Brasil polarizado revela paradoxo: Lula supera Bolsonaro, mas direita domina ideologicamente

Lula lidera o polo mais numeroso, mas o país se declara majoritariamente de direita
O paradoxo central que define a política brasileira atual, revelado pela pesquisa Datafolha.

O Brasil de 2025 revela uma democracia que não cabe em rótulos simples: enquanto três em cada quatro brasileiros se identificam com os polos de Lula ou Bolsonaro — com os petistas em vantagem numérica — o país se declara majoritariamente de direita no espectro ideológico. Essa tensão entre identidade partidária e convicção ideológica, exposta por pesquisa Datafolha realizada em dezembro com mais de dois mil entrevistados, sugere que as lealdades políticas brasileiras são moldadas por algo mais profundo e mais ambíguo do que a polarização aparente permite enxergar.

  • A vantagem petista voltou a se consolidar — 40% contra 34% de bolsonaristas — após um empate técnico que havia gerado incerteza sobre a força real de cada campo.
  • O paradoxo central irrompe nos dados: o Brasil se declara 35% de direita e apenas 22% de esquerda, mesmo num cenário em que o grupo pró-Lula supera numericamente o pró-Bolsonaro.
  • O trânsito de votos expõe a contradição em carne viva: 22% dos que se dizem de direita votaram em Lula em 2022, e 9% dos que se dizem de esquerda votaram em Bolsonaro.
  • A polarização não é uniforme — petismo concentra-se no Nordeste, entre mulheres e aposentados; bolsonarismo prevalece no Sul, entre homens, evangélicos e empresários.
  • Com Bolsonaro condenado por tentativa de golpe e Lula liderando as intenções de voto para 2026, o campo de disputa simbólica permanece aceso e os 18% de neutros podem ser decisivos.

Uma pesquisa Datafolha realizada em dezembro de 2025, com mais de dois mil entrevistados em 113 municípios, revela que 74% dos brasileiros se identificam com um dos dois polos dominantes da política nacional. Nesse recorte, os petistas voltaram a ser maioria clara — 40% contra 34% de bolsonaristas —, revertendo o empate técnico registrado em julho. Desde dezembro de 2022, os apoiadores de Lula foram maioria em 9 dos 11 levantamentos realizados pelo instituto.

O levantamento aconteceu em momento politicamente carregado: Bolsonaro havia sido condenado por tentativa de golpe de Estado, chegou a ser preso preventivamente após tentar violar a tornozeleira eletrônica, e Lula aparecia à frente nas intenções de voto para 2026. Mas é justamente nesse contexto que emerge o paradoxo mais revelador da pesquisa.

Apesar da vantagem numérica petista, o Brasil se declara majoritariamente de direita no espectro ideológico: 35% se identificam como de direita, contra apenas 22% de esquerda. O restante se distribui entre centro-direita, centro e centro-esquerda. Ou seja, o campo que apoia Lula é maior, mas o país se vê como mais conservador do que progressista.

Essa desconexão se aprofunda quando se observa o comportamento eleitoral real: 22% dos que se dizem de direita votaram em Lula em 2022, enquanto 9% dos que se declaram de esquerda votaram em Bolsonaro. Até dentro dos grupos polarizados há trânsito — 5% dos bolsonaristas votaram em Lula, e 7% dos petistas votaram em Bolsonaro.

A polarização também tem rosto e endereço. O petismo é mais forte entre mulheres, aposentados, pessoas com menor escolaridade, nordestinos e católicos. O bolsonarismo prevalece entre homens, empresários, moradores do Sul e evangélicos. A idade intensifica o fenômeno: entre os maiores de 60 anos, 84% se encaixam em um dos dois polos.

O retrato final é o de um país em que a polarização estrutura o debate público, mas em que as identidades políticas convivem com contradições que resistem a qualquer simplificação. Os 18% de neutros e o vasto centro ideológico permanecem como variável aberta — e potencialmente decisiva — para o jogo eleitoral de 2026.

O Brasil permanece preso em uma polarização que estrutura como milhões de pessoas enxergam a política, mas os números revelam algo mais complexo do que a simples divisão entre dois campos. Uma pesquisa Datafolha realizada entre 2 e 4 de dezembro, com 2.002 entrevistados em 113 municípios, mostra que três em cada quatro brasileiros se identificam com um dos dois principais polos: o grupo ligado ao presidente Lula ou o associado a Jair Bolsonaro. Nesse recorte, os petistas voltaram a ser maioria clara — 40% contra 34% de bolsonaristas. A margem de erro é de dois pontos percentuais.

Essa recuperação da liderança petista marca uma mudança em relação ao levantamento anterior, realizado no fim de julho, quando havia empate técnico entre os dois grupos, ambos em torno de 38-39%. Embora a variação ainda caiba dentro da margem de erro, o cenário deixou de ser de igualdade. Os dados históricos reforçam a estabilidade dessa vantagem: desde dezembro de 2022, quando o Datafolha começou a usar uma escala de 1 a 5 para medir essa identificação — onde 1 representa bolsonarista e 5 petista — os apoiadores de Lula foram maioria em 9 dos 11 levantamentos realizados. O restante dos entrevistados se distribuiu entre neutros (18%), aqueles que não apoiam nenhum dos dois (6%) e quem não soube responder (1%).

O levantamento ocorreu em um momento politicamente denso: após a prisão e condenação de Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. O ex-presidente havia sido colocado em prisão domiciliar por descumprir medidas cautelares e chegou a ser preso preventivamente em Brasília após tentar violar a tornozeleira eletrônica. Enquanto isso, Lula aparece em posição confortável no horizonte eleitoral, liderando as intenções de voto para 2026 tanto no primeiro quanto no segundo turno.

Mas aqui emerge o paradoxo central que desmente a simplicidade da polarização. Embora o campo petista seja numericamente maior, a identificação ideológica aponta um país mais inclinado à direita. Quando perguntados sobre sua posição no espectro ideológico, 57% dos entrevistados se definiram como de direita ou esquerda. Desses, 35% se disseram de direita e apenas 22% de esquerda. Os demais se distribuíram entre centro-direita (11%), centro (17%) e centro-esquerda (7%), enquanto 8% não souberam responder. Ou seja: há significativamente mais brasileiros que se veem como de direita do que como de esquerda, mesmo em um cenário em que o grupo identificado como petista supera o bolsonarista.

Essa desconexão entre identidade partidária e ideológica fica ainda mais evidente quando se examina o trânsito de votos. Entre os que se declaram de esquerda, 9% afirmaram ter votado em Bolsonaro em 2022. No grupo que se identifica como de direita, 22% declararam ter votado em Lula. Dentro dos grupos polarizados, o movimento é menor mas ainda presente: 5% dos bolsonaristas disseram ter votado em Lula, enquanto 7% dos petistas afirmaram ter votado em Bolsonaro. Esses números sugerem que parte relevante do eleitorado se move por fatores que não se reduzem à identidade ideológica.

A polarização também não é homogênea. O petismo concentra-se entre mulheres (42%), aposentados (45%), pessoas com até ensino fundamental (52%), na região Nordeste (49%) e entre católicos (48%). O bolsonarismo prevalece entre homens (37%), empresários (41%), quem ganha de cinco a dez salários mínimos (42%), na região Sul (41%) e entre evangélicos (47%). A idade intensifica a polarização: entre pessoas com 60 anos ou mais, 84% se encaixam como petistas ou bolsonaristas, sendo 46% mais próximos de Lula e 38% inclinados a Bolsonaro.

O retrato que emerge é o de um Brasil em que a polarização segue predominante, mas em que as identidades políticas convivem com contradições profundas. Lula lidera o polo mais numeroso, mas o país se declara majoritariamente de direita, o que tende a manter o ambiente de tensão política e disputa simbólica em alta. Há também uma camada significativa que se vê como neutra, centrista ou sem alinhamento direto — 18% de neutros mais aqueles que se distribuem pelo centro — e que pode voltar a ser decisiva no jogo eleitoral de 2026.

A pesquisa indica que, apesar da centralidade de Lula e Bolsonaro como polos estruturadores, há uma camada significativa que se vê como neutra, centrista ou sem alinhamento direto
— Análise dos dados Datafolha
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Como explicar que Lula lidera entre os polarizados, mas o país se diz mais de direita?

Model

É que polarização e ideologia não são a mesma coisa. Você pode estar próximo de Lula por razões práticas — economia, políticas sociais — sem se ver como de esquerda. E vice-versa.

Inventor

Mas isso não deveria ser contraditório?

Model

Deveria, pela lógica. Mas o eleitorado brasileiro não funciona só por lógica. Um empresário pode votar em Lula porque acha que é bom para os negócios, mesmo se dizendo de direita. Um aposentado pode ser petista mas se identificar ideologicamente com o centro.

Inventor

Então a polarização é mais superficial do que parece?

Model

Não, é profunda. Mas é também frágil. Esses 22% de direitistas que votaram em Lula, esses 9% de esquerdistas que votaram em Bolsonaro — eles mostram que há espaço para movimento, para mudança.

Inventor

E o que isso significa para 2026?

Model

Significa que Lula tem uma vantagem numérica real, mas não está em terreno ideológico favorável. A direita domina o discurso, mesmo que não domine os votos. Quem conseguir reconciliar essas duas coisas — ganhar votos e ganhar o discurso — leva a eleição.

Inventor

Os mais velhos parecem mais polarizados.

Model

Sim, 84% deles estão em um dos dois polos. Para essa geração, Lula e Bolsonaro estruturam tudo. Os mais jovens têm mais espaço para se ver como neutros ou centristas. Isso pode mudar o jogo com o tempo.

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