Onda de calor de até 50°C causa crise energética e reduz produção de trigo na Índia

Desde 2010, ondas de calor mataram mais de 6,5 mil pessoas na Índia; população atual dorme em leitos de rios secos e enfrenta escassez de água potável.
Nunca havia enfrentado um clima tão severo em abril
Residente de Nova Délhi descreve a antecipação inédita da onda de calor recorde.

Sob um calor sem precedentes em 122 anos, a Índia e o Paquistão enfrentam em maio de 2022 uma crise que transcende o climático: temperaturas acima de 50°C ameaçam colheitas de trigo, sobrecarregam redes elétricas e expõem mais de um bilhão de pessoas à vulnerabilidade simultânea da fome, do apagão e da sede. O evento não é isolado — é o reflexo acelerado das mudanças climáticas globais sobre uma das regiões mais densamente habitadas do planeta, num momento em que a guerra na Ucrânia já havia fragilizado o equilíbrio alimentar mundial. O que arde nos campos indianos ressoa nas mesas de nações distantes.

  • Março e abril de 2022 foram os mais quentes já registrados na Índia em 122 anos, surpreendendo a população pela antecipação e pela intensidade — o calor extremo chegou antes que qualquer preparo fosse possível.
  • A colheita de trigo, cultura sensível ao calor durante o enchimento dos grãos, pode ter caído até 50% nesta temporada, ameaçando tanto a segurança alimentar interna quanto as exportações que o mundo esperava da Índia para compensar a guerra na Ucrânia.
  • A demanda por energia disparou entre 13% e 75% dependendo da região, enquanto os estoques de carvão atingiram os níveis mais baixos em nove anos — blecautes diurnos tornaram-se rotina em todo o país.
  • Mais de 6,5 mil pessoas morreram em ondas de calor na Índia desde 2010, e a população atual dorme em leitos de rios secos, enfrenta escassez de água potável e vê seus custos de fertilizantes e combustível dispararem ao mesmo tempo em que a renda agrícola desaba.

A Índia vive em 2022 seu pior episódio de calor em mais de um século. Com temperaturas ultrapassando 50°C em várias regiões e previsão de permanência acima do normal até junho, março e abril já entraram para a história como os meses mais quentes já registrados. A antecipação do fenômeno pegou a população de surpresa — o calor extremo costuma chegar em maio, mas desta vez veio antes e com força incomum. Somya Mehra, moradora de Nova Délhi, disse nunca ter enfrentado um abril tão severo.

O fenômeno ultrapassa as fronteiras indianas e atinge também o Paquistão, afetando conjuntamente mais de um bilhão de pessoas. Cientistas apontam as mudanças climáticas como responsáveis pela intensificação e frequência crescente desses eventos no Sul da Ásia. A hidroclimatologista Arpita Mondal, do Instituto Indiano de Tecnologia, acrescenta que a poluição urbana amplifica o aquecimento nas cidades, com partículas de carbono e poeira absorvendo a luz solar.

O trigo foi uma das primeiras vítimas. Extremamente sensível ao calor durante o período de enchimento dos grãos em março, a cultura pode ter sofrido redução de 10% a 50% nesta temporada, segundo agricultores e funcionários do governo. Para o segundo maior produtor mundial, a queda é grave — especialmente porque o mundo já buscava na Índia uma alternativa à escassez provocada pela guerra entre Rússia e Ucrânia. O Egito, maior comprador, havia acabado de receber os primeiros carregamentos. Internamente, milhões de agricultores verão sua renda cair num momento em que os custos de insumos já dispararam.

A crise energética completa o quadro. A demanda por energia subiu 13,2% em abril no país inteiro, chegando a 42% em Delhi e a mais de 75% em algumas regiões do Norte. As concessionárias não acompanharam: o fornecimento ficou 1,8% abaixo da demanda, o pior índice desde 2015, e blecautes diurnos tornaram-se frequentes. Os estoques de carvão caíram 13% mesmo com a Coal India aumentando sua produção em 27% — sinal de que a infraestrutura energética do país não está preparada para o que ainda está por vir.

A Índia está vivendo seu pior episódio de calor em pelo menos 122 anos. As temperaturas ultrapassam os 50°C em várias regiões, e o termômetro deve permanecer acima do normal até o início de junho — mais de três meses de intensidade extrema. Março e abril foram os meses mais quentes já registrados nessa série histórica, chegando antes do que o esperado. Normalmente, a população se prepara para o calor extremo a partir de maio, mas desta vez o fenômeno surpreendeu pela antecipação e pela força. Somya Mehra, residente em Nova Délhi, resumiu a situação para a Al Jazeera: nunca havia enfrentado um clima tão severo em abril.

O fenômeno não se limita às fronteiras indianas. A onda de calor também atinge o Paquistão, afetando conjuntamente mais de um bilhão de pessoas. Cientistas apontam que as mudanças climáticas globais estão tornando esses eventos mais intensos e frequentes no Sul da Ásia. Desde 2010, ondas de calor já mataram mais de 6,5 mil pessoas na Índia. Pesquisadores, como a hidroclimatologista Arpita Mondal do Instituto Indiano de Tecnologia, indicam que a poluição urbana também contribui para o fenômeno: partículas de carbono e poeira absorvem a luz solar e amplificam o aquecimento nas cidades indianas.

O impacto na produção de alimentos é devastador. O trigo, extremamente sensível ao calor, sofreu danos críticos durante o período crucial de enchimento de grãos em março. As estimativas de agricultores e funcionários do governo consultados pela Bloomberg apontam para uma redução de 10% a 50% na colheita desta temporada. Para a Índia, o segundo maior produtor mundial de trigo, essa queda representa um golpe sério na oferta global num momento em que o mundo já enfrenta escassez. A guerra entre Rússia e Ucrânia interrompeu os fluxos comerciais da região do Mar Negro, e nações importadoras se voltaram para a Índia como alternativa. O Egito, maior comprador, já estava recebendo os primeiros carregamentos. Uma produção menor ameaça a capacidade do país de compensar a redução global.

O impacto interno também é preocupante. Milhões de indianos dependem da agricultura como principal fonte de renda e alimento. A colheita reduzida significa queda na renda dos agricultores num momento em que os custos de fertilizantes e combustível dispararam. O governo, que compra trigo para seu programa de ajuda alimentar, também enfrentará pressões adicionais.

A crise energética agrava o cenário. Com o aumento do calor, a demanda por ar-condicionado explodiu justamente quando as usinas de eletricidade enfrentam escassez aguda de carvão. Em abril, a demanda de energia em toda a Índia subiu 13,2%, enquanto no Norte o aumento variou entre 16% e 75%. Em Delhi, o consumo energético aumentou 42% no mês. Estados como Punjab e Rajasthan registraram aumentos de 36% e 28%, respectivamente. Até regiões montanhosas como Himachal Pradesh e Uttarakhand, que atraem turistas fugindo do calor das planícies, viram a demanda de energia aumentar em mais de um sexto.

As concessionárias não conseguem acompanhar. Em abril, o fornecimento de energia ficou aquém da demanda em 1,8%, o pior índice desde outubro de 2015. Blecautes ocorrem com frequência durante o dia em larga escala. Os estoques de carvão das concessionárias, que já estavam nos níveis mais baixos em pelo menos nove anos antes do verão, caíram 13% apesar de a Coal India — responsável por 80% da produção nacional — ter aumentado sua produção em mais de 27%. Mesmo com esse esforço, a infraestrutura energética não consegue acompanhar a demanda crescente, sinalizando que cortes de energia mais severos ainda estão por vir.

Esta é a primeira vez que tivemos um clima tão horrível em abril. Normalmente, estamos preparados para isso a partir de maio
— Somya Mehra, residente de Nova Délhi
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que essa onda de calor é tão diferente das anteriores?

Model

Chegou antes do esperado e com uma intensidade que surpreendeu até quem vive acostumado com verões extremos. Março e abril foram os meses mais quentes em 122 anos. As pessoas não tiveram tempo de se preparar como fazem normalmente a partir de maio.

Inventor

E qual é a conexão entre o calor e a falta de trigo no mundo?

Model

O trigo é muito sensível ao calor. Quando as temperaturas sobem durante o período crítico de enchimento dos grãos, o peso da colheita cai drasticamente. A Índia é o segundo maior produtor mundial, então quando a produção cai 10% a 50%, o mundo inteiro sente.

Inventor

A guerra na Ucrânia piorou isso?

Model

Sim. A Ucrânia e a Rússia normalmente abastecem o mundo com trigo. Quando a guerra interrompeu esse fluxo, países começaram a comprar da Índia. Agora a Índia não consegue fornecer o que prometeu porque o calor destruiu as plantações.

Inventor

E a energia? Por que o calor causa crise energética?

Model

Mais calor significa mais pessoas ligando ar-condicionado. A demanda por eletricidade explodiu. Mas as usinas dependem de carvão, que está em falta. Os estoques caíram 13% mesmo com a produção aumentando. É um descompasso entre demanda e oferta.

Inventor

Quantas pessoas estão sendo afetadas?

Model

Mais de um bilhão na Índia e Paquistão juntos. E não é só desconforto. Desde 2010, ondas de calor mataram mais de 6,5 mil pessoas na Índia. Pessoas estão dormindo nos leitos secos dos rios porque é o único lugar um pouco mais fresco.

Inventor

Isso vai melhorar em breve?

Model

Não. O calor deve se prolongar até junho. Os estoques de carvão continuam caindo. Mais blecautes estão a caminho. E a próxima colheita ainda está longe.

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