Brasileiros investem em casas na Itália e enfrentam ruínas, fraude e dívida

Onze compradores brasileiros foram lesados financeiramente, perdendo dezenas de milhares de euros cada um em imóveis que permaneceram sem reforma.
O que era ouro virou pedra, e agora a conta chega para quem acreditou
Compradores brasileiros enfrentam risco de serem cobrados pelo governo italiano por créditos gerados em seus nomes através de procurações concedidas aos operadores do esquema.

Em vilarejos históricos da Toscana, onze brasileiros descobriram que o sonho de uma casa europeia pode se transformar em armadilha quando a promessa encontra a fraude. Entre 2021 e 2025, uma empresa luso-brasileira teria utilizado procurações de compradores para obter mais de dez milhões de euros em créditos fiscais do governo italiano, deixando imóveis em ruínas e seus proprietários expostos a uma dívida que não contraíram conscientemente. É o paradoxo cruel de quem assina um papel acreditando num futuro e descobre, anos depois, que assinou a própria vulnerabilidade.

  • Onze brasileiros pagaram dezenas de milhares de euros por casas toscanas que, anos depois, continuam exatamente como estavam: em ruínas, com andaimes enferrujados e obras completamente paradas.
  • A Procuradoria de Lucca investiga fraude contra o Estado italiano, fraude contra os compradores e falsidade ideológica, tendo bloqueado quatro dos mais de dez milhões de euros em créditos fiscais obtidos irregularmente.
  • O mecanismo central do esquema eram as procurações: ao assiná-las, os compradores cederam poderes legais que permitiram movimentar créditos fiscais em seus nomes sem seu controle real.
  • Os responsáveis pela Sonho.it recusaram comentários diretos e, por meio de assessoria, atribuíram a paralisação das obras a uma vaga 'crise sistêmica' na construção civil.
  • O risco mais grave ainda está por vir: o governo italiano pode cobrar dos próprios compradores brasileiros pelos créditos gerados em seus nomes, transformando vítimas em devedores do Estado.

Douglas Roque tinha uma proposta sedutora para brasileiros que sonhavam com uma casa na Europa: imóveis históricos em vilarejos toscanos a preços acessíveis, com a reforma bancada pelo próprio governo italiano. A Sonho.it, fundada por ele ao lado do italiano Alberto Da Lio, vendia exatamente esse pacote durante a pandemia, apoiada no Superbonus 110 — programa de incentivos estatais para melhorias energéticas e antissísmicas. Para onze brasileiros que acreditaram, o sonho logo revelou outra face.

O esquema girava em torno de procurações. Ao assiná-las, os compradores cediam a Douglas poderes legais para agir em seus nomes perante a Receita Federal italiana. Com esse instrumento, ele solicitava créditos fiscais nas contas das vítimas e os repassava a terceiros. O detalhe que ninguém parecia calcular: em caso de irregularidade, os nomes vinculados aos créditos seriam os dos próprios compradores.

A Procuradoria de Lucca investigou e encontrou um rastro que vai de 2021 a 2025 — mais de dez milhões de euros em créditos fiscais obtidos de forma suspeita, quatro milhões já bloqueados. Jornalistas que visitaram os imóveis confirmaram o que os compradores já sabiam: casas ainda em ruínas, obras paradas há anos, andaimes enferrujados e placas antigas da Sonho.it nas fachadas. Um dos lesados havia desembolsado dezenas de milhares de euros por um imóvel que permaneceu intocado.

Quando confrontados, Douglas e Alberto alegaram sigilo da investigação. Uma nota posterior atribuiu a paralisação a uma 'crise sistêmica' no setor de construção. Mas o problema central permanece: o governo italiano pode cobrar dos compradores pelos créditos gerados em seus nomes. Eles assinaram as procurações. Seus nomes estão nos registros fiscais. O que foi vendido como a transformação de 'pedras em diamantes' deixou apenas pedras abandonadas — e uma conta que pode chegar justamente para quem acreditou no sonho.

Douglas Roque tinha uma proposta que soava irrecusável para brasileiros sonhando com uma casa na Europa. Compre um imóvel histórico em um vilarejo toscano por uma fração do preço de mercado, dizia ele, e deixe o governo italiano pagar pela reforma. A Sonho.it, empresa que fundou ao lado do italiano Alberto Da Lio, oferecia exatamente isso durante a pandemia: casarões antigos em vilarejos pitorescos, reformados através do Superbonus 110, um programa de incentivos do Estado para melhorias energéticas e proteção antissísmica. Para onze brasileiros que acreditaram, o sonho se transformou em algo bem diferente.

A engrenagem do esquema funcionava através de um mecanismo simples e devastador: procurações. Os compradores assinavam documentos dando a Douglas poderes legais para agir em seus nomes na Itália, inclusive perante a Receita Federal italiana. Com essas procurações em mão, ele solicitava créditos fiscais no "cassetto fiscale", a conta fiscal de cada vítima, e depois repassava esses créditos para terceiros. O que ninguém parecia considerar era o risco final: se algo desse errado, quem teria seu nome vinculado aos créditos seria o próprio comprador.

A Procuradoria de Lucca começou a investigar. O que encontrou foi um rastro de irregularidades que se estende de 2021 a 2025. Mais de dez milhões de euros em créditos fiscais foram obtidos de forma suspeita. Quatro milhões foram bloqueados. A investigação apura fraude contra o Estado italiano, fraude contra os próprios brasileiros e falsidade ideológica. Quando jornalistas visitaram os imóveis na Toscana, encontraram o que os compradores já sabiam: casas ainda em ruínas, obras paradas há anos, andaimes enferrujados, entulho espalhado, placas antigas da Sonho.it penduradas nas fachadas. Um dos compradores havia desembolsado dezenas de milhares de euros por um imóvel que, anos depois, continuava exatamente como estava.

Quando confrontados, Douglas e Alberto se recusaram a comentar diretamente, alegando sigilo da investigação. Depois, através de uma assessoria, as empresas emitiram uma nota genérica: a interrupção das obras teria ocorrido por causa de uma "crise sistêmica" no setor de construção. Disseram estar à disposição das autoridades. Nada disso resolve o problema central que agora paira sobre os compradores brasileiros.

O risco real é este: o governo italiano pode cobrar dos próprios compradores pelos créditos que foram gerados em seus nomes. Eles assinaram as procurações. Seus nomes estão nos registros fiscais. A responsabilidade legal, em tese, recai sobre eles. O que começou como uma oportunidade de transformar "pedras em diamantes", como era vendido, terminou como uma coleção de pedras abandonadas, uma investigação por fraude, e uma conta que pode chegar justamente para quem acreditou no sonho.

As empresas Sonho.it e Mole Aquae Architettura afirmaram que a interrupção das obras ocorreu por causa de uma crise sistêmica no setor
— Assessoria de Douglas Roque e Alberto Da Lio
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que exatamente os compradores assinaram procurações? Não era óbvio que isso era arriscado?

Model

Porque parecia lógico na época. Você está comprando na Itália, não fala a língua, não conhece o sistema fiscal. Alguém de confiança agindo em seu nome parecia prático. Ninguém esperava que essa confiança seria usada para colocar créditos em seus nomes e depois cedê-los adiante.

Inventor

E o governo italiano não verificava nada? Não havia controle?

Model

Havia controle, mas depois. O Superbonus 110 foi um programa generoso, criado para estimular a economia. A fraude explorou exatamente essa generosidade. Quando o dinheiro já tinha sido movimentado, aí sim começaram a investigar.

Inventor

Os compradores têm alguma forma de se defender?

Model

Tecnicamente, eles têm a investigação a seu favor. Se provarem que foram enganados, que não sabiam o que estava acontecendo com seus nomes, há argumentos. Mas a realidade é que seus nomes estão nos papéis. A burocracia italiana não é rápida.

Inventor

E Douglas Roque? Ele simplesmente desaparece?

Model

Ele está na Itália, sob investigação. Não pode sair do país. Mas para os brasileiros que perderam o dinheiro, isso não recupera nada. O dano já foi feito.

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