Cadeia alimentar da Antártida está a sofrer transformação fundamental

Impacto indireto em populações de fauna marinha dependente de krill, incluindo pinguins, focas e baleias, com potencial redução de recursos alimentares.
A base da cadeia alimentar antártica está a transformar-se de forma fundamental
Investigadores documentam mudança nas comunidades de fitoplâncton que afeta toda a vida marinha e o ciclo do carbono.

Nas águas mais remotas do planeta, algo silencioso e profundo está a mudar. Ao longo de 26 anos de observação paciente, investigadores internacionais descobriram que as algas que sustentam toda a vida no Oceano Antártico estão a ser substituídas por espécies menos nutritivas — uma transformação que ameaça não apenas pinguins, focas e baleias, mas também a capacidade do oceano de absorver o carbono que aquece o mundo. É um espelho no gelo: o que acontece na base da cadeia alimentar reflete-se, eventualmente, em toda a biosfera.

  • Quase 15 mil amostras de água e décadas de dados de satélite revelam que as diatomáceas ricas em energia estão a desaparecer de vastas áreas da Antártida, substituídas por algas menores e menos nutritivas.
  • O krill, pilar de toda a fauna marinha antártica, depende das diatomáceas — sem elas, pinguins, focas e baleias de barbas enfrentam uma cadeia alimentar empobrecida e menos capaz de os sustentar.
  • O aquecimento oceânico, a redução de ferro nas águas superficiais e o colapso do gelo marinho após 2016 aceleram a substituição, criando condições cada vez mais favoráveis às espécies invasoras e menos nutritivas.
  • As novas algas não afundam com eficiência, o que significa que o carbono que deveria ficar preso nas profundezas por séculos pode agora regressar à atmosfera, transformando o oceano de sumidouro em possível emissor.
  • Publicado na revista Nature Climate Change, o estudo combina aprendizagem automática, imagens de satélite e modelos da NASA para documentar, pela primeira vez com esta clareza, uma reorganização ecológica de escala planetária.

Há quase três décadas, investigadores internacionais recolhem amostras de água do Oceano Antártico, observando pacientemente o que flutua nelas. Agora, com quase 15 mil amostras analisadas e décadas de dados de satélite processados, conseguem ver algo que ninguém tinha visto antes com esta clareza: a base da cadeia alimentar antártica está a transformar-se de forma fundamental.

O estudo, conduzido pelo Instituto Meteorológico Dinamarquês e publicado na Nature Climate Change, documenta uma mudança nas comunidades de fitoplâncton entre 1997 e 2023. As diatomáceas — algas ricas em energia preferidas pelo krill — têm vindo a desaparecer de vastas áreas. No seu lugar surgem espécies menores e menos nutritivas: algas douradas, amarronzadas e criptófitos. É uma substituição silenciosa, mas com consequências que se propagam por toda a teia alimentar, afetando o krill que alimenta pinguins, focas e baleias de barbas.

A mudança está ligada a três fatores que se intensificaram: o aumento das temperaturas oceânicas, a diminuição do ferro nas águas superficiais e as alterações na cobertura de gelo marinho. Os dados revelam dois períodos distintos: entre 1997 e 2016, as diatomáceas diminuíram à medida que o gelo marinho aumentava; após 2016, com a redução drástica do gelo, os criptófitos cresceram de forma acentuada. As novas espécies são mais eficazmente pastadas por salpas gelatinosas — um alimento pobre para a fauna marinha e menos eficiente no transporte de carbono para as profundezas.

Este último ponto é talvez o mais inquietante. As diatomáceas, com os seus esqueletos densos de silício, afundam-se rapidamente e arrastam carbono para as profundezas do oceano, onde fica armazenado durante séculos. As algas que as substituem não fazem isto com a mesma eficiência, o que significa que o dióxido de carbono pode ser libertado de novo na atmosfera — transformando o oceano, que tem funcionado como sumidouro de carbono, num possível amplificador do aquecimento global. A sensibilidade do ecossistema marinho antártico às alterações climáticas é agora evidente, e as suas implicações estendem-se muito para além das águas geladas do sul.

Há quase três décadas, investigadores internacionais têm vindo a recolher amostras de água do Oceano Antártico, observando pacientemente o que flutua nela. Agora, com quase 15 mil amostras analisadas e décadas de dados de satélite processados, conseguem ver algo que ninguém tinha visto antes com esta clareza: a base da cadeia alimentar antártica está a transformar-se de forma fundamental.

O estudo, conduzido pelo Instituto Meteorológico Dinamarquês e publicado na revista Nature Climate Change, documenta uma mudança nas comunidades de fitoplâncton — aquelas algas microscópicas unicelulares que sustentam toda a vida nos oceanos. Durante os 26 anos de observação entre 1997 e 2023, as diatomáceas, algas ricas em energia que o krill prefere, têm vindo a desaparecer de vastas áreas da Antártida. No seu lugar, surgem espécies menores e menos nutritivas: algas douradas, amarronzadas e criptófitos. É uma substituição silenciosa, mas com consequências que se propagam por toda a teia alimentar — afetando o krill, que alimenta os pinguins, as focas e as baleias de barbas.

Alexander Hayward, o autor principal do estudo e cientista climático do Centro Nacional de Investigação Climática, descreve o que está a acontecer como uma possível reorganização fundamental da vida na Antártida. As minúsculas algas na base do ecossistema estão a mudar de forma que pode repercutir-se em todo o sistema, alterando inclusive a forma como o oceano ajuda a regular o clima do planeta. A mudança não é aleatória. Está ligada a três fatores que se intensificaram: o aumento das temperaturas oceânicas, a diminuição do ferro nas águas superficiais e as alterações na cobertura de gelo marinho.

As diatomáceas, com os seus esqueletos densos de silício, têm uma característica crucial: afundam-se rapidamente e arrastam carbono para as profundezas do oceano, onde fica armazenado durante séculos. As algas que as estão a substituir não fazem isto com a mesma eficiência. Isto significa que o dióxido de carbono que deveria ficar preso nas profundezas pode agora ser libertado de novo na atmosfera, criando um ciclo de retroação climática negativa. O oceano, que tem funcionado como um sumidouro de carbono, pode estar a perder essa capacidade.

A investigação baseou-se num método simples mas poderoso: recolher amostras de água regularmente, durante quase três décadas, e ver o que contêm. Simon Wright, biólogo marinho do Instituto de Estudos Marinhos e Antárticos, sublinha o valor desta abordagem de rotina. Com o passar do tempo, obtém-se uma base de dados valiosa. Essa base de dados foi depois analisada com aprendizagem automática avançada, combinada com imagens de satélite que mostram a cor do oceano, a concentração de gelo marinho e a temperatura da superfície, e com modelos da NASA que incluem ciclos de carbono, nutrientes e oxigénio.

Os resultados revelam dois períodos distintos. Entre 1997 e 2016, as populações de diatomáceas diminuíram significativamente à medida que o gelo marinho aumentava. Depois, após 2016, quando a Antártida registou uma redução drástica da extensão do gelo marinho, as tendências inverteram-se — as diatomáceas recuperaram, mas os criptófitos cresceram de forma acentuada. Pat Wongpan, cientista do gelo marinho da Universidade da Tasmânia, explica que as algas douradas e os criptófitos que substituem as diatomáceas são mais eficazmente pastados por salpas gelatinosas, que são um alimento pobre para a fauna marinha e menos eficiente no transporte de carbono.

O que torna esta transformação particularmente preocupante é que o fitoplâncton é fundamental não apenas para a icónica teia alimentar marinha da Antártida, mas também para a bomba biológica de carbono — o mecanismo que o oceano usa para regular o clima global. As mudanças a longo prazo na composição destas comunidades eram pouco conhecidas até agora. Este estudo tem como objetivo alterar essa situação, documentando uma alteração do sistema ecológico no oceano polar sul causada pelas alterações climáticas, que poderá, por sua vez, influenciar o clima através de um mecanismo de retroação. A sensibilidade do ecossistema marinho antártico às alterações climáticas é agora evidente, e as implicações estendem-se muito para além das águas geladas do sul.

Podemos estar a assistir a uma reorganização fundamental da vida na Antártida
— Alexander Hayward, autor principal do estudo, Centro Nacional de Investigação Climática
O dióxido de carbono que, de outra forma, seria armazenado nas profundezas do oceano poderia agora ser libertado de novo na atmosfera
— Alexander Hayward
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Porque é que as diatomáceas estão a desaparecer especificamente?

Model

Precisam de ferro para crescer, e o ferro nas águas superficiais tem diminuído. Também preferem temperaturas mais frias e gelo marinho. As algas que as substituem são mais resistentes a estas mudanças.

Inventor

E isto afeta realmente os pinguins e as baleias?

Model

Sim, mas de forma indireta. Os pinguins comem krill, e o krill prefere as diatomáceas porque têm mais energia. Se o krill fica mais fraco ou menos abundante, toda a cadeia alimentar sofre.

Inventor

Qual é a parte mais preocupante para o clima?

Model

As diatomáceas afundam-se rapidamente e levam carbono para o fundo do oceano, onde fica armazenado. As algas que as substituem não fazem isto tão bem. Portanto, o carbono que deveria ficar preso pode voltar à atmosfera.

Inventor

Como é que os cientistas conseguiram ver isto acontecer?

Model

Recolheram amostras de água durante 26 anos — quase 15 mil amostras. Depois usaram computadores para analisar os pigmentos das algas e combinaram isto com dados de satélite e modelos climáticos.

Inventor

Isto pode reverter-se?

Model

Talvez, se o gelo marinho voltar ou se o ferro aumentar. Mas as tendências desde 2016 sugerem que as mudanças estão a acelerar, não a abrandar.

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