Aqueles que detêm o poder nessas tecnologias dominam não só a economia, mas também o mundo
Em Brasília, Brasil e União Europeia assinaram uma parceria digital estratégica que vai além de um simples acordo técnico: é uma resposta deliberada à crescente polarização tecnológica global entre Washington e Pequim. Com foco em inteligência artificial, semicondutores e infraestrutura digital, o acordo reflete uma convicção partilhada de que a soberania no século XXI passa pelo controlo das tecnologias que moldam economias e sociedades. O Brasil, com sua abundância energética renovável e peso crescente no cenário digital global, emerge não apenas como parceiro, mas como ativo estratégico numa reconfiguração silenciosa da ordem tecnológica mundial.
- A Europa enfrenta uma urgência real: a dependência tecnológica de poucos atores dominantes transformou relações comerciais em vulnerabilidades estratégicas que podem ser exploradas em momentos de tensão geopolítica.
- A assinatura em Brasília gerou um sinal político claro — o Brasil sobe de patamar nas relações com a UE, juntando-se a Japão, Coreia do Sul, Singapura e Canadá como parceiro digital de confiança.
- O acordo abrange nove áreas críticas, da governança de IA à proteção de menores online, sinalizando que a cooperação tecnológica é também uma disputa sobre quem define as regras do mundo digital.
- O Brasil entra na parceria com um trunfo concreto: energia renovável abundante, num momento em que a escassez energética é o principal gargalo para a expansão global de data centers e infraestrutura de IA.
- A estratégia europeia de diversificação com múltiplos parceiros de confiança começa a ganhar forma — uma alternativa geopolítica construída tijolo a tijolo através de acordos técnicos.
A União Europeia e o Brasil assinaram uma parceria digital estratégica em Brasília, numa cerimónia que reuniu Henna Virkkunen, vice-presidente executiva da Comissão Europeia para Soberania Tecnológica, e a ministra brasileira Esther Dweck. O momento não foi escolhido ao acaso: a Europa vive sob pressão crescente de uma rivalidade sino-americana que ameaça fragmentar cadeias de suprimento e deixar blocos inteiros dependentes de decisões tomadas noutras capitais.
Virkkunen foi direta: a soberania digital europeia não é ideologia, é necessidade. Quem controla as tecnologias dominantes controla não só a economia, mas a geopolítica. A Europa não quer isolamento — quer liberdade de escolha e cadeias de suprimento que não se tornem armas contra ela própria. O acordo cobre nove áreas, da governança de inteligência artificial à proteção de crianças online, passando por semicondutores, conectividade e computação de alta performance.
O Brasil torna-se o quinto parceiro digital da UE, ao lado do Japão, Coreia do Sul, Singapura e Canadá. O vice-presidente Geraldo Alckmin sublinhou que a parceria eleva o estatuto do Brasil perante a Europa — e destacou o ativo mais valioso que o país traz: energia renovável abundante, num mundo onde a expansão de data centers e infraestruturas de IA esbarra cada vez mais na escassez energética.
No fundo, o acordo assinado em Brasília é uma aposta europeia na diversificação geopolítica com parceiros de confiança. Uma estratégia que se disfarça de cooperação técnica, mas que aponta para algo mais ambicioso: construir uma alternativa viável à dependência de um ou dois atores tecnológicos dominantes.
A União Europeia e o Brasil selaram uma parceria digital na sexta-feira em Brasília, um acordo que marca um passo deliberado para reduzir a dependência tecnológica de Washington e Pequim. A assinatura ocorreu no Ministério das Relações Exteriores, com a presença de Henna Virkkunen, vice-presidente executiva da Comissão Europeia para Soberania Tecnológica, Segurança e Democracia, e da ministra brasileira Esther Dweck. O timing não é casual: a Europa enfrenta um cenário geopolítico cada vez mais tenso, onde a rivalidade entre Estados Unidos e China ameaça fragmentar as cadeias globais de suprimento e deixar blocos inteiros reféns de decisões tomadas em capitais estrangeiras.
Virkkunen foi direto ao ponto na coletiva de imprensa que se seguiu à assinatura. A soberania digital é agora uma prioridade europeia não por ideologia, mas por necessidade estratégica. "Porque vemos que aqueles que detêm o poder nessas tecnologias dominam não só a economia, mas também o mundo", disse ela. A Europa, explicou, não quer isolacionismo nem protecionismo — quer liberdade de escolha. Quer poder decidir com quem trabalha, como opera, e garantir que sua cadeia de suprimentos não se torne uma arma contra ela mesma. Essa preocupação é concreta: uma dependência excessiva de um único país ou empresa pode ser explorada em momentos de tensão geopolítica, transformando relacionamentos comerciais em vulnerabilidades estratégicas.
O acordo prevê cooperação em nove áreas específicas: governança de inteligência artificial, infraestrutura pública digital, conectividade, proteção de dados, semicondutores, inovação tecnológica, computação de alta performance, proteção de crianças e adolescentes na internet, e governança digital. Essa última dimensão inclui medidas concretas contra riscos sistêmicos que afetam menores — exposição a conteúdos prejudiciais e exploração de vulnerabilidades. Não é apenas sobre tecnologia por tecnologia; é sobre como a tecnologia molda sociedades e quem controla esse molde.
O Brasil não chega a essa parceria por acaso. O país é agora o quinto parceiro digital da União Europeia, juntando-se a Japão, Coreia do Sul, Singapura e Canadá. Virkkunen foi explícita sobre por que o Brasil importa: como uma das principais economias digitais do mundo e uma voz crescente em questões digitais globais, o país tem um papel central em definir as tecnologias do futuro. Geraldo Alckmin, vice-presidente brasileiro, reforçou essa importância em entrevista exclusiva na quinta-feira. Para ele, a parceria muda o status do Brasil perante a União Europeia — uma elevação de posição que abre portas.
Um dos ativos mais valiosos que o Brasil traz à mesa é energia. Alckmin destacou o potencial brasileiro para receber investimentos em data centers, infraestrutura crítica para computação em nuvem e inteligência artificial. "O que limita hoje os data centers no mundo é a falta de energia e nós temos energia abundante e ainda energia renovável", disse ele. Enquanto o mundo compete por capacidade computacional e a demanda por energia para alimentar servidores cresce exponencialmente, o Brasil oferece algo raro: abundância energética limpa. Isso não é um detalhe menor — é um ativo geopolítico em um mundo onde a tecnologia e a energia são inseparáveis.
Virkkunen foi clara sobre uma coisa: nenhum país consegue sucesso sozinho na era digital. Inteligência artificial, semicondutores, conectividade, infraestrutura em nuvem e cibersegurança dependem de cooperação internacional, de cadeias de suprimentos resilientes e de padrões compartilhados. A Europa está apostando que, ao trabalhar com parceiros de confiança espalhados pelo mundo — Brasil, Japão, Coreia do Sul, Singapura, Canadá — consegue construir uma alternativa viável à dependência de um ou dois atores dominantes. É uma estratégia de diversificação geopolítica disfarçada de cooperação técnica. O acordo assinado em Brasília é o primeiro passo concreto dessa aposta.
Citações Notáveis
A soberania tecnológica não se trata de protecionismo ou isolacionismo. Trata-se de fortalecer a nossa capacidade de inovar, competir e fazer as nossas próprias escolhas, mantendo-nos abertos ao mundo.— Henna Virkkunen, vice-presidente executiva da Comissão Europeia
O que limita hoje os data centers no mundo é a falta de energia e nós temos energia abundante e ainda energia renovável.— Geraldo Alckmin, vice-presidente do Brasil
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que a Europa está fazendo isso agora? Não poderia ter feito isso há cinco anos?
Porque a realidade mudou. A rivalidade entre EUA e China deixou de ser uma abstração geopolítica e virou uma ameaça concreta às cadeias de suprimento. A Europa viu semicondutores serem usados como arma, viu tecnologias críticas ficarem reféns de tensões políticas. Agora é tarde demais para ignorar.
E o Brasil? Por que o Brasil é especial nessa história?
Porque o Brasil tem duas coisas que o mundo precisa: é uma economia digital grande o suficiente para importar, e tem energia renovável abundante. Data centers precisam de eletricidade 24 horas. O Brasil pode fornecer isso de forma limpa. Isso é raro.
Isso significa que a Europa está tentando criar um bloco anti-China e anti-EUA?
Não exatamente. A Europa diz que não é protecionismo, e provavelmente é verdade. É mais sobre ter opções. Se você depende de um único fornecedor, você não tem escolha. Se tem cinco, tem poder.
E as crianças? Por que proteção de menores está nesse acordo?
Porque tecnologia não é neutra. Inteligência artificial, algoritmos de recomendação, redes sociais — tudo isso afeta crianças de formas que ainda estamos entendendo. A Europa quer garantir que, enquanto coopera com o Brasil em tecnologia, ambos estão alinhados em proteger menores de exploração e conteúdo prejudicial.
Qual é o risco aqui? O que pode dar errado?
Que a cooperação seja apenas simbólica. Que os acordos fiquem no papel e os investimentos não cheguem. Ou que, no fim, a Europa e o Brasil descubram que não conseguem competir de verdade com os gigantes americanos e chineses, não importa quantos parceiros tenham.
Então isso é esperança ou desespero?
É pragmatismo. A Europa sabe que não pode vencer sozinha. Está tentando construir uma coligação. Se funcionar, muda o jogo. Se não funcionar, pelo menos tentou.