auxílio-gás fora do Orçamento, o uso de fundos privados para bancar políticas públicas e uma tentativa de usar recursos esquecidos por correntistas em bancos para melhorar o resultado primário — uma ideia que o Banco Central discorda. O governo também afrouxou a contenção orçamentária que havia adotado para cumprir as regras fiscais, reduzindo o congelamento de verbas de 15 bilhões para 13,3 bilhões de reais, argumentando que receitas maiores que o esperado compensam o aumento de despesas obrigatórias.
O que Campos Neto está sinalizando é que essas soluções criativas não vão resolver o problema de fundo. O mercado quer ver um ajuste fiscal real, não contábil. Enquanto isso não acontecer, a pressão sobre os juros permanecerá, e a tentativa de mantê-los artificialmente baixos só vai adiar o problema, transformando-o em inflação que afeta principalmente quem menos pode se defender.
Citas Notables
O Brasil vai precisar ter algum tipo de programa que gere uma percepção de choque fiscal positivo se quiser conviver com juros mais baixos— Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central
Optar por juros artificialmente mais baixos sem ter a âncora fiscal é equivalente a produzir um ajuste via inflação no médio prazo— Roberto Campos Neto
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que o Banco Central insiste tanto em vincular juros à situação fiscal? Não são duas coisas separadas?
Não são. Se o governo gasta mais do que arrecada e não há confiança de que isso vai mudar, o mercado cobra isso na forma de juros mais altos. É uma proteção contra o risco de inflação futura.
Mas o governo está tentando resolver isso com essas soluções criativas, não está?
Está tentando, mas o mercado não acredita. Quando você usa fundos privados ou recursos esquecidos para maquiar os números, você não está resolvendo o problema real — está apenas adiando.
E qual é o problema real?
Gastos estruturais que crescem mais rápido que a receita. Enquanto isso não mudar, os juros vão permanecer altos porque o risco permanece.
Campos Neto mencionou que juros baixos sem âncora fiscal geram inflação. Como isso funciona?
Se você força juros para baixo sem resolver o gasto público, mais dinheiro circula na economia sem produção correspondente. Isso gera inflação, que corrói o poder de compra de quem não consegue se proteger — os pobres.
Então é um problema que afeta principalmente os mais pobres?
Exatamente. Os ricos têm ativos que se valorizam com inflação. Os pobres têm apenas salário, que não acompanha. É uma transferência de renda invisível.