A ciência não pode ser destruída por bombardeios
No encerramento da cúpula do Rio de Janeiro, o Brics uniu sua voz para exigir a retirada de Israel de Gaza e um cessar-fogo imediato — mas a declaração final carrega, nas entrelinhas, as fraturas de um bloco que ainda busca definir seu lugar moral no mundo. Entre potências que rejeitam a existência de Israel e outras que temem parecer hostis ao Ocidente, o documento representa menos um consenso do que um equilíbrio precário, construído palavra por palavra ao longo de dias de negociação.
- O Brics exigiu retirada total das forças israelenses de Gaza, cessar-fogo permanente e acesso humanitário irrestrito, condenando o uso da fome como arma de guerra.
- Irã, China e Rússia pressionaram por linguagem mais dura, enquanto Índia, Emirados e Arábia Saudita resistiram para não parecer anti-ocidentais ou anti-Trump.
- A menção à solução de dois Estados criou um impasse específico: para o Irã, endossar essa formulação equivale a reconhecer implicitamente a legitimidade de Israel.
- Ao fundo, os ataques de Israel e dos EUA às instalações nucleares iranianas em junho tensionaram ainda mais as negociações dentro do bloco.
- A declaração cita Israel sete vezes e evita mencionar os Estados Unidos ou Trump — uma omissão deliberada que revela o frágil equilíbrio que o Brics tenta sustentar.
A cúpula do Brics encerrou no Rio de Janeiro com uma declaração que pede a retirada completa de Israel de Gaza e um cessar-fogo imediato, permanente e sem condições. Quatro parágrafos inteiros foram dedicados ao conflito palestino-israelense — sinal tanto da importância que o bloco atribui à questão quanto das tensões internas que marcaram as negociações.
O texto condena os ataques contínuos contra Gaza, a obstrução de ajuda humanitária e o uso da fome como método de guerra. Além da retirada israelense, o Brics exige a libertação de reféns e detidos e defende a criação de um Estado palestino independente, com a unificação de Gaza e Cisjordânia sob a Autoridade Palestina.
Por trás da linguagem unificada, porém, há fraturas visíveis. O Irã pressionou por posições mais duras, apoiado por China e Rússia. Índia, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Etiópia e Egito resistiram, temendo que o bloco parecesse excessivamente alinhado à China ou hostil ao Ocidente. A menção à solução de dois Estados criou um problema particular para Teerã: ao endossar essa formulação, o Irã entenderia estar reconhecendo implicitamente a legitimidade de Israel — algo que sua política externa rejeita de forma absoluta.
O contexto é agravado pelo ataque conjunto de Israel e Estados Unidos às instalações nucleares iranianas em junho, episódio que elevou ainda mais as tensões dentro do bloco. A declaração final evita citar os EUA ou Trump pelo nome — uma omissão deliberada que traduz o equilíbrio frágil que o Brics tenta manter entre membros com visões de mundo profundamente distintas.
A cúpula do Brics encerrou neste domingo no Rio de Janeiro com uma declaração final que pede a retirada completa de Israel da Faixa de Gaza e um cessar-fogo imediato, permanente e sem condições. O documento dedica quatro parágrafos inteiros ao conflito palestino-israelense, refletindo a importância que o bloco atribui à questão — mas também as fraturas internas que marcaram as negociações da última semana.
O texto expressa preocupação profunda com os ataques contínuos de Israel contra Gaza e a obstrução do acesso de ajuda humanitária ao território. Condena explicitamente o uso da fome como método de guerra e a tentativa de politizar ou militarizar a assistência humanitária. Além da retirada das forças israelenses, o Brics exige a libertação de todos os reféns e detidos em violação ao direito internacional, bem como garantias de acesso para entrega de ajuda. O bloco defende ainda a unificação da Cisjordânia e Gaza sob a Autoridade Palestina, com a criação de um Estado palestino independente.
Mas por trás dessa linguagem unificada há uma tensão clara. Durante as negociações, o Irã — que integrou o bloco em 2023 — pressionou por um posicionamento mais duro, apoiado por China e Rússia. Teerã não reconhece Israel e prefere usar expressões como "regime sionista" para se referir ao país. Esse endurecimento, porém, enfrentou resistência de membros mais próximos aos Estados Unidos: Índia, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Etiópia e Egito temiam que o bloco fosse percebido como ainda mais alinhado à China e, portanto, anti-ocidental ou anti-Trump.
A declaração menciona a solução de dois Estados como caminho para a paz — uma posição histórica do Brics que até mesmo novos membros do Oriente Médio como Egito e Emirados endossam. Mas essa formulação criou um problema específico para o Irã. Ao endossar um texto que reconhece a viabilidade de dois Estados, Teerã entende que estaria reconhecendo implicitamente a legitimidade do Estado de Israel, algo que sua política externa rejeita fundamentalmente. O documento cita Israel sete vezes, todas em contextos relacionados aos conflitos em Gaza, Síria e Líbano.
O pano de fundo dessa disputa é recente. Em 21 de junho, Israel e os Estados Unidos atacaram instalações nucleares iranianas. Trump afirmou ter "obliterado" o programa nuclear iraniano, enquanto o Irã insiste que seu programa é pacífico e que a ciência não pode ser destruída por bombardeios — o país, segundo seu ministro das Relações Exteriores Abbas Araghchi, pode recuperar rapidamente sua capacidade nuclear.
A declaração final evita mencionar explicitamente os Estados Unidos ou Trump, apesar de criticar guerras de forma geral. Essa omissão é deliberada, refletindo o equilíbrio frágil que o bloco tenta manter entre seus membros. O Brics segue dividido entre aqueles que veem a questão palestina como central para uma ordem internacional mais justa e aqueles que temem que posições muito radicais isolem o bloco no cenário global.
Citações Notáveis
A ciência não pode ser destruída por bombardeios e o país pode recuperar rapidamente sua capacidade nuclear— Abbas Araghchi, ministro das Relações Exteriores do Irã
O bloco condenou a tentativa de politizar ou militarizar a assistência humanitária e o uso da fome como método de guerra— Declaração final do Brics
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que o Irã pressionou tão fortemente por um texto mais duro se sabia que outros membros resistiriam?
Porque para Teerã, Gaza não é apenas um conflito regional — é um teste de lealdade. O Irã quer saber se o Brics é realmente uma alternativa ao Ocidente ou apenas um clube de negócios.
E a menção aos dois Estados — por que isso incomoda tanto o Irã?
Porque reconhecer dois Estados significa, implicitamente, reconhecer que Israel tem direito a existir. Para o Irã, isso é uma linha que não pode ser cruzada. É a diferença entre condenar ações e legitimar a existência.
Então o Brics conseguiu um consenso real ou apenas escondeu as rachaduras?
Conseguiu um consenso de palavras. Mas as rachaduras estão ali. Índia, Emirados e Arábia Saudita queriam evitar parecer anti-Trump. O Irã, China e Rússia queriam ir mais longe. Ninguém saiu completamente satisfeito.
O que muda agora com essa declaração?
Pouco no curto prazo. Israel não vai sair de Gaza porque o Brics pediu. Mas a declaração marca uma posição: o bloco está dizendo que não aceita a guerra como está. É um sinal, não uma solução.
E quanto aos ataques nucleares iranianos — como isso influenciou o tom?
Muito. O Irã estava ferido, literalmente bombardeado. Queria que o Brics falasse mais alto. Mas os outros membros tinham medo de parecer que estavam escolhendo um lado em uma guerra maior.