Os diplomatas funcionarão como os olhos do governo na sessão
Em Washington, diplomatas brasileiros ocupam o papel silencioso de testemunhas — presentes, mas deliberadamente à margem — enquanto os Estados Unidos avançam numa investigação comercial que pode impor tarifas de 25% sobre produtos do Brasil. O governo Lula apostou num canal de negociação mais discreto e direto, nascido do encontro entre os dois presidentes, em vez de disputar espaço num fórum público. Com a decisão americana marcada para 15 de julho, o Brasil oferece concessões cuidadosamente calibradas, mas guarda o Pix como linha que não será cruzada.
- Uma investigação americana da seção 301 ameaça encarecer em 25% os produtos brasileiros nos EUA, pressionando Brasília a agir antes do prazo de 15 de julho.
- A presença do senador Flávio Bolsonaro na mesma audiência pública adiciona uma camada de tensão política a um processo que o governo federal preferia manter estritamente técnico.
- O Palácio do Planalto aposta num grupo de trabalho bilateral criado após o encontro Lula-Trump como canal mais eficaz do que qualquer participação direta na audiência do USTR.
- O Brasil apresentou um plano com reduções tarifárias em cerca de 300 linhas — em setores como saúde e tecnologia — estruturado para respeitar as regras da OMC ao beneficiar múltiplos países, não apenas os EUA.
- Apesar das movimentações diplomáticas, o pessimismo cresce dentro do governo sobre a real possibilidade de escapar das tarifas, e o Pix permanece fora de qualquer negociação.
Diplomatas brasileiros estiveram em Washington nesta terça-feira para acompanhar a audiência pública do USTR sobre uma investigação que pode resultar em tarifas de 25% sobre produtos brasileiros — mas com papel bem delimitado: observar, não intervir. Enviar técnicos da Embaixada a eventos estrangeiros que possam afetar o país é praxe do governo federal, e esta sessão não foi exceção. A audiência foi aberta ao público e reuniu representantes de setores econômicos dos dois países, além do senador Flávio Bolsonaro, cuja presença acrescentou uma dimensão política ao encontro.
A estratégia brasileira, porém, está centrada em outro canal. Após o encontro entre Lula e Trump na Casa Branca, foi constituído um grupo de trabalho formal entre os dois governos. Auxiliares do presidente avaliam que participar diretamente da audiência pública seria inócuo diante de um mecanismo de negociação mais direto — e esse grupo deve se reunir novamente ainda esta semana.
Na semana anterior, o Brasil apresentou aos Estados Unidos um plano detalhado endereçando os seis eixos da investigação americana, que vão de preocupações com corrupção ao controle do desmatamento. O documento sinaliza a possibilidade de reduzir tarifas em cerca de 300 linhas, com foco em setores como equipamentos de saúde e tecnologia da informação — áreas onde os EUA têm competitividade e que não prejudicariam a indústria nacional. Para respeitar as regras da OMC, que proíbem reduções tarifárias para um único país, as concessões serão oferecidas de forma multilateral, mas calibradas para favorecer os americanos. O Pix, no entanto, foi explicitamente excluído do documento: é inegociável.
Apesar das movimentações, parte do governo admite pessimismo sobre as chances de o Brasil escapar da tarifa. A decisão americana vence em 15 de julho, e os diplomatas seguirão fazendo o que lhes cabe: observar cada movimento e manter Brasília informada sobre um processo que pode redesenhar as relações econômicas entre os dois países.
Diplomatas brasileiros estarão em Washington nesta terça-feira para acompanhar uma audiência pública sobre possíveis tarifas contra o Brasil, mas com um papel bem definido: observar, não interferir. É uma praxe do governo federal enviar técnicos da Embaixada do Brasil nos Estados Unidos a eventos estrangeiros que possam afetar o país, e esta audiência do USTR — o Representante Comercial dos EUA — não é exceção. Os enviados funcionarão como os olhos do governo Lula na sessão, que será aberta ao público e contará com a presença de representantes de setores econômicos e empresas dos dois países.
O que está em jogo é uma investigação conhecida como "seção 301", que pode resultar em uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. Diplomatas brasileiros já compareceram a todas as audiências anteriores do USTR sobre este mesmo tema, mantendo a mesma postura de observação. Desta vez, porém, há uma complicação adicional: o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência pelo PL de Rio de Janeiro, também participará da sessão. Mesmo sob essa pressão política, o governo federal tem reiterado que vê a audiência como um espaço para o setor privado participar dos debates, e que não interferirá diretamente.
A estratégia brasileira de negociação, na verdade, está centrada em outro lugar. Após o encontro entre Lula e Donald Trump na Casa Branca, foi criado um grupo de trabalho formal entre os dois países. Auxiliares do presidente indicam que participar da audiência pública seria inócuo — uma ação sem efeito prático — quando já existe um canal de negociação mais direto e potencialmente mais eficaz. A tendência é que este grupo de trabalho volte a se reunir ainda esta semana.
Na semana anterior, representantes do governo federal apresentaram aos Estados Unidos um plano detalhado com medidas que o Brasil pode adotar para contornar a investigação da seção 301. O documento aborda os seis eixos da investigação americana, que vão desde preocupações com corrupção até o controle do desmatamento. O Brasil, porém, deixou claro que o Pix — o sistema de pagamentos instantâneos — é inegociável e foi excluído do documento apresentado.
Muitas das medidas propostas pelo Brasil são textos já em tramitação no Congresso Nacional ou medidas infralegais formuladas internamente no Palácio do Planalto. Em reuniões anteriores, o foco foi a questão tarifária propriamente dita. O Brasil sinalizou aos norte-americanos a possibilidade de reduzir taxas em cerca de 300 linhas tarifárias. Há, porém, uma restrição importante: sob as regras da Organização Mundial do Comércio, o Brasil não pode reduzir tarifas para um único país. A solução encontrada foi oferecer reduções de taxas para vários países, mas especificamente em setores onde os Estados Unidos teriam maiores condições de competir e que não prejudicariam a indústria brasileira.
Os setores em discussão incluem máquinas e equipamentos não produzidos no Brasil, como equipamentos para o setor de saúde — com atenção especial à crescente demanda do Sistema Único de Saúde — e tecnologia da informação. Essa abordagem permite que o Brasil faça concessões comerciais sem violar as regras multilaterais de comércio.
Apesar do canal formal de negociação já constituído, há pessimismo em parte do governo federal sobre as chances de o Brasil escapar da tarifa de 25%. Os Estados Unidos devem tomar sua decisão até o dia 15 de julho. Enquanto isso, os diplomatas brasileiros continuarão fazendo seu trabalho: estar presentes, observar, e manter o governo informado sobre cada movimento nas negociações comerciais que podem redefinir as relações econômicas entre os dois países.
Notable Quotes
O governo federal considera que a audiência é um espaço para participação do setor privado nos debates e não interferirá— Fontes do governo brasileiro
Participar da audiência seria inócuo, já que o Brasil já tem um canal formal de negociação estabelecido— Auxiliares do presidente Lula
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o Brasil não participa diretamente da audiência, já que está em jogo uma tarifa que pode afetar tanto o país?
Porque o governo considera que a audiência é principalmente um espaço para o setor privado se expressar. O Brasil já tem um canal formal de negociação — o grupo de trabalho criado após o encontro Lula-Trump — que é onde as decisões reais estão sendo tomadas.
E qual é o papel exato desses diplomatas que estarão lá?
Eles são os olhos do governo. Observam o que é dito, quem participa, como os americanos reagem. Depois relatam tudo de volta a Brasília. Mas não falam, não negociam, não interferem.
Isso não parece uma posição fraca? Deixar que outros falem por você?
Não necessariamente. O Brasil já apresentou um plano detalhado aos americanos com medidas concretas. A audiência é pública, aberta. Participar dela não adicionaria nada que já não esteja sendo negociado nos bastidores.
Qual é a maior concessão que o Brasil está oferecendo?
A redução de tarifas em cerca de 300 linhas tarifárias, mas de forma estratégica — em setores onde os EUA podem competir sem prejudicar a indústria brasileira. Máquinas, equipamentos de saúde, tecnologia.
E o Pix? Por que é tão importante que o Brasil o mantenha fora das negociações?
Porque é uma ferramenta de soberania financeira e de inclusão. O Brasil não quer que isso se torne moeda de troca em uma negociação comercial. É uma linha que o governo decidiu não cruzar.
Qual é o prazo?
15 de julho. Os americanos decidem até lá se aplicam a tarifa de 25% ou não.