Boris Johnson não voltará a Downing Street, apesar de ambições

O homem que quis ser Churchill terá de aceitar que o seu tempo passou
A realidade política britânica impõe limites que nem mesmo a ambição pessoal consegue ultrapassar.

Boris Johnson, que aspirava a ser um Churchill do século XXI, deseja intensamente voltar a Downing Street, mas tal regresso seria uma excentricidade britânica sem precedentes. Liz Truss marcou história como primeira-ministra com menor permanência em cargo e única após Churchill a lidar com duas majestades diferentes na chefia de Estado.

  • Boris Johnson aspirava a ser um Churchill do século XXI
  • Liz Truss foi primeira-ministra com menor permanência em cargo
  • Truss foi única após Churchill a lidar com duas majestades diferentes
  • Truss foi empossada por Isabel II e demitiu-se a Carlos III

Análise opinativa sobre a impossibilidade política de Boris Johnson regressar ao cargo de primeiro-ministro britânico, apesar do seu desejo manifesto de retornar ao poder.

Há algo de profundamente humano na ambição de Boris Johnson em querer regressar. O homem que se via como uma versão do século XXI de Winston Churchill, adaptado aos tempos modernos, carrega consigo um desejo que beira o obsessivo de voltar a Downing Street, aquele lugar que sempre considerou seu por direito. É compreensível. Mas a realidade política britânica não funciona assim, e o retorno de Johnson seria algo sem precedentes na história recente do Reino Unido — uma excentricidade que ultrapassaria até mesmo as mais estranhas peculiaridades da política britânica.

Para compreender por que razão este regresso é praticamente impossível, é preciso olhar para o que Liz Truss deixou para trás. A sua passagem por Downing Street foi brevíssima, tornando-a não apenas a primeira-ministra com menos tempo no cargo, mas também a única, depois de Churchill, a ter de lidar com duas majestades diferentes enquanto chefe de governo. Churchill, décadas atrás, usou precisamente este argumento — a continuidade durante a transição para a era isabelina — para se manter no poder, apesar da frustração crescente do seu colega Anthony Eden, que ansiava por finalmente o ver partir.

Truss viveu uma versão comprimida desta mesma dinâmica. Foi empossada pela Rainha Isabel II numa das últimas aparições públicas da monarca antes da sua morte. Semanas depois, apresentou a sua demissão ao Rei Carlos III. Nesse encontro, numa audiência de rotina que parecia já conter o presságio do que viria, o rei respondeu à saudação formal de Truss com uma palavra que os microfones captaram: "Anyway". Uma palavra que resumia tudo — a inevitabilidade, a resignação, talvez até uma certa ironia perante a brevidade daquele governo.

Este contexto é crucial para entender por que Johnson não voltará. A política britânica tem as suas regras não escritas, e uma delas é que os primeiros-ministros que saem de forma caótica não regressam. Johnson saiu sob pressão, envolvido em escândalos que abalaram a confiança no seu governo. Truss saiu ainda mais rapidamente, deixando um vácuo de credibilidade. O partido conservador, já desgastado, não teria a energia política para trazer de volta alguém que representa justamente o tipo de liderança que o levou a este ponto.

Além disso, existe uma questão de legitimidade institucional. A monarquia britânica, mesmo com toda a sua flexibilidade, tem limites. Pedir a um novo monarca para receber de novo um primeiro-ministro que já tinha falhado seria testar essa flexibilidade de forma que nenhum político britânico ousaria fazer. A instituição real é demasiado importante, demasiado central na identidade política britânica, para ser usada como trampolim para ambições pessoais.

Johnson pode continuar a desejar Downing Street. Pode alimentar a esperança de um retorno triunfal. Mas a realidade é que a política britânica, com toda a sua capacidade de absorver excentricidades, tem limites. E este é um deles. O homem que quis ser Churchill terá de aceitar que, ao contrário do seu ídolo, o seu tempo passou.

O rei respondeu à saudação formal de Truss com uma palavra que os microfones captaram: 'Anyway'
— Rei Carlos III, durante audiência com Liz Truss
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Porque é que Johnson não consegue simplesmente voltar? Ele tem apoiantes, tem experiência, tem visibilidade.

Model

Porque a política britânica funciona com regras invisíveis mas muito reais. Quando um primeiro-ministro sai de forma caótica, não regressa. É quase uma lei não escrita.

Inventor

Mas Churchill conseguiu manter-se no poder durante a transição monárquica. Porque é que Johnson não pode usar o mesmo argumento?

Model

Churchill usou esse argumento há décadas, quando a instituição monárquica tinha mais flexibilidade e ele tinha mais capital político. Johnson saiu envolvido em escândalos. Pedir a um novo rei para receber de novo alguém que já tinha falhado seria cruzar uma linha que nenhum político britânico ousaria.

Inventor

Então isto é sobre a monarquia? Sobre respeito institucional?

Model

É sobre tudo junto. A monarquia é central na identidade política britânica. Não é um prêmio que se oferece a quem quer. É uma instituição que tem de ser protegida, mesmo que isso signifique dizer não a ambições pessoais.

Inventor

E se o partido conservador mudasse de ideia? Se precisasse dele?

Model

Não precisam. Precisam de reconstruir credibilidade, e trazer de volta Johnson seria o oposto disso. Seria admitir que o erro foi maior do que qualquer um quer reconhecer.

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