Câmara aprova mudança no ICMS de combustíveis que reduz preços em 2022, mas pode elevar custos em 2023

Empurrar com a barriga os preços altos para ganho imediato
Crítica de deputado sobre como o projeto adia o problema real dos combustíveis caros.

Projeto aprovado por 392 votos promete reduzir gasolina entre 7-8%, etanol 7% e diesel 4% em 2022, ano eleitoral de Bolsonaro. Mudança usa como referência preços de 2019-2020, quando combustíveis eram mais baratos, transferindo custos futuros para próximo governo.

  • Câmara aprovou por 392 votos projeto que muda ICMS de combustíveis de percentual variável para valor fixo anual
  • Promete reduzir gasolina 7-8%, etanol 7%, diesel 4% em 2022, ano eleitoral de Bolsonaro
  • Usa preços de 2019-2020 como referência, transferindo custos altos de 2021 para 2023
  • Estados perderão R$ 24 bilhões em arrecadação, com impacto de R$ 6 bilhões para municípios

A Câmara aprovou projeto que muda cobrança de ICMS sobre combustíveis, passando de percentual variável para valor fixo anual. Medida deve reduzir preços em 2022, mas pode elevar custos artificialmente em 2023.

A Câmara dos Deputados votou nesta quarta-feira um projeto que muda fundamentalmente como os Estados cobram imposto sobre combustíveis. O resultado foi amplo: 392 deputados a favor, 71 contra, 2 abstenções. O texto segue agora para o Senado, mas o que importa é o que ele faz e quando faz.

Até agora, o ICMS sobre gasolina, diesel e etanol funciona como um percentual — entre 25% e 34% — aplicado sobre o preço de venda. Os Estados recalculam esse percentual a cada 15 dias, acompanhando as flutuações que a Petrobras impõe ao mercado. Com os preços internacionais altos em 2021, a arrecadação dos Estados subiu junto. O projeto muda isso para um valor fixo por litro, cobrado uma vez por ano. É uma mudança estrutural que parece simples na superfície mas carrega consequências que se estendem para além da próxima eleição.

O timing é o que torna tudo transparente. Quando o projeto for sancionado, os Estados usarão como referência os preços médios de 2019 e 2020 — anos em que a gasolina custava muito menos. Em 2020, o barril do petróleo chegou a US$ 20. Hoje está em US$ 80. Usando aqueles preços antigos como base, o imposto fixo será definido baixo. Arthur Lira, presidente da Câmara, disse que a gasolina cairá entre 7% e 8%, o etanol 7%, o diesel 4%. Esse alívio durará pelo menos 12 meses — exatamente até depois da eleição presidencial de 2022, quando Jair Bolsonaro buscará a reeleição.

Mas em 2023, quando o próximo governo chegar, o cenário inverte. Os preços altos de 2021 — gasolina chegou a R$ 7 — entrarão no cálculo da nova referência. Se o dólar não cair, se o barril não recuar, se a Petrobras não mudar sua política de reajustes, o imposto fixo permanecerá artificialmente elevado. O que foi redução em 2022 vira aumento em 2023. O problema não desaparece; apenas muda de endereço.

Os críticos viram isso vindo. Alexis Fonteyne, deputado pelo Novo, chamou a proposta de empurrar com a barriga os preços altos para ganhar tempo. "No fundo isso não resolve o problema e talvez gere problema futuro maior," disse. Ênio Verri, do PT, foi mais direto: o projeto tenta disfarçar a responsabilidade do governo Bolsonaro pelas políticas de reajuste da Petrobras e pela gestão econômica. Mesmo assim, a oposição votou a favor. Verri explicou que o povo sofre muito e não é justo continuar sofrendo. Renildo Calheiros, do PCdoB, disse que votaram a favor para "derrubar a máscara" do discurso falso de Bolsonaro — aprovar o projeto e deixar claro que a política econômica continuará aumentando a gasolina.

Os Estados reclamam que perderão R$ 24 bilhões em arrecadação, com impacto de R$ 6 bilhões para os municípios que recebem 25% do ICMS. O Comsefaz, comitê dos secretários estaduais de Fazenda, disse que o governo culpa o ICMS "na pressa de endereçar soluções aparentemente simples, mas claramente equivocadas". Wellington Dias, governador do Piauí, gravou vídeo criticando a proposta. Ele apontou que o próprio Paulo Guedes, ministro da Economia, e o próprio Bolsonaro já admitiram que a solução real seria capitalizar um fundo de equalização de combustíveis — isso faria a gasolina cair para cerca de R$ 4,50, não apenas 40 centavos como promete a Câmara.

AdrianoRires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, reconheceu um mérito: a proposta reduz a volatilidade, passando de reajustes quinzenais para anuais. Mas isso não significa que o preço caia. O problema real, segundo ele, não são os governadores. "Falar que o combustível está alto pelos governadores é artifício político. A principal explicação chama-se Paulo Guedes, é o câmbio." Pires também criticou que o debate acelerado prejudicou o projeto original, que tinha mérito ao estabelecer uma alíquota única e monofásica que ajudaria a combater sonegação. A solução verdadeira, na sua visão, é o fundo de equalização, atrelado a políticas de ajuda à população carente.

Arthur Lira defendeu a mudança e disse que a política de preços da Petrobras não deve ser alterada, mas questionou o "monopólio absurdo" da empresa no gás e a falta de investimento energético. Ele cogitou a venda da Petrobras, perguntando se não seria hora de discutir qual é a função da empresa além de distribuir dividendos aos acionistas. O projeto segue para o Senado, mas o que fica claro é que ninguém acredita que isso resolve o problema — apenas o adia, e talvez o piore.

No fundo isso não resolve o problema e talvez gere problema futuro maior
— Alexis Fonteyne, deputado pelo Novo
Falar que o combustível está alto pelos governadores é artifício político. A principal explicação chama-se Paulo Guedes, é o câmbio
— Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que a oposição votou a favor se critica o projeto?

Model

Porque o povo sofre com a gasolina cara agora. Mesmo sabendo que a solução é frágil e temporária, votaram para dar algum alívio imediato. É um voto de desespero, não de convicção.

Inventor

Então em 2023 a gasolina fica mais cara que hoje?

Model

Potencialmente, sim. Se o dólar e o petróleo não caírem muito, o imposto fixo que será baixo em 2022 se torna alto em 2023, porque usa como referência os preços altos de 2021.

Inventor

E por que ninguém simplesmente muda a política de preços da Petrobras?

Model

Porque a Petrobras é uma empresa estatal controlada pelo governo, e o governo quer manter a política de reajustes internacionais. Mudar isso seria admitir que a política econômica fracassou.

Inventor

O que o fundo de equalização faria?

Model

Funcionaria como um amortecedor. O governo colocaria dinheiro quando o preço internacional sobe, reduzindo o custo para o consumidor. Mas isso custa dinheiro público, e o governo preferiu uma solução que parece gratuita.

Inventor

Então é só um truque eleitoral?

Model

É mais que isso. É um truque que funciona em 2022 mas deixa uma bomba para 2023. A próxima administração herdará um imposto fixo alto em um cenário onde talvez não possa reduzi-lo facilmente.

Inventor

Os Estados vão aceitar perder R$ 24 bilhões?

Model

Não têm escolha. A Câmara aprovou. Mas vão reclamar, e essa reclamação vai ecoar quando os preços subirem novamente.

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