Brasil enfrentará juros altos por mais tempo e crescimento fraco em 2023, alerta Santander

O Brasil não gasta pouco, de forma alguma. Gasta mal.
Reflexão de Vescovi sobre a necessidade de reformas estruturais no orçamento público brasileiro, não apenas aumento de gastos.

O Brasil entra em um ciclo de austeridade forçada: juros altos por mais tempo, crescimento tímido em 2022 e ainda mais fraco em 2023. Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander, lê os sinais de um mundo que mudou — crises energéticas, inflação global, turbulências na China — e conclui que o país chegará às eleições de 2022 sem as reformas que precisava ter feito. A espera pelo próximo governo não é apenas política; é a condição para que o Brasil volte a acreditar em si mesmo.

  • Uma cascata de choques externos — crise energética, inflação global e instabilidade na China — inverteu os ventos favoráveis que sustentavam a economia brasileira.
  • O Santander projeta crescimento de apenas 1% para 2023, bem abaixo do mercado, com o aperto monetário se estendendo além do previsto e o mercado de trabalho ainda cicatrizando da pandemia.
  • A dívida pública beira 80% do PIB, foi encurtada durante a pandemia e agora precisa ser rolada com frequência em um ambiente de Selic elevada — uma combinação perigosa.
  • O teto de gastos é viável, mas sem reformas tributária e administrativa ele não sustenta sozinho a consolidação fiscal; o Brasil gasta mal, não pouco.
  • Com o calendário eleitoral bloqueando avanços estruturais, o país aguarda 2023 para ter clareza sobre sua estratégia econômica — e só então poderá retomar uma perspectiva de crescimento sustentado.

Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander e única mulher a ter ocupado a Secretaria do Tesouro Nacional em seus 35 anos de história, observa um horizonte que se fechou mais rápido do que se esperava. Choques externos acumulados — crise energética, pressões inflacionárias, turbulências na China e a retirada gradual dos estímulos americanos — mudaram o rumo da economia global e trouxeram mais incerteza ao Brasil.

Sua projeção é direta: juros altos por mais tempo, desaceleração em 2022 e crescimento de apenas 1% em 2023 — número bem abaixo do consenso de mercado. O ciclo de aperto monetário se estenderá além do calculado, enquanto o mercado de trabalho ainda se recupera lentamente da pandemia. Para 2022, ela vê alguma sustentação vinda da massa salarial real, o que evita um crescimento próximo de zero, mas o cenário segue carregado de ressalvas — inclusive o risco eleitoral.

O ponto central de sua preocupação é fiscal. A pandemia desviou o Brasil da rota de consolidação, e não há sinais de retorno estrutural a esse caminho. A melhora recente nas receitas é real, mas pode ser circunstancial: impulsionada por commodities e inflação, enquanto o custo de rolagem da dívida já sobe com a Selic. A dívida pública, em torno de 80% do PIB, foi encurtada durante a crise — o que obriga o governo a refinanciá-la com mais frequência, pagando juros maiores.

O teto de gastos, para Vescovi, é um instrumento válido e foi essencial para reduzir os juros estruturais da economia. Mas ele depende de reformas que o Brasil ainda não fez. O país não gasta pouco; gasta mal. Reformas tributária e administrativa exigem uma transformação profunda no setor público — avaliação de desempenho real, fim de promoções automáticas — e esse tipo de mudança é quase impossível de aprovar às vésperas de uma eleição.

O que Vescovi aguarda é clareza. Não antes de 2023, não antes de um novo governo instalado e com estratégia definida. Só então o Brasil terá condições de retomar investimentos, melhorar o ambiente de negócios e voltar a crescer de forma sustentada.

Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Banco Santander, olha para o horizonte econômico brasileiro e vê um cenário que se deteriorou rapidamente. Os ventos que impulsionavam a economia global mudaram de direção. Uma cascata de choques — crise energética, pressões inflacionárias, turbulências na China, sinais de que os Estados Unidos começam a retirar seus estímulos — criou uma acumulação de incertezas que ninguém havia previsto com essa intensidade.

Vescovi, que foi secretária do Tesouro Nacional no governo Michel Temer e é a única mulher a ocupar esse cargo em seus 35 anos de existência, fala com a autoridade de quem conhece as engrenagens da máquina fiscal brasileira. Sua mensagem é clara: o Brasil vai conviver com uma taxa de juros elevada por mais tempo do que se esperava. Isso significa desaceleração em 2022 e algo ainda pior em 2023. Para o próximo ano, o Santander projeta crescimento de apenas 1% — bem abaixo do que outras instituições estimam. A razão é simples: a economia seguirá pressionada por um ciclo de aperto monetário que se estenderá além do que inicialmente se calculava, enquanto o mercado de trabalho ainda caminha lentamente em sua recuperação pós-pandemia.

O cenário para 2022, porém, não é tão sombrio. Vescovi não vê um crescimento próximo de zero, como alguns analistas preveem. Ela aponta para dados do mercado de trabalho que sugerem uma massa de salários reais crescendo perto de 3%, o que oferece alguma sustentação para um crescimento em torno de 1,5%. Mas esse número vem carregado de ressalvas: o aperto monetário continua, as incertezas aumentam, e 2022 será um ano marcado pela disputa eleitoral — um fator que traz seus próprios riscos.

Aqui está o ponto que mais preocupa Vescovi. Ela não vê condições políticas para que as reformas econômicas estruturais que o Brasil precisa sejam aprovadas antes das eleições. Pior ainda: se candidatos sinalizarem abandono do teto de gastos e da responsabilidade fiscal, o cenário econômico de 2022 será bastante estressado. A questão fiscal está no centro de tudo. A pandemia desviou o Brasil da rota de consolidação fiscal, e não há sinais de que o país voltará a esse caminho de forma estrutural — revisando o tamanho do Estado, repensando a composição do orçamento, tornando a destinação de recursos mais efetiva não apenas para distribuição de renda, mas também para produtividade e eficiência.

Há, é verdade, uma melhora recente nos indicadores fiscais. As receitas estão aumentando, impulsionadas por um choque de commodities e um ambiente inflacionário. As despesas foram contidas pelo congelamento de salários no setor público. Mas Vescovi avisa: essa melhora pode ser mais circunstancial do que parece. O custo de rolagem da dívida já está subindo por causa da alta da Selic, e a dívida pública em si atingiu níveis perigosos — em torno de 80% do PIB, com picos estimados próximos a 90%. Além disso, a dívida foi encurtada durante a pandemia, o que significa que o governo precisa rolar mais frequentemente seus títulos, pagando juros maiores em um ambiente de taxa básica elevada.

O teto de gastos, segundo Vescovi, é viável e traz benefícios reais — ele foi fundamental para reduzir os juros estruturais da economia. Mas ele precisa das reformas. O Brasil não gasta pouco; gasta mal. Isso exige uma discussão profunda sobre o que é prioritário, sobre o reconhecimento de que o Estado tem limites impostos pela capacidade da sociedade de pagar impostos. Reformas tributária e administrativa não são simples aprovações legislativas — elas exigem uma pequena revolução no setor público, com avaliação de desempenho real e fim das promoções automáticas. Tudo isso é absolutamente prioritário, mas é difícil de conseguir em um ambiente político próximo às eleições.

O que poderia amenizar esse cenário complexo? Um projeto político com ampla base de apoio, capaz de aprovar as reformas que o país precisa. Mas Vescovi não vê isso acontecendo até 2023. O que ela vê é um Brasil que precisará esperar pelo novo governo instalado em 2023 para ter clareza sobre a estratégia econômica — e apenas com essa clareza será possível retomar uma perspectiva mais favorável para investimentos, ambiente de negócios e crescimento sustentado.

Os ventos externos favoráveis mudaram de direção, com uma acumulação de choques que trazem mais incerteza e risco
— Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Banco Santander
A economia em 2023 ainda será muito afetada por esse ciclo monetário contracionista, com um mercado de trabalho que volta para o pré-pandemia
— Ana Paula Vescovi
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que a economista está tão preocupada com o teto de gastos agora, se ele já provou sua efetividade?

Model

Porque o teto só funciona se as pessoas acreditam que ele vai ser respeitado. Se candidatos começam a sinalizar que vão abandoná-lo, o mercado fica assustado, os juros sobem, e todo o benefício desaparece.

Inventor

Mas o Brasil não precisa gastar mais em programas sociais? O desemprego ainda está alto.

Model

Precisa, sim. Mas não é uma questão de gastar mais ou menos — é de gastar melhor. O Brasil gasta uma quantidade enorme de dinheiro público. O problema é que gasta de forma ineficiente, com pouca avaliação de resultados.

Inventor

A economista acha que as reformas vão sair antes das eleições?

Model

Não. Ela acha difícil conseguir maioria e consenso para essas reformas em um ambiente eleitoral. Não é simplesmente aprovar uma lei — é enfrentar problemas estruturais do modelo tributário e do setor público.

Inventor

E se nada mudar? Se o novo governo em 2023 também não conseguir aprovar reformas?

Model

Então o Brasil continua em um cenário de risco. Juros altos, crescimento contido, dívida pública em trajetória preocupante. É por isso que ela diz que a clareza do novo governo será fundamental.

Inventor

A massa de salários reais crescendo 3% é suficiente para sustentar o crescimento?

Model

É um sinal positivo, mas não é suficiente sozinho. Você tem aperto monetário, incertezas políticas, um mercado de trabalho que ainda está se recuperando com composição diferente — mais informalidade, mais trabalho parcial.

Inventor

Então 2023 vai ser pior que 2022?

Model

Segundo as projeções do Santander, sim. Porque o ciclo de aperto monetário vai continuar afetando a economia, e o mercado de trabalho ainda não terá se normalizado completamente.

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