Água que desaparece nos canos reduz a disponibilidade hídrica e torna impossível expandir o atendimento
O Brasil carrega uma dívida histórica com sua própria população: quase metade dos brasileiros ainda vive sem coleta de esgoto, e o prazo para corrigir isso se encerra em 2033. A Confederação Nacional da Indústria entregou aos pré-candidatos presidenciais um diagnóstico preciso — R$ 420 bilhões em investimentos são necessários para que o saneamento básico deixe de ser privilégio e se torne direito universal. O Novo Marco Legal de 2020 abriu caminhos, mas a distância entre os contratos assinados e a torneira que funciona na casa de cada cidadão ainda é vasta, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, onde a ausência de infraestrutura se confunde com a própria paisagem da desigualdade.
- Com apenas sete anos para cumprir as metas legais, o Brasil enfrenta um déficit de saneamento que afeta 43% da população sem coleta de esgoto e 16% sem acesso à água potável.
- A desigualdade regional é alarmante: enquanto o Sudeste cobre 80,8% em esgotamento sanitário, o Norte chega a apenas 16,6% e o Nordeste a 31,7%.
- Mais de 1.400 municípios ainda não possuem metas contratualizadas para coleta e tratamento de esgoto, deixando cerca de 15% dos brasileiros fora de qualquer plano concreto.
- As perdas de água na distribuição chegam a 39,5% em média nacional — quase metade no Norte —, corroendo a eficiência do sistema e inviabilizando a expansão do atendimento.
- A CNI pressiona os futuros governantes a garantir segurança jurídica, aperfeiçoar concessões e ampliar parcerias público-privadas como condições inegociáveis para atrair os investimentos que faltam.
O Brasil tem sete anos para cumprir o que deveria ter sido feito há décadas: garantir água tratada e coleta de esgoto para toda a sua população. A Confederação Nacional da Indústria traduziu essa urgência em números e os entregou aos pré-candidatos presidenciais — serão necessários R$ 420 bilhões em investimentos até 2033 para universalizar o saneamento básico no país.
O Novo Marco Legal do Saneamento, aprovado em 2020, deu impulso ao processo: 64 leilões foram realizados, abrindo investimentos privados em 1.734 municípios e somando mais de R$ 370 bilhões em contratos. Ainda assim, 43% dos brasileiros vivem sem coleta de esgoto e 16% sem água potável em casa. O marco acelerou o ritmo, mas o déficit permanece monumental.
A desigualdade geográfica aprofunda o problema. No Sudeste, 80,8% da população tem coleta de esgoto; no Norte, esse índice cai para 16,6%; no Nordeste, para 31,7%. Mais de 1.400 municípios ainda não possuem metas contratualizadas para esgoto, deixando cerca de 15% dos brasileiros fora de qualquer plano concreto de atendimento.
Há ainda um problema silencioso que corrói o sistema por dentro: em 2024, as perdas de água na distribuição chegaram a 39,5% em média nacional, aproximando-se de 50% no Norte. Essa água que desaparece nos canos não é apenas desperdício — ela reduz a disponibilidade hídrica, infla custos e torna impossível expandir o atendimento.
Roberto Muniz, diretor de Relações Institucionais da CNI, conecta saneamento diretamente à dignidade humana: onde faltam água e esgoto, crescem as doenças, os gastos públicos e as desigualdades. Para a CNI, o dinheiro sozinho não basta — o país precisa de segurança jurídica, modelos de concessão aperfeiçoados, investimentos direcionados às regiões com maior déficit e integração do saneamento às estratégias climáticas. Os sete anos já começaram a contar.
O Brasil tem sete anos. Esse é o prazo para fazer algo que deveria ter sido feito há décadas: garantir que toda pessoa no país tenha acesso a água tratada e coleta de esgoto. A Confederação Nacional da Indústria entregou aos pré-candidatos presidenciais um documento que coloca números na urgência: serão necessários R$ 420 bilhões em investimentos até 2033 para universalizar o saneamento básico.
O Novo Marco Legal do Saneamento, aprovado em 2020, já movimentou a máquina. Desde então, 64 leilões abriram as portas para investimentos privados em 1.734 municípios, somando mais de R$ 370 bilhões em contratos. Parece impressionante até você olhar para a realidade nas ruas: 43% dos brasileiros ainda vivem sem coleta de esgoto. Dezesseis por cento não têm água potável em casa. O novo marco acelerou as coisas, mas o déficit permanece monumental.
A desigualdade geográfica é brutal. No Sudeste, 92,1% das pessoas têm água tratada e 80,8% têm coleta de esgoto. Siga para o Norte e os números caem para 62,8% e 16,6%. O Nordeste fica ainda mais para trás, com apenas 31,7% de cobertura em esgotamento sanitário. Mais de mil municípios não têm sequer metas para expandir o abastecimento de água, deixando 12% da população fora dos planos. Outros 1.421 municípios permanecem sem metas contratualizadas para coleta e tratamento de esgoto, afetando cerca de 15% dos brasileiros.
Mas há outro problema que corrói o sistema por dentro: a água que vaza antes de chegar às torneiras. Em 2024, as perdas na distribuição chegaram a 39,5% em média nacional. No Norte, aproximam-se de 50%. No Nordeste, 46,7%. Mesmo no Sudeste, mais eficiente, perdem-se 37,6%. Essa água que desaparece nos canos não é apenas desperdício — reduz a disponibilidade hídrica, infla os custos operacionais e torna impossível expandir o atendimento. A melhora desde 2020, quando as perdas eram de 40,9%, existe, mas caminha em ritmo lento demais.
Roberto Muniz, diretor de Relações Institucionais da CNI, não hesita em conectar saneamento a dignidade. Água tratada e coleta de esgoto não são luxo — estão ligadas diretamente à saúde, à qualidade de vida, ao desenvolvimento das cidades. Quando faltam, aumentam as doenças, os gastos públicos, as desigualdades. Quando chegam, a economia cresce.
Para a CNI, o dinheiro sozinho não resolve. O país precisa de segurança jurídica e regulatória. Precisa aperfeiçoar os modelos de concessão e as parcerias público-privadas. Precisa direcionar investimentos para os municípios com maior déficit. Precisa modernizar os sistemas existentes para reduzir perdas. E precisa integrar o saneamento às estratégias de adaptação climática e gestão de riscos urbanos. Muniz resume: é preciso criar um ambiente que atraia investimento privado, com regras claras, projetos bem desenhados e mecanismos que ampliem a participação da iniciativa privada.
Os sete anos começaram a contar. O que falta agora é vontade política e capacidade de execução em escala.
Notable Quotes
Água tratada e coleta de esgoto estão diretamente ligadas à saúde, dignidade e qualidade de vida das pessoas. Quando esses serviços não chegam, aumentam os riscos de doenças, gastos públicos e desigualdades.— Roberto Muniz, diretor de Relações Institucionais da CNI
É preciso criar um ambiente favorável aos investimentos, com segurança jurídica e regulatória, bons projetos e mecanismos capazes de ampliar a participação privada no setor.— Roberto Muniz, diretor de Relações Institucionais da CNI
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que a CNI está trazendo isso agora, para os pré-candidatos? Isso é pressão?
É mais do que pressão. É um aviso. O marco legal de 2020 criou um prazo real — 2033. A CNI está dizendo: olhem, temos R$ 370 bilhões já contratados, mas precisamos de mais R$ 420 bilhões. Sem o próximo governo comprometido, não chegamos lá.
Mas R$ 370 bilhões já é muito dinheiro. Por que ainda faltam 43% das pessoas sem coleta de esgoto?
Porque o Brasil é grande e desigual. O Sudeste já está quase universalizado. O Norte e Nordeste estão décadas atrás. E porque há vazamentos enormes — 50% da água se perde no caminho no Norte. Você investe bilhões, mas metade some nos canos.
Então o problema não é só falta de dinheiro?
Não. É falta de dinheiro, sim, mas também é falta de eficiência, falta de metas claras em 2.400 municípios, falta de segurança jurídica para atrair investidor privado. É um nó.
E por que a desigualdade regional é tão extrema? Por que o Nordeste tem 31,7% de cobertura de esgoto?
Porque historicamente o investimento em infraestrutura foi concentrado no Sudeste. Agora, com o novo marco, está começando a chegar dinheiro para outras regiões, mas o buraco é fundo. Você não fecha uma lacuna de 50 anos em quatro.
Se isso é tão importante para a saúde e a economia, por que não é prioridade número um?
Porque saneamento é invisível quando funciona. Ninguém acorda pensando em coleta de esgoto. Mas quando não funciona, as doenças aparecem, os gastos públicos com saúde explodem, as cidades não crescem. A CNI está tentando tornar visível o que deveria ser óbvio.