Brasileiro em Gaza: "Não existe lugar seguro", diz homem cercado por bombardeios

Família brasileira (esposa e duas filhas de 3 e 6 anos) está encurralada em zona de guerra; crianças em trauma psicológico; população em colapso humanitário com relatos de mortos e feridos.
Não existe lugar seguro na Faixa de Gaza
Rabee grava explosões a metros de sua casa enquanto aguarda saída com família brasileira.

Em Khan Yunis, no sul de Gaza, um homem com passaporte brasileiro filma explosões a metros de distância enquanto aguarda, com esposa e duas filhas pequenas, uma saída que ainda não tem data. Hasan Rabee, que já havia fugido de Gaza em 2014 e reconstruído sua vida no Brasil, retornou para visitar parentes e foi surpreendido pela guerra — repetindo, uma geração depois, o mesmo ciclo de confinamento e medo. Sua história condensa, em escala íntima, o que acontece quando a história coletiva de um povo em conflito se impõe sobre as escolhas mais simples de um indivíduo.

  • Rabee grava vídeos com a câmera tremendo enquanto colunas de fumaça sobem a metros da casa onde se abriga — não há lugar seguro em nenhuma direção.
  • Doze outras pessoas deslocadas do norte dividem o mesmo teto, e a cidade está sem água, gás ou eletricidade, com mercados tomados por uma população desesperada.
  • As duas filhas brasileiras, de três e seis anos, choram o dia inteiro presas dentro de casa há mais de 12 dias, enquanto o pai tenta distraí-las com desenhos e aviões de papel entre as detonações.
  • Um acordo para cruzar a fronteira com o Egito está sendo aguardado há 12 dias, mas nenhuma data foi confirmada e a ajuda humanitária anunciada ainda não chegou.
  • A família se desloca entre casas de parentes tentando escapar dos bombardeios noturnos, numa rotina de fuga que Rabee já conheceu em 2014 — e que agora se repete com seus próprios filhos.

Hasan Rabee tem 30 anos, passaporte brasileiro e está filmando explosões a metros de distância da casa onde se abriga em Khan Yunis. Nos vídeos que gravou, a câmera treme com as detonações. "Não existe lugar seguro na Faixa de Gaza", ele diz, a voz calma enquanto o cenário ao fundo é caótico.

Ele havia viajado a Gaza no início de outubro para visitar parentes — a primeira vez que voltava desde 2014. Sua esposa e suas duas filhas, de três e seis anos, todas com cidadania brasileira, foram junto. Quando o Hamas atacou Israel em 7 de outubro e a guerra começou, a família ficou presa. Há 12 dias Rabee aguarda a formalização de um acordo para cruzar para o Egito. Nenhuma data foi confirmada.

Khan Yunis está sem água, sem gás, sem eletricidade. Os mercados estão abarrotados de pessoas em busca de comida. À noite, os ataques se intensificam em Khan Yunis e em Rafah, com mortos e feridos. A ajuda humanitária anunciada por Israel ainda não chegou. O território, com mais de 2 milhões de habitantes, permanece bloqueado desde o ataque do Hamas.

A família se move de casa em casa para escapar dos bombardeios. Na casa da mãe de Rabee, outras 12 pessoas deslocadas do norte dividem o mesmo espaço. Ele tenta manter as crianças ocupadas com desenhos e aviões de papel, mas as explosões interrompem tudo. "As crianças choram o dia inteiro. Estão fechadas há mais de 12 dias. Dizem que querem passear", relata.

Não é a primeira vez. Nascido em Gaza, Rabee já havia fugido em 2014, durante a operação Margem Protetora. Depois disso, foi para o Brasil, recebeu status de refugiado e trabalhou como vendedor em São Paulo. No final de setembro, voltou a Gaza pela primeira vez — e se viu, mais uma vez, preso no mesmo ciclo que pensava ter deixado para trás.

Hasan Rabee, um homem de 30 anos com passaporte brasileiro, está filmando explosões a metros de distância da casa onde se abriga em Khan Yunis, no sul da Faixa de Gaza. Nos vídeos que gravou, colunas densas de fumaça preta sobem do horizonte. As detonações ecoam próximas o suficiente para fazer a câmera tremer. "Bombardeio agora ao lado da casa. Não existe lugar seguro na Faixa de Gaza", ele diz em uma das gravações, a voz calma mas o cenário ao fundo caótico.

Rabee viajou a Gaza para visitar parentes no início de outubro, antes dos ataques do Hamas contra Israel em 7 de outubro. Quando a guerra começou, ele ficou preso. Sua esposa e suas duas filhas — uma de três anos, outra de seis — o acompanharam na viagem. Todas têm nacionalidade brasileira. Há 12 dias ele aguarda a formalização de um acordo que lhe permita cruzar a fronteira com o Egito e sair da zona de guerra. Nenhuma data foi confirmada.

A situação em Khan Yunis é de deterioração rápida. A cidade está sem água, sem gás, sem eletricidade. Os mercados e as padarias estão abarrotados de pessoas desesperadas por comida. Rabee relata que à noite houve ataques intensos tanto em Khan Yunis quanto em Rafah, com muitos mortos e feridos. A entrada de ajuda humanitária anunciada por Israel no dia 18 ainda não se materializou. O território palestino, onde vivem mais de 2 milhões de pessoas, permanece totalmente bloqueado pelas forças israelenses desde o ataque do Hamas. Israel ordenou que toda a população do norte — metade dos habitantes — se deslocasse para o sul.

A família de Rabee tem se movido de casa em casa, sempre tentando se afastar dos bombardeios diários. Atualmente, 12 outras pessoas que fugiram do norte dividem a casa da mãe dele. Ele tenta manter as crianças ocupadas com desenhos e aviões de papel, mas as explosões interrompem essas tentativas de normalidade. "As crianças choram o dia inteiro. São mais de 12 dias em casa, estão fechadas. Não podem nem entrar. Elas ficam chorando, dizem que querem passear", relata Rabee. A situação, segundo ele, está bem complicada mesmo.

Não é a primeira vez que Rabee vive sob bombardeios. Nascido em Gaza, ele já havia fugido da região em 2014, durante a operação Margem Protetora, quando forças israelenses lançaram uma campanha de 50 dias contra foguetes e túneis. Naquele conflito, 2.270 palestinos e 82 israelenses morreram. Rabee então se mudou para o Brasil, recebeu status de refugiado e trabalhou como vendedor de acessórios para celulares em São Paulo. No final de setembro passado, voltou a Gaza pela primeira vez desde então — uma decisão que o deixou novamente preso em um território em colapso.

Bombardeio agora ao lado da casa. Não existe lugar seguro na Faixa de Gaza
— Hasan Rabee, em vídeo gravado em Khan Yunis
As crianças choram o dia inteiro. São mais de 12 dias em casa, estão fechadas. Não podem nem entrar. Elas ficam chorando, dizem que querem passear
— Hasan Rabee, descrevendo a situação das filhas
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que ele voltou a Gaza se já tinha fugido uma vez?

Model

Ele queria visitar parentes. Nove anos se passaram desde 2014. As pessoas têm saudade, querem ver a família. Ninguém esperava que isso aconteceria de novo.

Inventor

E sua esposa e filhas — elas sabiam dos riscos?

Model

Ele as levou consigo. Eram brasileiras, viviam em São Paulo. Provavelmente pareceu uma viagem segura, uma visita familiar. Ninguém prevê quando uma guerra vai começar.

Inventor

Como ele consegue manter a calma para filmar?

Model

Talvez seja uma forma de processar o que está acontecendo. Documentar. Deixar registro. Quando você está preso, às vezes a câmera é a única coisa que você pode controlar.

Inventor

As crianças — o que significa estar fechada por 12 dias para uma criança de três anos?

Model

Significa que ela não entende por quê. Significa choro constante. Significa pedir para passear e não poder sair. Significa trauma que vai durar muito tempo depois que isso terminar.

Inventor

Ele tem esperança de sair?

Model

Ele diz que não tem notícia de quando vai sair. Nem hoje, nem amanhã. Mas continua esperando que o acordo seja formalizado. É tudo o que ele tem.

Fale Conosco FAQ