Brasil precisa entregar resultados fiscais para recuperar grau de investimento

Chegou a hora de entregar melhores resultados fiscais
Economista-chefe do Santander resume o que o Brasil precisa fazer para recuperar o grau de investimento.

Oito anos após perder o grau de investimento, o Brasil recebe da Fitch uma elevação de rating que o coloca a duas notas desse patamar — um sinal de que reformas estruturais acumuladas começam a ser reconhecidas pelos mercados globais. A economista-chefe do Santander, Ana Paula Vescovi, interpreta o movimento como legítimo, mas adverte que reconhecimento externo e entrega interna são coisas distintas. O país carrega agora o peso de corresponder às expectativas que ajudou a criar.

  • A Fitch elevou o rating do Brasil de BB- para BB, aproximando o país do grau de investimento perdido em 2015 após anos de crise econômica e política.
  • A melhora na nota reflete um conjunto de reformas — Previdência, trabalhista, tributária e independência do Banco Central — além da solidez do setor externo com reservas acima da média emergente.
  • O governo enfrenta metas fiscais consideradas 'extremamente desafiadoras': zerar o déficit em 2024 e alcançar superávit de 1% do PIB em 2026, enquanto a economia desacelera sob aperto monetário.
  • A tensão central é estrutural: o ajuste fiscal depende do aumento de receitas num momento em que o crescimento perde fôlego, criando um movimento de forças opostas.
  • O caminho para o grau de investimento está aberto, mas dependerá da execução real das reformas e da resiliência do país diante de crises que, segundo a própria Fitch, certamente virão.

O Brasil está a duas notas de recuperar o grau de investimento — classificação perdida em 2015 após uma sequência de crises que abalou a confiança das agências de risco. Em junho, a S&P sinalizou otimismo com a perspectiva do país. Dias depois, a Fitch concretizou o movimento, elevando o rating de BB- para BB.

Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander e ex-secretária do Tesouro, vê os sinais como genuínos, mas faz uma distinção importante: ter perspectiva positiva não é o mesmo que entregar resultados. Para ela, o Brasil precisa de reformas que ampliem o potencial real de crescimento — não apenas de ajustes que melhorem os números no papel.

A Fitch fundamentou sua decisão nas reformas realizadas desde 2015 e na robustez do setor externo brasileiro: exportações de commodities, câmbio flexível como amortecedor, reservas internacionais acima da média e baixa dependência de financiamento externo. Esses elementos formaram a base que levou as agências a reconsiderar sua avaliação.

O desafio imediato é fiscal. O governo prometeu zerar o déficit em 2024 e entregar superávit de 1% do PIB em 2026 — metas que Vescovi classifica como 'extremamente desafiadoras'. A estratégia de ajuste pelo lado das receitas enfrenta o obstáculo de uma economia que desacelera sob aperto monetário: é como tentar avançar enquanto uma força oposta puxa para trás.

A porta do grau de investimento está aberta. O que determinará o tempo para atravessá-la é a capacidade do Brasil de executar sua agenda de reformas e de responder com resiliência aos choques que inevitavelmente virão.

O Brasil está mais perto de recuperar um selo que perdeu há oito anos. Em junho, a agência S&P sinalizou otimismo com a perspectiva da nota de crédito do país. Dias depois, a Fitch concretizou esse movimento, elevando o rating brasileiro de BB- para BB. Agora faltam apenas duas notas para o Brasil voltar ao grau de investimento — a classificação que o país tinha antes de 2015, quando uma sequência de crises econômicas e políticas o derrubou dessa categoria.

Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander e ex-secretária do Tesouro, vê esses movimentos das agências de risco como sinais genuínos de que o país está no caminho certo. Mas ela é clara sobre o que vem a seguir: não basta ter a perspectiva positiva. O Brasil precisa entregar. "Chegou a hora de a gente entregar melhores resultados fiscais e condições para o crescimento", afirma. Traduzindo para linguagem de economista: o país precisa de reformas que ampliem o potencial de crescimento da economia, não apenas de ajustes contábeis que façam os números parecerem melhores no papel.

O comunicado da Fitch deixou claro por que a agência mudou de posição. Citou as reformas que o Brasil realizou desde 2015 — a reforma da Previdência, a reforma trabalhista, a reforma tributária e a independência do Banco Central. Citou também algo que muitos analistas negligenciam: a robustez do setor externo brasileiro. O país exporta principalmente commodities, tem um câmbio flexível que funciona como amortecedor, mantém reservas internacionais acima da média dos emergentes e não depende excessivamente de financiamento externo para sua dívida pública. Esses fatores criaram uma base sólida para que as agências de risco reconsiderassem sua avaliação.

Mas há um problema no horizonte. O governo prometeu zerar o déficit fiscal em 2024 e entregar um superávit de 1% do PIB em 2026. Vescovi não acredita que essas metas sejam impossíveis, mas as chama de "extremamente desafiadoras". O motivo é simples: o país está tentando fazer um ajuste pelo lado das receitas — aumentando impostos — enquanto a economia desacelera por causa do aperto monetário necessário para controlar a inflação. É como tentar correr enquanto alguém puxa você para trás.

A questão que fica é se o Brasil conseguirá fazer o que as agências de risco agora esperam dele. Não é apenas uma questão de números. A Fitch deixou claro em seu comunicado que crises podem ocorrer — e provavelmente ocorrerão. O que importa é como o país responde a elas e quão resiliente consegue ser. Vescovi concorda: o tempo para voltar ao grau de investimento dependerá inteiramente do que o Brasil fizer com sua agenda de reformas e de como enfrentará os próximos desafios. A porta está aberta. Agora é preciso atravessá-la.

O Brasil precisa de reformas que tragam um PIB potencial maior e de melhor qualidade, não apenas ajustes fiscais
— Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander
As metas fiscais do governo são extremamente desafiadoras, mas não impossíveis
— Ana Paula Vescovi
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que as agências de risco mudaram de posição agora, depois de tanto tempo?

Model

Não foi do nada. As reformas dos últimos anos — Previdência, trabalhista, tributária — criaram uma base. Mas o que realmente importa é que o setor externo do Brasil ficou robusto. Exportações fortes, câmbio flexível, reservas altas. Isso dá confiança.

Inventor

Então é só questão de esperar mais upgrades?

Model

Não. A Fitch deixou claro: crises podem vir. O que importa é como o Brasil responde. Os números precisam sair do papel e virar realidade.

Inventor

O governo acha que consegue zerar o déficit em 2024. Você acredita?

Model

Não é impossível, mas é extremamente desafiador. O país está tentando aumentar receitas enquanto a economia desacelera. É um movimento contracíclico difícil.

Inventor

E se não conseguir?

Model

Então as agências de risco vão esperar para ver como o Brasil responde. Resilência é o que elas querem ver agora.

Inventor

Qual é o verdadeiro desafio?

Model

Não é apenas fiscal. É ampliar o potencial de crescimento da economia. Reformas que tragam crescimento de verdade, não apenas ajustes contábeis.

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