Brasil precisa de superávit fiscal de 1% do PIB para estabilizar dívida, diz Santander

O Brasil tem situação externa sólida, mas posição fiscal frágil
Economista do Santander resume a contradição central da economia brasileira em 2023.

Em um momento em que o Brasil celebra colheitas recordes e exportações robustas, a economista-chefe do Santander Brasil, Ana Paula Vescovi, lança um alerta que vai além dos números imediatos: equilibrar o orçamento não basta — o país precisa gerar um superávit fiscal de ao menos 1% do PIB para deter o avanço da dívida pública. A contradição é reveladora: uma nação com posição externa invejável e crescimento surpreendente carrega, ao mesmo tempo, uma fragilidade fiscal que ameaça a sustentabilidade de longo prazo. É o velho dilema entre o que se colhe hoje e o que se planta para amanhã.

  • O déficit fiscal de 2023 está estimado em 1% do PIB — exatamente o oposto do superávit que o Santander considera o mínimo necessário para estabilizar a dívida pública.
  • O próprio presidente Lula admitiu que o governo não zerará o déficit em 2024, sinalizando que o ajuste fiscal será mais longo e doloroso do que o mercado esperava.
  • A economia cresce entre 2,5% e 3% graças a uma safra agrícola recorde, e o superávit comercial deve superar US$ 85 bilhões, criando um colchão externo que atenua — mas não resolve — a vulnerabilidade fiscal.
  • Para 2024, a inflação deve recuar a 3,8% e os juros a 9,5%, abrindo espaço para algum alívio no consumo e na inadimplência das famílias.
  • O desafio central permanece sem solução à vista: enquanto exportações fluem e a economia avança, o governo segue gastando mais do que arrecada, e a dívida continua sua trajetória ascendente.

Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander Brasil, usou um evento paralelo à conferência mundial do banco para lançar um diagnóstico incômodo: não basta zerar o déficit orçamentário. O Brasil precisa ir além e gerar um superávit de pelo menos 1% do PIB para estabilizar uma dívida pública que cresce de forma preocupante. Com o déficit de 2023 estimado exatamente em 1% do PIB, o país está na direção oposta do que seria necessário. Poucos dias antes, o presidente Lula havia admitido publicamente que o governo não conseguirá zerar o déficit em 2024 — sinalizando um ajuste ainda mais longo do que se esperava.

O quadro, porém, não é uniformemente sombrio. A economia brasileira surpreendeu em 2023, com crescimento projetado entre 2,5% e 3%, puxado por uma safra agrícola recorde — especialmente de soja — que deve expandir o setor em 13,5% no ano. A posição externa também impressiona: o superávit comercial deve ultrapassar US$ 85 bilhões, cobrindo déficits em conta corrente e ainda atraindo entre US$ 60 bilhões e US$ 70 bilhões em investimento direto estrangeiro. Vescovi resumiu a contradição com precisão: situação externa sólida, posição fiscal frágil.

Para 2024, alguns alívios estão no horizonte. A inflação deve encerrar o ano em 3,8%, abrindo espaço para o Banco Central reduzir a Selic a 9,5%, dependendo também dos movimentos do Federal Reserve. A inadimplência das famílias começa a ceder, e a safra agrícola deve seguir positiva. Vescovi destacou ainda o bom posicionamento do Brasil na transição energética como ativo de longo prazo. Mas enquanto o governo continuar gastando mais do que arrecada, a dívida seguirá crescendo — e o ajuste fiscal que a economista do Santander considera indispensável permanecerá como o nó central a ser desatado.

Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander Brasil, deixou claro em um evento paralelo à conferência mundial do banco que o país enfrenta um desafio fiscal muito mais profundo do que simplesmente equilibrar as contas. Não é suficiente zerar o déficit orçamentário — o Brasil precisa gerar um superávit de pelo menos 1% do Produto Interno Bruto para estabilizar a dívida pública que cresce de forma preocupante. O déficit fiscal estimado para 2023 é de 1% do PIB, o que significa que a situação atual está longe do patamar necessário para colocar as finanças públicas em trajetória sustentável.

Essa avaliação ganha peso especial porque vem de uma instituição financeira de grande relevância no mercado brasileiro. Vescovi foi direto ao ponto: a fragilidade fiscal é a principal vulnerabilidade da economia brasileira neste momento. Poucos dias antes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia admitido publicamente que o governo não conseguirá zerar o déficit em 2024, sinalizando que o ajuste fiscal será ainda mais longo e desafiador do que se esperava.

Porém, nem tudo é sombra no quadro econômico do país. A atividade econômica surpreendeu positivamente em 2023, com crescimento projetado entre 2,5% e 3%, acima das expectativas iniciais. O motor dessa expansão é principalmente agrícola: uma safra recorde, especialmente de soja, está puxando os números para cima. O setor agrícola deve crescer 13,5% neste ano, segundo as projeções do Santander. Esse desempenho robusto do agronegócio oferece algum alívio em um cenário que seria ainda mais preocupante se a economia estivesse estagnada.

A posição externa do Brasil também apresenta solidez invejável. O superávit comercial deve ultrapassar US$ 85 bilhões, permitindo que o país cubra seus déficits em conta corrente e ainda receba entre US$ 60 bilhões e US$ 70 bilhões em investimento externo direto. Essa combinação — exportações fortes, fluxos de capital entrando — cria um colchão de proteção contra pressões cambiais e de liquidez. Vescovi resumiu bem a contradição: o Brasil tem uma situação externa sólida, mas uma posição fiscal frágil.

Para 2024, o cenário macroeconômico deve melhorar em alguns aspectos. A inflação deve seguir uma trajetória benigna, com o IPCA chegando a 3,8% ao final do ano. Com isso, o Banco Central terá espaço para continuar reduzindo a taxa de juros, que deve chegar a 9,5% no encerramento de 2024, dependendo também dos movimentos do Federal Reserve americano. A inadimplência das famílias começa a ceder, sinalizando que o consumidor está respirando melhor. A safra agrícola deve se manter positiva, com alguma recuperação também na pecuária.

Mas o desafio fiscal permanece como a questão central. Enquanto a economia cresce e as exportações fluem, o governo continua gastando mais do que arrecada, e a dívida pública segue sua trajetória ascendente. Vescovi apontou ainda que o Brasil está bem posicionado em questões de transição energética, o que oferece oportunidades futuras. O país tem desafios econômicos reais, mas também possui ativos significativos. O que falta é a vontade política e a capacidade de executar o ajuste fiscal que a economista do Santander considera indispensável para estabilizar a dívida nos próximos anos.

A principal fragilidade do Brasil é fiscal
— Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander Brasil
O Brasil tem uma situação externa sólida, mas uma posição fiscal frágil
— Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander Brasil
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que simplesmente zerar o déficit não é suficiente? Por que é preciso chegar a um superávit?

Model

Porque a dívida pública já está em um nível elevado. Se você apenas equilibra as contas, a dívida continua crescendo em relação ao PIB. Você precisa gerar superávit para começar a reduzi-la de verdade.

Inventor

E esse 1% do PIB é um número arbitrário ou tem alguma base técnica?

Model

É baseado em cálculos sobre a dinâmica da dívida. Depende da taxa de juros que o governo paga, do crescimento econômico esperado. O Santander chegou a esse 1% como o mínimo necessário para estabilizar, não para reduzir agressivamente.

Inventor

A economista parece otimista com o crescimento econômico. Isso não deveria facilitar o ajuste fiscal?

Model

Deveria, mas não está acontecendo. O crescimento agrícola é uma bênção, mas é também temporário e concentrado em um setor. O governo não está aproveitando essa janela para fazer o ajuste estrutural que seria necessário.

Inventor

E se o Brasil não fizer esse ajuste? Qual é o risco real?

Model

A dívida continua crescendo, os juros ficam mais altos para compensar o risco, e em algum momento você perde credibilidade no mercado internacional. Não é um colapso iminente, mas é uma trajetória insustentável.

Inventor

A posição externa forte compensa a fragilidade fiscal?

Model

Oferece proteção no curto prazo, mas não resolve o problema. Você pode ter dólares entrando e ainda assim ter um problema fiscal doméstico que eventualmente cobra seu preço.

Inventor

O que muda em 2024 que justifique chamar de "ano de ajuste"?

Model

A inflação cai, os juros caem, a inadimplência cede. São condições mais favoráveis para o governo fazer reformas estruturais. Mas se não fizer nada, essas condições também não vão durar para sempre.

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