Economistas estão correndo atrás do próprio rabo
Há quatro anos, o Brasil mantém juros reais elevados sem que a economia demonstre sinais visíveis de ruptura — uma aparente contradição que a economista-chefe do Santander Brasil, Ana Paula Vescovi, atribui à confluência de forças raramente vistas em simultâneo: expansão histórica do crédito, bancarização sem precedentes e impulsos fiscais persistentes. O crédito alcançou 80% da população, transformando estruturalmente o mercado financeiro e sustentando o consumo mesmo sob o peso de uma política monetária restritiva. É um equilíbrio que funciona, por ora, mas que carrega em si a fragilidade de quem depende de condições que podem não durar.
- Juros reais elevados por quatro anos consecutivos criam uma tensão crescente que desafia a leitura dos próprios economistas sobre o que está acontecendo na economia brasileira.
- O mercado de capitais triplicou ou quadruplicou desde 2015, e o crédito chegou a 80% da população — movimentos que ocorrem em paralelo ao ciclo restritivo, tornando a interpretação ainda mais complexa.
- Impulsos fiscais recorrentes sustentam a renda e o consumo, impedindo o pouso brusco que a teoria monetária convencional sugeriria diante de juros tão altos.
- A resiliência da atividade econômica, embora real, pode estar mascarando pressões inflacionárias e desequilíbrios que ainda não se manifestaram plenamente.
- O sistema opera em equilíbrio frágil — sustentado por fatores estruturais e políticos que Vescovi não garante serem permanentes.
Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander Brasil e ex-secretária do Tesouro Nacional, descreveu nesta quarta-feira uma economia presa em um ciclo monetário avançado e repleto de contradições. Os juros reais permanecem elevados há quatro anos consecutivos, mas a atividade econômica não colapsa — e entender por quê exige olhar para transformações que ocorrem simultaneamente, em camadas.
O dado mais expressivo que Vescovi trouxe é o alcance do crédito: cerca de 80% da população brasileira já tem acesso a ele. Esse número é resultado de uma década de bancarização que atingiu níveis máximos históricos, trazendo para dentro do sistema financeiro pessoas que antes estavam completamente à margem. Ao mesmo tempo, o mercado de capitais triplicou ou quadruplicou desde 2015. Essa sobreposição de movimentos estruturais, segundo ela, desafia a capacidade dos analistas de compreender o que realmente está em curso.
O que sustenta a economia diante de juros tão restritivos são os impulsos fiscais recorrentes, que mantêm a renda das famílias aquecida e, por consequência, o consumo vivo. O resultado é o que Vescovi chamou de pouso suave — sem rupturas visíveis, mas também sem a desaceleração que a política monetária convencional produziria.
A leitura que emerge é a de uma tensão controlada: os juros altos deveriam frear a demanda, mas a inclusão de novos tomadores de crédito e os estímulos fiscais mantêm o motor girando. Vescovi não faz alarmes, mas sua análise aponta para um equilíbrio que funciona por enquanto — sustentado por condições que podem não ser permanentes e que carregam o potencial de pressões inflacionárias ainda não reveladas.
Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander Brasil e ex-secretária do Tesouro Nacional, descreveu nesta quarta-feira um Brasil preso em um ciclo monetário avançado, onde os juros reais permanecem elevados há quatro anos consecutivos. Ela falava em um contexto onde as dinâmicas econômicas se acumulam simultaneamente, tornando a interpretação dos fenômenos cada vez mais complexa para os próprios analistas.
O que Vescovi chamou de atenção é a dificuldade em acompanhar essas transformações que ocorrem em paralelo. O ciclo monetário restritivo convive com uma expansão sem precedentes do mercado de capitais — que triplicou ou quadruplicou desde 2015 — e uma nova dinâmica no crédito que está alcançando proporções históricas. Essa sobreposição de movimentos, segundo ela, desafia a capacidade dos economistas de compreender o que realmente está acontecendo na economia.
O dado mais expressivo é que o crédito chegou a cerca de 80% da população brasileira. Esse alcance massivo é resultado de um processo de bancarização que atingiu seus níveis máximos históricos. Nos últimos dez anos, a inclusão financeira trouxe pessoas que antes estavam fora do sistema para dentro dele, expandindo o acesso ao crédito de forma sem precedentes. Não é uma dinâmica marginal — é uma transformação estrutural do mercado financeiro brasileiro.
Paralelamente a esse ciclo monetário restritivo, a economia brasileira experimenta o que Vescovi chamou de pouso suave, sem rupturas visíveis na atividade. Isso ocorre porque há um fator fiscal por trás sustentando a economia: impulsos recorrentes que mantêm a atividade forte e resiliente. A sustentação da renda das pessoas está diretamente ligada ao crescimento do crédito, criando um círculo onde o consumo se mantém aquecido mesmo sob juros reais elevados.
O que emerge dessa análise é uma economia brasileira em um estado de tensão controlada. Os juros reais altos deveriam desacelerar a atividade, mas impulsos fiscais e a inclusão de novos tomadores de crédito mantêm a demanda viva. Ao mesmo tempo, essa resiliência pode estar mascarando pressões que ainda não explodiram. Vescovi não faz previsões alarmistas, mas sua descrição sugere um sistema que está funcionando, por enquanto, em um equilíbrio frágil — sustentado por fatores que podem não ser permanentes.
Citas Notables
Nós temos o fato de termos entrantes no mercado de crédito e o mercado de capitais, que multiplicou por três ou quatro desde 2015— Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander Brasil
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Quando você diz que os economistas estão correndo atrás do próprio rabo, o que exatamente está escapando da análise?
As dinâmicas não estão acontecendo isoladamente. Você tem juros reais altos há quatro anos, mas ao mesmo tempo o crédito explodiu e chegou a 80% da população. Essas coisas não deveriam coexistir tão tranquilamente. Normalmente, juros altos matam o crédito. Aqui não está acontecendo assim.
E por que não está?
Porque há sustentação fiscal por trás. O governo está injetando renda na economia através de impulsos recorrentes. Isso mantém as pessoas consumindo e tomando crédito mesmo com juros altos. É como se houvesse duas forças puxando em direções diferentes e conseguindo se equilibrar.
Mas esse equilíbrio é sustentável?
Essa é a pergunta que ninguém consegue responder com clareza. A bancarização atingiu níveis máximos históricos, o mercado de capitais triplicou desde 2015. Há muito espaço novo sendo ocupado. Mas quando esse espaço se esgotar, ou quando os impulsos fiscais diminuírem, aí sim as coisas podem ficar tensas.
Então o pouso suave que você mencionou não é garantido?
Não é. É o cenário que estamos vendo agora — a economia não está quebrando apesar dos juros altos. Mas há muita coisa acumulada. Quando você tem juros reais elevados por tanto tempo, isso deixa marcas. A questão é se conseguimos desacelerar sem quebrar.