Brasileiros e americanos defendem Pix contra críticas de Trump em audiência

O Pix é um trilho, uma infraestrutura, não uma empresa que compete
Vinícius Nunes Pinto defende o sistema como infraestrutura pública, comparável a estradas e redes elétricas.

Quando um governo confunde infraestrutura pública com concorrência desleal, revela mais sobre seus próprios sistemas do que sobre os do adversário. Na audiência do USTR em Washington, especialistas brasileiros e americanos defenderam o Pix não como privilégio nacional, mas como trilho coletivo — comparável a estradas e redes elétricas — argumentando que a digitalização financeira promovida pelo Brasil abriu, e não fechou, portas para empresas americanas. O debate, inserido numa investigação comercial mais ampla da administração Trump contra o Brasil, levanta uma questão antiga: onde termina a soberania de um Estado sobre sua própria infraestrutura e começa a responsabilidade comercial perante o mundo?

  • A administração Trump incluiu o Pix numa investigação sob a Seção 301, ameaçando o Brasil com tarifas adicionais de 25% sob a acusação de que o sistema favorece injustamente o mercado local.
  • Nenhum dos depoentes no primeiro dia de audiências — nem brasileiros, nem americanos — endossou a tese de que o Pix prejudica empresas dos Estados Unidos.
  • A organização americana Public Citizen argumentou que o Google é o maior iniciador de transações no Pix, invertendo a narrativa de exclusão e mostrando que empresas dos EUA se beneficiam do sistema.
  • Especialistas propõem que a disputa seja substituída por cooperação: a integração entre o Pix e o FedNow poderia reduzir custos e facilitar o comércio bilateral entre os dois países.
  • O tom geral da audiência sinalizou que tratar infraestrutura pública como barreira comercial pode ser um caminho equivocado — e potencialmente custoso para ambos os lados.

Um cheque de um centavo chegou pelo correio na Flórida. O selo custou 74 centavos. Para Vinícius Nunes Pinto, especialista brasileiro em meios de pagamento, aquele envelope resumia tudo: o custo absurdo de sistemas financeiros antiquados. Foi com essa história que ele abriu seu depoimento numa audiência do USTR, o escritório comercial dos Estados Unidos que investiga se o Banco Central brasileiro favorece o Pix de forma injusta e discriminatória.

A investigação integra um processo mais amplo da administração Trump contra o Brasil, acionado pela Seção 301 da lei comercial americana, que recomendou tarifas adicionais de 25% sobre produtos brasileiros e questionou diversas políticas nacionais — entre elas, o sistema de pagamentos instantâneos. Mas no primeiro dia de audiências, nenhum dos especialistas ouvidos, de nenhum dos dois países, sustentou que o Pix prejudica empresas americanas.

Melinda St. Louis, da organização americana Public Citizen, foi direta: o Pix é infraestrutura pública digital, comparável a uma estrada ou rede elétrica, não uma empresa privada em disputa com concorrentes estrangeiros. Ela lembrou que empresas dos EUA continuam autorizadas a operar no Brasil e citou o Google como o maior iniciador de transações no sistema. A digitalização promovida pelo Pix, argumentou, abriu mercado para empresas americanas de tecnologia, streaming e comércio eletrônico.

Pinto, que participou da implementação do Pix e hoje trabalha no setor de tecnologia nos EUA, reforçou a tese. Para ele, o sistema é um trilho — infraestrutura que se avalia pelo que permite à economia fazer, não por quem cobra o pedágio. Ele foi além e propôs a integração entre o Pix e o FedNow, o sistema de pagamentos instantâneos do Federal Reserve, como caminho para reduzir custos e fortalecer o comércio bilateral.

O economista Gustavo Pessoa também contestou o uso do Pix como fundamento para uma disputa tarifária. Reconheceu que um banco central operando um sistema de pagamentos pode gerar debates sobre governança, mas defendeu que a resposta adequada é o diálogo — não a imposição de tarifas. Ao encerrar, Pinto voltou ao cheque de um centavo: em vez do envelope custoso, o caminho deveria ser a cooperação entre os dois países. Para os especialistas que falaram naquele primeiro dia, o Pix não era um problema a ser punido, mas uma oportunidade a ser expandida.

Um cheque de um centavo chegou na caixa de correio de Vinícius Nunes Pinto, na Flórida. O selo custou 74 centavos. Para um especialista brasileiro em meios de pagamento, aquele envelope era uma parábola perfeita: o custo absurdo de movimentar pequenas quantias através de sistemas antigos. Na segunda-feira, Pinto abriu sua apresentação com essa história durante uma audiência do USTR, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, que acusa o Banco Central brasileiro de favorecer o Pix de forma injusta e discriminatória.

A investigação faz parte de um processo mais amplo contra o Brasil, acionado sob a Seção 301 da Lei de Comércio americana. O governo Trump recomendou uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros e questionou várias políticas brasileiras — desmatamento, etanol, propriedade intelectual, comércio digital e, centralmente, o Pix. Mas durante o primeiro dia de audiências, nenhum dos depoentes, brasileiros ou americanos, endossou a ideia de que o sistema prejudica empresas dos Estados Unidos.

Melinda St. Louis, da Public Citizen, uma organização americana de defesa do consumidor, foi clara: o Pix é infraestrutura pública digital, comparável a uma estrada, uma rede elétrica ou a moeda emitida pelo Estado. Não é uma empresa privada competindo com companhias americanas. Ela apontou que empresas dos EUA continuam autorizadas a oferecer serviços de pagamento no Brasil e citou o Google como o maior iniciador de transações no sistema. A digitalização promovida pelo Pix, argumentou, abriu mercado para empresas americanas de streaming, comércio eletrônico, transporte e tecnologia.

Pinto, que participou da implementação do Pix e agora trabalha no setor de tecnologia nos Estados Unidos, reforçou essa tese. "O Pix é um trilho, uma infraestrutura. Nós não julgamos uma estrada por quem cobra o pedágio, mas pelo que ela permite que uma economia faça", disse. Para ele, a ideia original era aumentar a inclusão financeira e promover a concorrência — objetivos que foram alcançados. Ele foi além, sugerindo que os dois países poderiam cooperar na integração entre o Pix e o FedNow, o sistema de pagamentos instantâneos do Federal Reserve americano. Essa interoperabilidade reduziria custos e facilitaria transações comerciais entre empresas dos dois países.

O economista Gustavo Pessoa também contestou o uso do Pix como fundamento para uma disputa comercial. Sim, um Banco Central operando um sistema de pagamentos pode suscitar debates sobre governança, reconheceu. Mas isso não justifica a adoção de tarifas. Pessoa propôs que Brasil e Estados Unidos estabeleçam critérios comuns para avaliar sistemas públicos de pagamento e aprofundem o diálogo sobre infraestrutura financeira em vez de recorrer a medidas comerciais.

Ao encerrar seu depoimento, Pinto voltou ao cheque de um centavo. Em vez daquele envelope custoso enviado pelo correio, o caminho deveria ser outro: uma cooperação entre os dois países para conectar sistemas de pagamento instantâneo. A audiência continuaria nos dias seguintes, mas a mensagem estava clara — para os especialistas que falaram naquele primeiro dia, o Pix não era um problema a ser punido, mas uma oportunidade a ser expandida.

O Pix é um trilho, uma infraestrutura. Nós não julgamos uma estrada por quem cobra o pedágio, mas pelo que ela permite que uma economia faça
— Vinícius Nunes Pinto, especialista em meios de pagamento
A ideia por trás do Pix foi aumentar a inclusão financeira e promover a concorrência
— Melinda St. Louis, Public Citizen
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que o governo Trump vê o Pix como um problema comercial?

Model

Porque o Banco Central brasileiro opera o sistema e oferece transações instantâneas sem custos, o que pode parecer uma vantagem injusta. Mas o argumento dos depoentes é que isso não é competição — é infraestrutura pública, como uma estrada.

Inventor

E as empresas americanas realmente se beneficiam do Pix?

Model

Sim. O Google é o maior iniciador de transações no sistema. Quando o Pix digitalizou o mercado brasileiro, abriu espaço para empresas americanas de streaming, comércio eletrônico e tecnologia operarem lá.

Inventor

Então por que Trump insiste que o Pix prejudica os EUA?

Model

Pode ser uma questão de percepção — se o Banco Central controla o sistema, parece que o Brasil tem vantagem. Mas os especialistas argumentam que isso é como culpar uma estrada porque ela não é privada.

Inventor

O que Pinto propôs como solução?

Model

Integrar o Pix com o FedNow, o sistema americano de pagamentos instantâneos. Isso criaria um trilho comum entre os dois países, reduzindo custos para ambos.

Inventor

Isso resolveria a disputa comercial?

Model

Teoricamente, sim. Se os dois sistemas funcionassem juntos, não haveria mais razão para reclamar que um prejudica o outro. Seria cooperação, não competição.

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