O grande culpado pelos juros altos é quem compete pelos mesmos recursos
No Brasil de 2023, onde a taxa básica de juros figura entre as mais altas do mundo, o presidente do Banco Central Roberto Campos Neto deslocou o centro da responsabilidade: não é a autoridade monetária que encarece o crédito, mas o próprio governo federal, ao disputar recursos no mercado com sua dívida pública. A afirmação, feita em entrevista à CNN Brasil, revela uma tensão antiga entre política fiscal e política monetária — e lembra que juros altos raramente têm um único culpado, mas sempre têm um custo compartilhado por todos.
- Com a Selic em 13,75% ao ano e os juros reais acima de 6% — os maiores do mundo —, empresários e famílias sentem no bolso uma pressão que paralisa investimentos e consumo.
- Campos Neto acusa o governo de ser o verdadeiro motor dos juros elevados ao emitir dívida pública com retornos que puxam para cima o custo do crédito para todos os demais tomadores.
- O governo, por sua vez, pressiona o BC por cortes imediatos, criando um impasse político que expõe a tensão entre a autonomia da instituição e as necessidades eleitorais e econômicas do Executivo.
- Parte do mercado e economistas já enxergam espaço para redução da Selic — com apostas no terceiro trimestre e projeções de primeiro corte em agosto —, enquanto o BC insiste que a inflação ainda não permite recuar.
- O debate sobre quem deve agir primeiro — o fiscal ou o monetário — permanece sem resposta clara, e é a economia real que aguarda, suspensa, o desfecho.
Roberto Campos Neto foi à CNN Brasil para defender o Banco Central de uma acusação que paira sobre a instituição: a de ser o vilão dos juros altos. Sua resposta foi direta — o verdadeiro responsável é o governo federal, que ao emitir dívida pública oferece retornos tão atraentes que eleva o custo do dinheiro para toda a economia. "O grande culpado pelos juros estarem altos é que tem alguém competindo pelos mesmos recursos e pagando mais", resumiu o presidente.
A lógica é simples na teoria: se o governo reduzisse sua dívida, o crédito ficaria mais barato para empresários e famílias. Campos Neto destacou ainda que a taxa real de juros brasileira — já descontada a inflação — supera 6% ao ano, a maior do mundo, e reflete incertezas estruturais de longo prazo que não nascem dentro do BC.
Ao mesmo tempo, o presidente elogiou o arcabouço fiscal do governo e afirmou manter diálogo frequente com o ministro Fernando Haddad, reconhecendo o esforço fiscal do Executivo. Mas foi enfático: sem avanço nas contas públicas, o BC tem pouco espaço para manobrar. "Sem a ajuda do fiscal, é muito difícil. Não tem como reinventar a roda."
O cenário é de pressão cruzada. O governo quer cortes de juros agora. O BC resiste, citando inflação ainda elevada. Mas o mercado começa a divergir: a LCA Consultoria aposta em redução no terceiro trimestre, e economistas como Gustavo Sung, da Suno Research, projetam o primeiro corte já em agosto. Outros analistas ouvidos pelo UOL vão mais longe e argumentam que o espaço para baixar a Selic já existe — afinal, a projeção de crescimento para 2023 subiu para 1%, sinal de que outros indicadores melhoraram. O debate sobre o nível correto dos juros, portanto, está longe do fim.
Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, saiu em defesa da instituição que comanda durante entrevista à CNN Brasil, apontando o dedo para o governo federal como o verdadeiro responsável pelos juros elevados que atravancam a economia. Com a taxa Selic em 13,75% ao ano, Campos Neto argumentou que o problema não reside nas decisões do BC, mas na competição que o governo cria ao tomar emprestado no mercado.
A lógica apresentada pelo presidente é direta: quando o governo emite dívida pública e oferece taxas de retorno atraentes, ele puxa para cima o custo do dinheiro disponível para todos os outros tomadores. Um empresário que procura crédito enfrenta juros altos não porque o BC seja "malvado", nas palavras de Campos Neto, mas porque o próprio governo está ali ao lado, pagando mais pelos mesmos recursos. "O grande culpado pelos juros estarem altos é que tem alguém competindo pelos mesmos recursos e pagando mais", resumiu.
Campos Neto reforçou que uma redução na dívida pública teria efeito cascata na economia inteira, tornando o crédito "mais barato para todo mundo". Ele também destacou que a taxa real de juros brasileira — aquela descontada a inflação — ultrapassa 6% ao ano, a maior do mundo segundo seu ranking. Essa realidade, argumentou, reflete uma percepção de risco de longo prazo que não tem origem nas decisões do banco central, mas nas incertezas estruturais que cercam a economia.
O presidente aproveitou a ocasião para elogiar o arcabouço fiscal, o novo regime de gastos do governo, e reafirmou manter diálogo frequente com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Campos Neto reconheceu o esforço fiscal de Haddad, mas deixou claro que sem ajuda do lado das contas públicas, o BC tem as mãos atadas. "Sem a ajuda do fiscal, é muito difícil. Não tem como reinventar a roda", disse.
Suas declarações chegam em momento de pressão política intensa sobre o banco central para que reduza os juros. O governo tem pressionado por cortes, enquanto o BC mantém a posição de que as projeções de inflação ainda justificam o patamar atual da Selic. O mercado, porém, começa a apostar em movimento diferente. A LCA Consultoria vê margem para redução no terceiro trimestre, enquanto economistas como Gustavo Sung, da Suno Research, estimam que o primeiro corte possa vir já em agosto.
Economistas ouvidos pelo UOL vão além e argumentam que o BC já teria espaço para baixar os juros agora. Embora a inflação ainda esteja elevada, outros indicadores melhoraram significativamente — a projeção para crescimento econômico em 2023, por exemplo, subiu para 1%. Essa divergência entre a posição do BC e a visão de parte do mercado e da academia sugere que o debate sobre o nível correto dos juros está longe de se encerrar.
Notable Quotes
Se você, empresário, está tentando pegar um dinheiro e está caro, a culpa não é do Banco Central, que é 'malvado'. A culpa é do governo, que deve muito.— Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central
Sem a ajuda do fiscal, é muito difícil. Não tem como reinventar a roda.— Roberto Campos Neto, sobre a necessidade de cooperação com o governo
The Hearth Conversation Another angle on the story
Quando Campos Neto diz que o governo é o culpado, ele está pedindo desculpas pelo BC ou apenas explicando como funciona a economia?
Um pouco dos dois. Ele está dizendo que o BC não tem controle sobre essa dinâmica — que juros altos são consequência matemática de um governo endividado competindo por dinheiro. Mas há algo de defesa ali também.
E se o governo reduzir a dívida amanhã? Os juros caem automaticamente?
Não automaticamente, mas a pressão diminui. Se há menos governo competindo pelos mesmos recursos, o preço do dinheiro cai naturalmente. É oferta e demanda.
Por que Campos Neto elogia tanto o arcabouço fiscal se ainda acha que não é suficiente?
Porque ele precisa do governo como aliado. Se criticar demais, perde influência. Mas ao dizer "sem ajuda do fiscal é muito difícil", ele está sinalizando: façam mais.
Os economistas que acham que o BC deveria cortar juros agora — eles estão certos?
Dependem do que você prioriza. Se inflação é a prioridade, talvez não. Se crescimento é, sim. Campos Neto escolheu inflação. Outros escolhem crescimento.
Qual é o risco real se os juros continuarem em 13,75%?
Empresas deixam de investir, pessoas deixam de consumir, a economia cresce menos. Mas se caírem rápido demais, a inflação volta. É um equilíbrio muito frágil.