A capacidade de acompanhar a doença havia se tornado uma questão de disputa
No dia 23 de fevereiro de 2021, o Brasil se deparou com o segundo maior número diário de mortes por covid-19 desde o início do ano — 1.386 vidas perdidas em apenas 24 horas, enquanto o total acumulado ultrapassava 248 mil. Ao mesmo tempo, novas variantes do vírus avançavam pelo território nacional, e a própria capacidade de medir essa tragédia tornava-se objeto de disputa política, com veículos de imprensa obrigados a contornar restrições federais para garantir que os dados chegassem ao público.
- Com 1.386 mortes em um único dia, o Brasil se aproximava perigosamente do pico de 1.524 óbitos registrado em 7 de janeiro, sinalizando que a pandemia longe de arrefecer, ganhava novo fôlego.
- A variante P.1, surgida em Manaus, já havia se espalhado por pelo menos seis estados, enquanto a B.1.1.7 britânica avançava sobretudo em São Paulo — duas frentes simultâneas de um vírus em mutação.
- O governo federal restringiu o acesso público aos dados da pandemia, criando um vácuo de informação no exato momento em que a transparência seria mais necessária.
- Grandes veículos de comunicação formaram um consórcio inédito para coletar dados diretamente das secretarias estaduais, transformando o jornalismo em linha de defesa contra a opacidade oficial.
- Com mais de 10 milhões de casos confirmados e quase 800 mil pessoas ainda em acompanhamento ativo, o país navegava entre a escalada da doença e a erosão das ferramentas para combatê-la.
Na terça-feira, 23 de fevereiro de 2021, o Ministério da Saúde divulgou que o Brasil havia registrado 1.386 mortes por covid-19 em apenas um dia — a segunda maior marca diária do ano, igualando o total de óbitos contabilizado em 28 de janeiro e ficando atrás apenas do pico de 1.524 mortes ocorrido em 7 de janeiro. O total acumulado desde o início da pandemia chegava a 248.529 vidas perdidas, enquanto o país ultrapassava a marca de 10 milhões de casos confirmados.
Além do peso dos números absolutos, havia uma ameaça adicional em curso: a disseminação de variantes mais transmissíveis. A variante P.1, identificada inicialmente em Manaus e detectada em viajantes no Japão, respondia por 184 dos 204 casos de novas cepas registrados até aquele momento, com focos no Amazonas, São Paulo, Goiás, Paraíba, Pará e Bahia. A variante B.1.1.7, de origem britânica, havia sido confirmada em 20 casos, concentrados principalmente na capital paulista.
Por trás dos dados, uma tensão política aprofundava a crise. O governo federal havia restringido o acesso público às informações sobre a pandemia, levando UOL, Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, G1 e Extra a formar um consórcio para coletar dados diretamente das secretarias estaduais de saúde. Enquanto o Brasil enfrentava um de seus dias mais sombrios, a batalha pela transparência havia se tornado, ela mesma, parte inseparável do combate à doença.
Na terça-feira, 23 de fevereiro, o Ministério da Saúde divulgou números que marcaram um novo ponto de inflexão na trajetória da pandemia no Brasil. Em apenas 24 horas, o país havia registrado 1.386 mortes por covid-19. Era a segunda maior contagem diária do ano — um recorde que refletia não apenas a persistência do vírus, mas também sua intensificação em meio à circulação de novas variantes.
Para colocar esse número em perspectiva: ele igualava o total de óbitos registrado um mês antes, em 28 de janeiro. O pico ainda maior havia ocorrido apenas sete dias antes do ano, em 7 de janeiro, quando 1.524 pessoas morreram em um único dia. Desde o início da pandemia, o Brasil havia acumulado 248.529 mortes. Naquele dia de fevereiro, o país ultrapassava 10 milhões de casos confirmados — 10.257.875 pessoas infectadas desde março de 2020.
Os números continuavam a subir. Nas 24 horas anteriores àquele comunicado, foram registrados 62.715 novos casos. Ao mesmo tempo, o Ministério da Saúde informava que 9.215.164 pessoas já se haviam recuperado, enquanto outras 794.182 permaneciam em acompanhamento ativo.
Mas havia outro fator alimentando a preocupação: a disseminação de variantes mais transmissíveis do novo coronavírus. A Secretaria de Vigilância em Saúde havia identificado 204 casos de novas variantes em testes realizados até o sábado anterior. A variante P.1, detectada inicialmente em Manaus e depois identificada no Japão em viajantes que retornavam da Amazônia, era responsável por 184 desses casos. A maioria estava concentrada no Amazonas — 60 casos — mas havia se espalhado para São Paulo (28), Goiás (15), Paraíba (12), Pará (11) e Bahia (11). A variante B.1.1.7, originária do Reino Unido, havia sido confirmada em 20 casos, principalmente em São Paulo, onde 11 deles foram detectados. A variante B.1.351, originária da África do Sul, ainda não havia sido registrada no país, embora o ministério reconhecesse que os dados estavam sujeitos a mudanças conforme novas investigações epidemiológicas avançassem.
Por trás desses números havia uma tensão política crescente. O governo federal havia começado a restringir o acesso público a dados sobre a pandemia, uma decisão que levou os principais veículos de comunicação do país — UOL, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, O Globo, G1 e Extra — a formar um consórcio colaborativo. Esses jornais passaram a coletar informações diretamente das secretarias estaduais de Saúde das 27 unidades da Federação, contornando os canais oficiais. O Ministério da Saúde deveria ser a fonte natural desses dados, mas as ações de autoridades federais e do próprio presidente durante a pandemia haviam criado dúvidas sobre a disponibilidade e a confiabilidade das informações que saíam de Brasília. Enquanto o Brasil enfrentava seu segundo pior dia de mortes do ano, a capacidade de acompanhar com precisão o avanço da doença havia se tornado, ela mesma, uma questão de disputa.
Citações Notáveis
Devido à constante investigação epidemiológica e novas notificações, os dados estão sujeitos a alterações— Ministério da Saúde
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que esse número de 1.386 mortes em um dia importa tanto? Parece um dado isolado.
Porque não é isolado. É o segundo pior dia do ano inteiro. Mostra que a pandemia não estava desacelerando — estava acelerando novamente, mesmo com campanhas de vacinação começando.
E as variantes? Por que o ministério estava tão preocupado em divulgar esses 204 casos?
Porque variantes significam que o vírus estava mudando. A P.1, detectada em Manaus, era mais transmissível. Já estava em cinco estados. Isso sugeria que o Brasil não estava apenas lidando com a onda original, mas com algo potencialmente mais perigoso.
Mas por que os jornais formaram um consórcio para coletar dados? O governo não deveria estar fazendo isso?
Deveria, mas não estava. O governo federal começou a restringir o acesso a informações sobre a pandemia. Os jornais precisavam ir direto às secretarias estaduais para ter números confiáveis.
Isso significa que os dados oficiais não eram confiáveis?
Havia dúvidas. Ações de autoridades federais durante a pandemia tinham criado desconfiança sobre a precisão e até a disponibilidade das informações que saíam de Brasília.
Então enquanto o Brasil enfrentava seu pior momento, havia também uma crise de informação?
Exatamente. A capacidade de acompanhar a doença com precisão havia se tornado uma questão política, não apenas epidemiológica.