O caminho para solução de liquidez permanece incerto
A Braskem, maior petroquímica da América Latina, viveu em dois meses uma parábola completa da fortuna corporativa: a euforia de uma recomendação de banco de investimento que fez suas ações saltarem quase 30% em um único dia, seguida pela sobriedade brutal de credores que recusaram apoio à reestruturação e de uma Justiça que tornou a empresa ré por um desastre socioambiental em Maceió. O que se desenrola em junho de 2026 não é apenas uma crise de liquidez, mas o encontro inevitável entre os números de uma recuperação incompleta e o peso das consequências humanas e ambientais ainda não resolvidas.
- As ações da Braskem subiram 29% em um único dia em maio, impulsionadas pelo JPMorgan e por um short squeeze que transformou apostas contra a empresa em combustível para a alta.
- O lucro de R$ 1,45 bilhão no primeiro trimestre parecia confirmar a virada, mas o Ebitda abaixo das estimativas revelava que a recuperação era frágil e incompleta.
- Em junho, credores recusaram apoiar a reestruturação extrajudicial, alegando tratamento desigual e ausência de opção de conversão de dívida em capital, deixando o caminho da empresa sem saída clara.
- As ações despencaram quase 30% em junho, com BRKM5 renovando mínima do ano em R$ 7,40, enquanto analistas do UBS BB alertavam para risco de diluição dos acionistas minoritários.
- A Justiça Federal em Alagoas tornou a Braskem e ex-dirigentes réus pelo desastre causado pela exploração de sal-gema em Maceió, adicionando risco legal e reputacional à já tensa equação financeira.
A Braskem viveu dois meses de trajetórias opostas. Em maio, suas ações subiram mais de 10% no período, com destaque para o dia 12, quando os papéis saltaram 29% após o JPMorgan elevar sua recomendação para overweight. O banco sinalizou confiança renovada nos fundamentos da empresa, na oferta mais restrita de seus produtos e nas melhorias de governança após a reestruturação societária. Um movimento de short squeeze amplificou a alta, forçando investidores que apostavam na queda a cobrir suas posições.
Os números do primeiro trimestre alimentaram o otimismo: lucro líquido de R$ 1,45 bilhão, mais que dobrando o resultado do mesmo período do ano anterior. Havia, porém, ressalvas importantes — o Ebitda recorrente de US$ 192 milhões ficou abaixo das estimativas do Bradesco BBI e do consenso Bloomberg, e o patamar absoluto permanecia distante dos resultados de 2025.
Junho trouxe a reviravolta. A gestora IG4 Capital recebeu aprovação para assumir o controle da Braskem, mas logo ficou claro que a reestruturação enfrentaria obstáculos sérios. Credores resistiram à proposta extrajudicial, apontando tratamento desigual na estrutura de capital, garantias insuficientes e a ausência de conversão de dívida em participação acionária. O caminho para uma solução permanecia nebuloso.
As ações despencaram quase 30% em junho, com BRKM5 renovando mínima do ano em R$ 7,40. Analistas do UBS BB descreveram a situação de liquidez de curto prazo como fonte contínua de volatilidade e alertaram para o risco de diluição dos acionistas minoritários, mantendo recomendação neutra.
Por trás da turbulência financeira, havia questões ainda mais graves. A Justiça Federal em Alagoas tornou a Braskem e ex-dirigentes réus em processo que apura responsabilidades pelo desastre socioambiental causado pela exploração de sal-gema em Maceió — notícia que analistas viram como novo vetor de risco legal e reputacional. A empresa navegava, assim, em águas turbulentas: reestruturação financeira sem consenso, passivos ambientais crescentes e uma base acionária cada vez mais nervosa.
A Braskem viveu dois meses de trajetórias opostas na Bolsa. Em maio, suas ações dispararam — subindo mais de 10% no mês, a sexta maior alta do Ibovespa no período. No dia 12 de maio especificamente, os papéis saltaram 29% após o JPMorgan elevar sua recomendação para overweight, sinalizando confiança renovada nos fundamentos da empresa, na oferta mais restrita de seus produtos e na melhoria da governança corporativa após a reestruturação societária. O banco também apontou que a petroquímica se beneficiaria de avanços recentes no marco regulatório da indústria química brasileira, medidas desenhadas para fortalecer a competitividade dos produtores locais diante da pressão de importações e do excesso de oferta global. Operadores também identificaram um movimento de short squeeze — investidores que haviam apostado na queda das ações se vendo forçados a cobrir suas posições vendidas conforme o preço subia, alimentando ainda mais a alta.
O otimismo tinha fundamento nos números. A Braskem, maior grupo petroquímico da América Latina, divulgou lucro líquido de R$ 1,45 bilhão no primeiro trimestre, mais que dobrando o resultado de R$ 698 milhões do mesmo período do ano anterior. Mas havia ressalvas. O Ebitda recorrente de US$ 192 milhões ficou abaixo tanto da estimativa do Bradesco BBI de US$ 229 milhões quanto do consenso de Bloomberg de US$ 251 milhões. A recuperação sequencial de 76% em relação ao trimestre anterior era significativa, mas o patamar absoluto permanecia bem distante dos US$ 224 milhões alcançados no primeiro trimestre de 2025. Ainda assim, analistas projetavam melhora forte no segundo trimestre, alimentados pela expectativa de spreads mais favoráveis provocados pela situação geopolítica no Oriente Médio.
Junho trouxe uma reviravolta. No início do mês, a gestora IG4 Capital recebeu aprovação final para assumir a participação de 50,1% que a Novonor detinha na petroquímica — um desfecho após meses de negociações e incerteza sobre o controle da empresa. Mas logo começaram a surgir sinais de que a reestruturação enfrentaria obstáculos. A Braskem e o IG4 Capital tiveram dificuldades para obter apoio suficiente de credores para avançar com uma proposta de reestruturação extrajudicial. Os credores resistiam aos planos porque resultariam em tratamento desigual dentro da estrutura de capital da empresa, além de levantarem preocupações sobre as garantias oferecidas e a ausência de uma opção de conversão de dívida em capital. Fontes indicavam que a companhia descartava uma recuperação judicial e buscaria um acordo, mas o caminho permanecia nebuloso.
A pressão sobre os papéis intensificou-se. Apenas em junho, as ações caíram quase 30%, com a queda de cerca de 21% apenas naquela semana. Na quinta-feira, BRKM5 desabou quase 12%, renovando mínima do ano em R$ 7,40. Os analistas do UBS BB apontaram a situação desafiadora de liquidez de curto prazo como geradora contínua de volatilidade, apesar do cenário mais favorável de spreads. "De modo geral, entendemos que o caminho da empresa para uma solução de liquidez permanece incerto e pode incluir risco de diluição para acionistas minoritários", afirmaram em relatório. Embora considerassem que a empresa pudesse superar os desafios no médio e longo prazo, as incertezas sustentavam sua recomendação neutra.
Por trás da volatilidade financeira havia questões mais profundas. A Justiça Federal em Alagoas tornou a petroquímica e ex-dirigentes réus em processo que apura responsabilidades pelo desastre socioambiental causado pela exploração de sal-gema em Maceió. Analistas viram essa notícia como potencial para aumentar ainda mais as preocupações em torno dos riscos legais e reputacionais da empresa. Uma assembleia de acionistas no começo do mês havia aprovado mudança no estatuto que permitia ao conselho de administração decidir sobre requerimento de recuperação extrajudicial, bem como, em caso de urgência, a confissão de falência ou pedido de recuperação judicial. A Braskem navegava, portanto, em águas turbulentas: dificuldades de reestruturação financeira, passivos ambientais crescentes e uma base acionária cada vez mais nervosa.
Notable Quotes
De modo geral, entendemos que o caminho da empresa para uma solução de liquidez permanece incerto e pode incluir risco de diluição para acionistas minoritários— Analistas do UBS BB
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como uma ação salta 29% em um dia e depois cai 30% em um mês? Isso é movimento de mercado ou há algo mais profundo?
Há os dois. O salto em maio foi real — o JPMorgan viu melhora genuína nos fundamentos, e houve um short squeeze que amplificou a alta. Mas era otimismo construído sobre alicerces frágeis.
Frágeis como?
O Ebitda ficou abaixo das estimativas. A empresa tinha problemas de liquidez que ninguém estava falando abertamente. E havia uma reestruturação societária em andamento que ninguém sabia como terminaria.
Então o mercado descobriu algo em junho que não sabia em maio?
Não descobriu. Começou a admitir. Os credores disseram não aos planos de reestruturação. A Justiça tornou a empresa ré por desastre ambiental. As incertezas que sempre existiram ficaram impossíveis de ignorar.
Os acionistas minoritários estão em risco real?
Segundo o UBS, sim. Se a empresa precisar de uma reestruturação mais profunda, acionistas minoritários podem sofrer diluição significativa. É por isso que a recomendação virou neutra.
E agora? Recuperação judicial, acordo extrajudicial, o quê?
Ninguém sabe. A empresa descarta recuperação judicial, mas os credores não estão cooperando com o plano extrajudicial. É um impasse, e a ação vai continuar volátil enquanto isso não se resolver.