As mulheres sabem que as barreiras internas são tão grandes que dificilmente vale a pena
Em toda a América do Sul, o Brasil carrega a maior desigualdade de gênero em sua Câmara dos Deputados — apenas 17,5% de mulheres, enquanto vizinhos como Bolívia, Equador e Argentina ultrapassam os 40% por meio de mecanismos constitucionais e eleitorais que não deixam margem para negligência. A ciência política há muito demonstra que a presença feminina acima de um terço do poder decisório melhora indicadores sociais e corrói redes de corrupção. O Brasil avançou desde os 5,7% de 1998, mas o avanço é lento e ameaçado por partidos que descumprem cotas e buscam anistias para suas irregularidades. O que está em jogo não é apenas representação simbólica, mas a qualidade das políticas públicas que afetam toda a população.
- Com apenas 17,5% de mulheres, a Câmara brasileira é a mais desigual da América do Sul — menos da metade do índice alcançado por Bolívia, Equador e Argentina.
- Partidos políticos descumprem sistematicamente as cotas de gênero aprovadas em lei, contando com anistias e reduções de punição para escapar das consequências.
- A PEC da Anistia, se aprovada, perdoaria partidos que violaram cotas de gênero e raça, apagando décadas de esforço legislativo para equilibrar a representação.
- Pesquisas indicam que mulheres no poder melhoram saúde, educação e combatem a corrupção — mas o Brasil nunca chegou sequer a 20% de representação feminina na Câmara.
- O Parlamento também envelhece: com média de 51 anos, os deputados federais refletem a preferência dos partidos por 'políticos profissionais' com histórico eleitoral comprovado, deixando jovens e estreantes à margem.
A Câmara dos Deputados brasileira ocupa o último lugar em representação de gênero entre os parlamentos sul-americanos. Apenas 17,5% das cadeiras pertencem a mulheres — número que palidece diante dos 46% da Bolívia, 43% do Equador e 42% da Argentina. A diferença não é acidental: esses países adotaram mecanismos estruturais reais. A Bolívia inscreveu a paridade na Constituição; Equador e Argentina usam listas com alternância obrigatória de gênero, sem espaço para interpretação ou descumprimento.
A professora Graziella Testa, da FGV, explica que o impacto real da presença feminina só se manifesta quando as mulheres representam ao menos um terço de um grupo — e quando existe uma cultura mínima de igualdade. O Brasil nunca chegou a 20%. Quando mulheres ocupam posições de decisão, indicadores sociais em saúde e educação melhoram, e há evidências de redução da corrupção, pois a entrada de novos perfis quebra as redes estabelecidas que frequentemente sustentam esses sistemas.
O progresso existe, mas é frágil. De 5,7% em 1998, a representação feminina chegou ao recorde de 17,7% em 2022. O Congresso aprovou cotas mínimas de 30% para candidaturas e reservou recursos partidários para esse fim — mas muitos partidos simplesmente ignoram as regras, apostando em anistias. A PEC da Anistia seria o maior perdão da história para irregularidades eleitorais, incluindo o descumprimento das cotas de gênero e raça. Para Testa, esse ciclo de desrespeito torna quase impossível normalizar a presença feminina nos espaços de poder. As mulheres não carecem de interesse político; carecem de partidos que removam as barreiras internas que tornam a candidatura inviável.
O Parlamento também envelhece. A idade média dos deputados federais está em 51 anos — a segunda mais alta da região. O professor Adriano Codato, da UFPR, atribui isso à lógica dos partidos, que preferem investir em 'políticos profissionais' com histórico eleitoral comprovado. Jovens com até 30 anos ocupam apenas 4% das cadeiras. Isso não significa que estejam fora da política, mas que o caminho até uma candidatura exige anos de crivo interno — um processo que favorece quem já está dentro do sistema.
A Câmara dos Deputados brasileira é a mais desigual em representação de gênero em toda a América do Sul. Apenas 17,5% das cadeiras são ocupadas por mulheres — uma proporção que não chega nem perto da metade daquela vista em países vizinhos que enfrentam o mesmo desafio com mais sucesso. Na Bolívia, 46% dos deputados são mulheres. No Equador, 43%. Na Argentina, 42%. O Brasil fica para trás, e a diferença não é pequena.
Esses três países conseguiram o que o Brasil ainda não fez porque adotaram medidas estruturais de verdade. A Bolívia inscreveu na Constituição a exigência de participação igualitária entre homens e mulheres nas eleições legislativas. Equador e Argentina usam um sistema de listas onde os nomes dos candidatos são alternados por gênero, garantindo que a sequência seja respeitada. São mecanismos que funcionam porque não deixam espaço para interpretação ou negligência.
A pesquisa em ciência política é clara sobre por que isso importa. Graziella Testa, professora da Fundação Getulio Vargas e doutora pela USP, explica que para que a participação feminina tenha impacto real em um grupo, é preciso que as mulheres representem pelo menos um terço dos membros — e que exista uma cultura mínima de igualdade. O Brasil nunca chegou nem a 20% de mulheres na Câmara. Quando as mulheres ocupam posições de poder de decisão, os indicadores sociais melhoram, especialmente em saúde e educação. Há também evidência de redução da corrupção. Isso acontece porque inserir pessoas diferentes quebra as redes muito estabelecidas que frequentemente sustentam sistemas de corrupção.
O progresso brasileiro existe, mas é lento. Em 1998, apenas 5,7% dos deputados federais eleitos eram mulheres. Em 2022, esse número subiu para 17,7% — um recorde histórico, mas ainda insuficiente. O Congresso aprovou medidas para estimular candidaturas femininas: um mínimo de 30% e máximo de 70% de candidatos de cada sexo, além de reserva de recursos partidários e tempo de propaganda eleitoral. O problema é que muitos partidos simplesmente não respeitam essas cotas. Eles contam com a possibilidade de anistias ou redução de punições previstas em lei.
A PEC da Anistia é o exemplo mais claro disso. Essa proposta de emenda à Constituição ofereceria a maior anistia da história para irregularidades eleitorais cometidas por partidos políticos. Se aprovada, os partidos que não respeitaram as cotas de gênero e raça seriam perdoados. Para Testa, esse desrespeito torna quase impossível criar um contexto onde seja normal mulheres ocuparem espaços de decisão. Os partidos argumentam que as mulheres não têm interesse em política, mas a realidade é diferente: as mulheres sabem que as barreiras internas dos partidos são tão altas que dificilmente compensa tentar uma candidatura.
O Brasil também envelhece no Parlamento. A idade média dos deputados federais oscila entre 49 e 51 anos desde 1998. Atualmente, está em 51 anos — a segunda mais alta da América do Sul, atrás apenas da Argentina com 52 anos. Bolívia e Colômbia têm as menores médias etárias: 44 anos. Adriano Codato, professor de ciência política na UFPR, explica que isso reflete a demanda dos partidos por "políticos profissionais" — nomes com histórico de desempenho eleitoral comprovado que garantem vagas para a sigla. Quanto mais longa a carreira política, mais velha é a pessoa. Os partidos investem mais recursos nesses políticos estabelecidos porque os consideram investimentos mais seguros.
Jovens com até 30 anos representam apenas 4% da Câmara dos Deputados. Historicamente, esse número nunca foi alto: em 1998 era 2%, e no máximo chegou a 5% entre 2014 e 2018. Mas a ausência de jovens nas cadeiras não significa que eles estejam fora da política. Testa aponta que a carreira política começa muito antes da primeira eleição. Os candidatos precisam passar por um crivo interno do partido e do grupo social em que estão inseridos antes de poder ocupar um cargo eletivo pela primeira vez. É um processo que leva tempo e que favorece quem já está dentro do sistema.
Citações Notáveis
Quando se inserem pessoas diferentes na política, acontece a quebra de um sistema de redes muito estabelecidas e, frequentemente, essas redes são a principal base para sistemas de corrupção— Graziella Testa, professora da FGV
No Brasil, há o efeito da profissionalização política. Quanto maior a carreira, mais profissional e mais velha é a pessoa— Adriano Codato, professor de ciência política na UFPR
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que o Brasil fica tão atrás de vizinhos como Bolívia e Equador em representação feminina?
Porque esses países fizeram o que o Brasil não fez: colocaram na lei mecanismos que funcionam sem deixar brechas. A Bolívia inscreveu na Constituição. Equador e Argentina usam listas alternadas. Aqui, a gente aprova cotas, mas os partidos as desrespeitam sabendo que podem ser anistiados depois.
E qual é o impacto real dessa desigualdade?
Não é só uma questão de justiça. Quando mulheres ocupam posições de decisão, indicadores sociais melhoram — saúde, educação. E há redução de corrupção porque elas quebram as redes muito estabelecidas que sustentam esses sistemas.
Os partidos dizem que as mulheres não têm interesse em política.
Isso é falso. O que acontece é que as mulheres veem as barreiras internas dos partidos e sabem que dificilmente vale a pena. É um problema de incentivos, não de interesse.
E quanto aos jovens? Por que a Câmara envelheceu tanto?
Os partidos preferem investir em "políticos profissionais" — gente com carreira comprovada que garante votos. É mais seguro para eles. Quanto mais longa a carreira, mais velha é a pessoa.
Mas jovens não estão completamente fora da política?
Não. Eles estão em outras posições, construindo carreira dentro dos partidos. Mas o caminho até uma cadeira na Câmara é longo e controlado por quem já está dentro.