Não existe lugar seguro na Faixa de Gaza
Há doze dias, Hasan Rabee — palestino com cidadania brasileira que havia retornado a Gaza pela primeira vez em nove anos — aguarda com a esposa e duas filhas pequenas uma passagem que não se concretiza. Encurralado em Khan Yunis enquanto bombardeios rasgam o ar ao redor, ele documenta em vídeo o que palavras mal conseguem conter: o colapso de um território inteiro e a espera silenciosa de quem já fugiu uma vez e sabe o que significa não poder fugir.
- Rabee grava explosões a metros de distância e declara, com voz tensa, que não existe lugar seguro em toda a Faixa de Gaza.
- Duas filhas de 3 e 6 anos passam mais de doze dias confinadas, chorando e pedindo para sair, enquanto bombas interrompem qualquer tentativa de normalidade.
- Doze pessoas adicionais dividem o mesmo espaço com a família, todos sem água, gás, eletricidade ou comida suficiente.
- Um acordo para cruzar a fronteira com o Egito foi prometido há 12 dias, mas segue sem data nem confirmação — e a ajuda humanitária anunciada por Israel ainda não chegou.
- Rabee já havia fugido de Gaza em 2014, construiu vida em São Paulo e voltou apenas para visitar parentes; agora se vê preso pela segunda vez no mesmo ciclo de violência.
Hasan Rabee tinha 30 anos, cidadania brasileira e um motivo simples para estar em Gaza: visitar a família pela primeira vez em nove anos. Quando o Hamas atacou Israel em 7 de outubro, as fronteiras fecharam e ele ficou preso em Khan Yunis com a esposa e duas filhas — uma de três anos, outra de seis. Desde então, grava vídeos das explosões que sacudem o ar ao redor da casa onde se abriga, relatando com voz contida o que seus olhos veem: fumaça densa, bombardeios noturnos, um território em colapso.
A família se move entre casas de parentes tentando escapar das bombas, mas não há para onde ir de verdade. Água, gás, eletricidade e comida escasseiam para mais de dois milhões de pessoas. Os mercados estão tomados por gente desesperada. Israel anunciou ajuda humanitária, mas nada chegou. Na casa da mãe de Rabee, outras doze pessoas que fugiram do norte dividem o mesmo teto. As crianças passam os dias fechadas, chorando, pedindo para passear. Ele tenta distraí-las com desenhos e aviões de papel, mas as bombas interrompem tudo.
Um acordo para cruzar a fronteira com o Egito existe em teoria há doze dias — e só em teoria. Rabee diz nos vídeos que não há notícia de saída nem para hoje nem para amanhã. Não é a primeira vez que ele vive isso: em 2014, durante a operação Margem Protetora, também fugiu de Gaza. Depois veio para o Brasil, recebeu status de refugiado e construiu uma vida em São Paulo vendendo acessórios para celulares. Voltou ao território que deixou para trás achando que seria uma visita. Agora espera, de novo, por uma saída que pode não chegar.
Hasan Rabee pegou o telefone e gravou o que ouvia: explosões quebrando o ar a metros da casa onde sua família se escondia. As imagens mostram colunas densas de fumaça subindo sobre Khan Yunis, na Faixa de Gaza, e ele fala para a câmera com a voz tensa. "Bombardeio agora ao lado da casa. Não existe lugar seguro na Faixa de Gaza." Rabee tem 30 anos, cidadania brasileira, e estava visitando parentes quando o Hamas atacou Israel em 7 de outubro. Agora está preso.
Ele viajou para Gaza com a esposa e duas filhas — uma de três anos, outra de seis. Todos brasileiros. Quando os ataques começaram, as fronteiras fecharam. Israel bloqueou completamente o território, e Rabee se viu encurralado no sul, esperando há 12 dias por um acordo que o deixe cruzar para o Egito. Nenhuma notícia chega sobre quando isso vai acontecer. "Infelizmente não tem nenhuma notícia de que vamos sair. Nem hoje e nem amanhã," ele diz em um dos vídeos.
A situação em Gaza é de colapso. Mais de dois milhões de pessoas vivem no território, e agora nenhuma delas tem água, gás ou eletricidade. Os mercados e padarias estão abarrotados de gente desesperada procurando comida. Israel anunciou ajuda humanitária na quarta-feira, mas nada chegou ainda. À noite, os bombardeios continuam em Khan Yunis e em Rafah. Muitos morrem. Muitos ficam feridos.
A família de Rabee se move de casa em casa, sempre tentando sair do caminho das explosões. Sua mãe vive em uma delas, e agora 12 pessoas adicionais — outras famílias que fugiram do norte — dividem o mesmo espaço. As crianças de Rabee passam os dias fechadas dentro de casa. Ele tenta distraí-las com desenhos ou aviões de papel, mas as bombas interrompem tudo. "As crianças choram o dia inteiro. São mais de 12 dias em casa, estão fechadas. Não podem nem entrar. Elas ficam chorando, dizem que querem passear," ele relata. "As coisas estão bem complicadas mesmo."
Não é a primeira vez que Rabee vive isso. Nascido em Gaza, ele já havia fugido em 2014, quando Israel lançou a operação Margem Protetora. Naqueles 50 dias, 2.270 palestinos e 82 israelenses morreram. Rabee saiu da região, veio para o Brasil, recebeu status de refugiado e arrumou trabalho em São Paulo vendendo acessórios para celulares. Construiu uma vida. No fim de setembro, voltou a Gaza pela primeira vez em nove anos para visitar a família. Agora está preso de novo, esperando por uma saída que pode nunca chegar.
Citas Notables
Bombardeio agora ao lado da casa. Não existe lugar seguro na Faixa de Gaza.— Hasan Rabee, em vídeo gravado durante bombardeios
As crianças choram o dia inteiro. São mais de 12 dias em casa, estão fechadas. Não podem nem entrar.— Hasan Rabee, descrevendo a situação das filhas
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que Rabee voltou a Gaza se já tinha fugido uma vez?
Ele queria visitar a mãe e outros parentes. Tinha uma vida estável em São Paulo, mas Gaza é a origem dele. Às vezes a gente volta para casa sem imaginar que a casa pode desabar.
Ele conseguiu avisar alguém no Brasil sobre a situação?
Sim, está gravando vídeos e mandando. Mas vídeos não tiram ninguém de lá. Ele está esperando um acordo diplomático que formalize a saída pela fronteira egípcia. Doze dias esperando.
E a esposa e as filhas — elas entendem o que está acontecendo?
As filhas choram. Têm três e seis anos. Não entendem por que não podem sair de casa, por que ouvem explosões, por que não há comida ou água. Rabee tenta distrair com desenhos, mas as bombas não param.
Qual é o maior medo dele agora?
Que não haja saída. Que o acordo nunca se formalize. Que a ajuda humanitária não chegue. Que Gaza continue colapsando enquanto ele está lá com a família.
Ele tem alguma esperança?
Ele está gravando, falando, pedindo ajuda. Enquanto fala, existe esperança. Mas você ouve a tensão na voz dele. Ele sabe que esperança não é o mesmo que segurança.