Comida e água até tem, mas abrigo onde encontra?
Em São José do Rio Preto, um caminhoneiro sem formação em marcenaria decidiu, há quase três anos, responder com as próprias mãos a uma lacuna que via repetida em cada viagem: animais abandonados sob a chuva, sem um lugar seco para dormir. Leomar Aparecido Miguel aprendeu o ofício sozinho, transformou um terreno em oficina e já entregou mais de 1,7 mil abrigos gratuitamente, alcançando mais de 5 mil animais. O gesto individual não resolve o abandono, mas interpõe entre o sofrimento e a indiferença algo concreto — madeira, telhado e tempo doado.
- Milhares de cães e gatos em São José do Rio Preto enfrentam frio, chuva e vento sem qualquer proteção, enquanto a rede de cuidados voluntários oferece ração mas raramente um abrigo físico.
- Um caminhoneiro sem experiência decide aprender marcenaria nas horas vagas e transforma essa lacuna em projeto, produzindo em média mais de duas casinhas por dia ao longo de quase três anos.
- O projeto Semeadores do Bem Pet cresce por demanda espontânea — protetores, organizações e famílias pobres que assumiram animais resgatados passam a procurar Leomar diretamente.
- A Câmara Municipal reconheceu o trabalho com a Moção de Aplausos nº 322/2026, aprovada em 7 de julho, dando visibilidade institucional a uma iniciativa que até então operava apenas pela força da rotina e da solidariedade.
- A continuidade do projeto permanece frágil: depende de doações de madeira, telhas e transporte, e os próprios abrigos não substituem castração, vacinação nem políticas estruturais de controle do abandono.
Leomar Aparecido Miguel é caminhoneiro. Não sabia trabalhar com madeira. Mas o que via pelas estradas — animais tremendo sob a chuva, sem um canto seco para se abrigar — não o deixava em paz. A comida e a água, em alguns pontos, já havia. O abrigo, não. Então ele decidiu aprender a construir.
Há quase três anos, Leomar transformou um terreno em São José do Rio Preto numa oficina improvisada. Nas horas vagas, entre uma viagem e outra, cortava madeira, montava paredes e instalava telhados. Sua esposa Simone entrou na rotina de produção e distribuição. Voluntários se somaram. O projeto ganhou nome — Semeadores do Bem Pet — e começou a atrair protetores independentes, organizações de proteção animal e famílias humildes que haviam assumido o cuidado de bichos resgatados das ruas.
Os números acumulados impressionam: mais de 1,7 mil casinhas entregues gratuitamente, beneficiando diretamente mais de 5 mil animais em São José do Rio Preto e municípios vizinhos. Em 7 de julho de 2026, a Câmara Municipal aprovou a Moção de Aplausos nº 322/2026, reconhecendo oficialmente o trabalho.
Mas Leomar sabe que uma casinha é apenas uma camada. O animal continua precisando de água limpa, alimentação, vacinação, castração e atenção veterinária. E o abandono nas ruas — com seus riscos de atropelamento, doenças e reprodução sem controle — exige respostas que nenhuma oficina voluntária consegue dar sozinha. A continuidade do projeto depende de doações de materiais e de pessoas dispostas a ajudar no transporte. O reconhecimento da Câmara deu visibilidade, mas o que mantém as casinhas chegando é a mesma coisa que as originou: a rotina prática de quem não conseguiu olhar para o lado e fingir que não havia nada a fazer.
Leomar Aparecido Miguel é caminhoneiro. Não tinha experiência em marcenaria. Mas há quase três anos, ele transformou um terreno em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, numa oficina onde fabrica abrigos para cães e gatos que vivem nas ruas. Até agora, entregou mais de 1,7 mil casinhas. Todas de graça.
A ideia nasceu simples. Leomar passava pelas ruas durante suas viagens e via animais molhados, tremendo no frio e na chuva. Havia moradores deixando ração e água em alguns pontos, mas faltava o essencial: um lugar seco para dormir. "Eu passava pelas ruas e via os cachorrinhos e os gatinhos molhados. Aí, na hora, pensei: comida, ração e água até tem, mas abrigo onde encontra?", contou ele numa entrevista. Sem saber trabalhar com madeira, decidiu aprender. Cortou as primeiras peças, montou as paredes, instalou os telhados. Fez tudo nas horas vagas, quando não estava na estrada.
O projeto ganhou nome — Semeadores do Bem Pet — e começou a crescer. Protetores independentes, organizações de proteção animal e famílias que cuidavam de bichos abandonados começaram a procurar Leomar. As casinhas iam para terrenos, abrigos comunitários, imóveis sem espaço coberto. Algumas chegavam a famílias pobres que tinham assumido o cuidado de animais resgatados. Parte da madeira era reutilizada, o que ajudava a reduzir custos, embora o projeto ainda precisasse de peças em bom estado para resistir à umidade. Leomar não trabalhava sozinho. Sua esposa, Simone Maria de Campos Souza, ajudava na produção e distribuição. Voluntários também participavam. E havia ainda a tarefa de carregar cada casinha pronta e transportá-la até o lugar onde ficaria — trabalho que exigia veículos e pessoas disponíveis.
Os números falam por si. Mil e setecentas casinhas em aproximadamente dois anos significa mais de duas unidades por dia, em média, considerando todos os dias do período. Na prática, a produção variava conforme a disponibilidade de madeira, telhas, ferramentas, voluntários e transporte. Mais importante: um documento protocolado pela Câmara Municipal em 2 de julho de 2026 informava que o projeto já tinha beneficiado diretamente mais de 5 mil animais recolhidos das ruas de São José do Rio Preto e de municípios próximos. A Moção de Aplausos nº 322/2026 foi aprovada em votação realizada em 7 de julho.
Mas uma casinha é apenas uma camada de proteção. O Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo recomenda que cães e gatos em áreas externas tenham um local coberto e protegido, especialmente em noites frias ou chuvosas. Os tecidos precisam estar secos — umidade aumenta o desconforto térmico. Filhotes, animais idosos, doentes, de pequeno porte ou com pelos curtos exigem atenção maior. O abrigo deve impedir a entrada direta de vento e manter o animal afastado do solo molhado.
Ainda assim, a casinha não substitui o que vem depois. O animal continua precisando de água limpa, alimentação, vacinação, castração e atendimento veterinário quando apresenta ferimentos, tosse, secreção, fraqueza ou mudança de comportamento. E não substitui uma política permanente de adoção e controle do abandono. Os abrigos reduzem o sofrimento imediato, mas cães e gatos nas ruas mantêm riscos de atropelamento, doenças, violência e reprodução sem controle.
A continuidade do Semeadores do Bem Pet depende de doações de materiais e da disponibilidade dos voluntários. Madeira aproveitável, telhas, parafusos, pregos, tintas seguras e apoio no transporte estão entre as necessidades. O uso de material reutilizado reduz o desperdício, mas exige triagem cuidadosa — peças apodrecidas, com pontas expostas ou contaminadas não servem. As casinhas precisam permitir limpeza frequente para evitar acúmulo de umidade, fezes, pulgas e carrapatos. O reconhecimento aprovado pela Câmara deu visibilidade institucional ao projeto, mas o resultado continua ligado à rotina prática: conseguir matéria-prima, montar cada unidade, localizar quem realmente necessita do abrigo e concluir a entrega.
Notable Quotes
Eu passava pelas ruas e via os cachorrinhos e os gatinhos molhados. Aí, na hora, pensei: comida, ração e água até tem, mas abrigo onde encontra?— Leomar Aparecido Miguel, caminhoneiro
The Hearth Conversation Another angle on the story
O que levou um caminhoneiro a aprender marcenaria do zero?
Ele viu animais molhados nas ruas e percebeu que havia comida e água, mas ninguém oferecia um lugar seco para dormir. A pergunta simples virou obsessão.
Como alguém sem experiência consegue produzir 1,7 mil estruturas?
Trabalhando nas horas vagas, com ajuda da esposa e voluntários. Não é velocidade industrial — é consistência. Mais de duas casinhas por dia, durante quase três anos.
E o material? Onde vem a madeira, as telhas?
De doações. Parte é reutilizada, o que reduz custos, mas exige triagem rigorosa. Peças apodrecidas não servem. Tudo precisa durar contra chuva e umidade.
Cinco mil animais beneficiados — isso resolve o problema do abandono?
Resolve apenas o imediato. Uma casinha protege do frio e da chuva, mas o animal ainda precisa de comida, água, vacinação, veterinário. E continua na rua, exposto a atropelamentos e doenças.
Então por que fazer?
Porque reduz sofrimento agora. Porque há 5 mil animais que dormem melhor. Porque a política permanente de adoção ainda não chegou, mas isso não significa que não se deva proteger quem está sofrendo hoje.
O que mantém o projeto vivo?
Doações de material, transporte, voluntários. E a rotina prática de conseguir madeira, montar cada unidade, encontrar quem precisa e entregar. Sem isso, para.