O mercado comprou no boato e vendeu no fato
Futuros de soja em Chicago registraram ganhos expressivos na semana, com julho subindo 5,75% para US$ 11,96 por bushel. Brasil já comercializou 71% da safra 2025/26, com 52 milhões de toneladas ainda nas mãos dos produtores, enquanto nova safra tem apenas 23% negociada.
- Brasil vendeu 4 milhões de toneladas de soja nesta semana
- Contrato de julho em Chicago subiu 5,75% para US$ 11,96 por bushel
- 71% da safra 2025/26 já foi comercializada, com 52 milhões de toneladas nas mãos dos produtores
- Safra nova tem apenas 23% negociada, abaixo dos 26,5% do ano anterior
Brasil vendeu 4 milhões de toneladas de soja nesta semana com preços próximos aos melhores do ano, impulsionados por clima preocupante no Corn Belt e compras chinesas, apesar de realização de lucros em Chicago.
A soja brasileira fechou a semana em patamares que poucos esperavam ver tão cedo no ano. Quarta-feira trouxe um recuo — o mercado de Chicago perdeu força à tarde, os preços testaram baixas modestas — mas o movimento não apagou o que havia acontecido nos dias anteriores. Desde quinta-feira passada, os contratos futuros acumulavam ganhos expressivos. O contrato de julho subiu 5,75%, fechando em US$ 11,96 por bushel. Agosto avançou 4,93% para US$ 11,92, e novembro ganhou 3,84%, chegando a US$ 11,91. Durante o pregão, os preços tocaram US$ 12,00 por bushel — um nível que refletia a combinação de fatores que sustentava o otimismo: preocupações climáticas no Corn Belt americano, compras mais intensas da China nos Estados Unidos, e uma escalada de tensões entre Irã e Washington que empurrou o petróleo para cima de 5% no mercado de Londres, arrastando consigo os óleos vegetais.
Esse movimento em Chicago abriu espaço para que os preços domésticos também respirassem. Nos portos brasileiros, as cotações subiram em relação à semana anterior, embora o avanço tenha ficado contido pela fraqueza do dólar e pela queda natural dos prêmios — movimento esperado quando Chicago sobe. Em Paranaguá, as referências oscilaram entre R$ 143,00 por saca para agosto (com pagamento em 31 de agosto) e R$ 149,00 para novembro, considerando soja disponível. Para 2027, os preços giravam em torno de R$ 138,00 a R$ 139,00 por saca.
O ritmo de comercialização, porém, é o que mais chama atenção. Segundo levantamento do consultor Vlamir Brandalizze, da Brandalizze Consulting, o Brasil negociou aproximadamente quatro milhões de toneladas de soja apenas nesta semana, até quarta-feira. No acumulado, o país já comercializou cerca de 71% da safra 2025/26 — um patamar ligeiramente abaixo dos 71,5% registrados no mesmo período do ano anterior e dos 72% da média histórica. Isso significa que ainda restam cerca de 52 milhões de toneladas nas mãos dos produtores, contra pouco mais de 48 milhões no ano passado. A safra nova, porém, segue atrasada: apenas 23% foi negociada até agora, enquanto no mesmo período do ano anterior o Brasil já havia comercializado 26,5%, e a média histórica fica em 27%.
O que explica essa aceleração recente é uma corrida mais intensa por novos negócios, particularmente através de estratégias de barter — operações em que o produtor troca soja por insumos para a próxima safra. O consultor Brandalizze aponta uma razão clara: o novo pico do petróleo está deixando os agricultores nervosos. Temem que a alta do barril puxe consigo os preços de defensivos e fertilizantes, tornando a aquisição desses insumos mais cara. Essa preocupação está acelerando as negociações. "Devemos ter mais negócios nos próximos dias", afirmou o consultor.
O que diferencia este momento é a mudança de postura do produtor. Meses atrás, havia uma certa esperança de que os preços pudessem subir ainda mais. Agora, com as cotações próximas aos melhores patamares do ano — tanto nos portos quanto nos balcões de negociação — o produtor está sendo mais realista. Está negociando o presente e o futuro simultaneamente, aproveitando a janela de preços favoráveis. Segundo Brandalizze, essa tendência deve continuar enquanto Chicago mantiver os ganhos.
Em Chicago, a quarta-feira trouxe realização de lucros após as altas dos dias anteriores. O analista Victor Martins, da Amius, resumiu bem o movimento: "O mercado comprou no boato e vendeu no fato". Os grãos recuaram — milho e trigo também caíram na CBOT — e o farelo de soja cedeu mais de 1%, arrastando a oleaginosa para baixo. Mas o óleo de soja resistiu melhor, fechando com ganhos superiores a 3%, sustentado pelas tensões geopolíticas que mantêm o petróleo elevado.
O quadro que emerge é o de um mercado em transição. Os preços estão bons, talvez os melhores do ano. Os produtores estão vendendo, mas com cautela, tentando se proteger contra a possibilidade de que insumos fiquem mais caros. Chicago segue volátil, oscilando entre esperança e realização de lucros. E o Brasil, que já comercializou a maior parte da safra atual, agora enfrenta o desafio de acelerar as vendas da safra nova antes que as condições mudem.
Citas Notables
Há, mais ou menos, 52 milhões de toneladas de soja ainda na mão do produtor, contra pouco mais de 48 milhões do mesmo período do ano passado— Vlamir Brandalizze, Brandalizze Consulting
O mercado comprou no boato e vendeu no fato— Victor Martins, analista de soja e gestor de risco da Amius
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que o produtor está tão apressado em vender agora, se os preços estão bons?
Porque ele está com medo. O petróleo subiu, e quando o petróleo sobe, os defensivos e fertilizantes sobem junto. Ele quer trancar a soja enquanto o preço está alto e depois trocar por insumos antes que fiquem mais caros.
Mas isso é especulação, não é?
Não, é proteção. O produtor não está apostando que os preços vão cair. Ele está tentando garantir que consegue comprar o que precisa para plantar no ano que vem sem pagar mais caro.
E por que Chicago caiu hoje se as notícias eram boas?
Porque o mercado já tinha subido muito. Quando você sobe 5% em uma semana, alguém em algum lugar decidiu que era hora de pegar o lucro e sair. É normal.
A safra nova está atrasada. Isso é preocupante?
Depende. Se os preços continuarem bons, o produtor vai vender mais. Se caírem, ele vai ficar com soja na mão. Por enquanto, ele está aproveitando a janela.
E se o petróleo cair?
Aí os insumos ficam mais baratos, e o produtor que vendeu caro consegue comprar barato. Ele ganha dos dois lados. É por isso que está negociando agora.