O medicamento está remodelando silenciosamente parte do cenário da saúde
Farmácias como Raia Drogasil, Pague Menos e Panvel devem ter receitas de GLP-1 saltando de 8-9% para 20% em 2030. Empresas de alimentos indulgentes, bebidas alcoólicas e varejistas enfrentarão pressão de volume com redução de até 40% na ingestão calórica.
- 70% da população brasileira está acima do peso ou obesa
- GLP-1 deve saltar de 8-9% para 20% das receitas de farmácias em 2030
- 5,5 milhões de usuários de GLP-1 projetados para 2027
- Redução de até 40% na ingestão calórica entre pacientes em tratamento
- Valorização esperada de 12-15% por ação em farmácias até 2027
Analistas do Itaú BBA projetam que medicamentos GLP-1 beneficiarão farmácias com valorização de 12-15% até 2027, enquanto impactarão negativamente empresas de alimentos calóricos e bebidas alcoólicas.
O Brasil está se posicionando como um dos maiores mercados globais para medicamentos GLP-1, e essa transformação promete remodelar não apenas o setor farmacêutico, mas toda a cadeia de consumo de alimentos e bebidas. Analistas do Itaú BBA mapearam um cenário onde 70% da população brasileira enfrenta sobrepeso ou obesidade, combinado com uma cultura que valoriza profundamente a estética corporal — o país é o segundo maior mercado mundial para procedimentos estéticos quando não ajustado por população, e o primeiro quando essa métrica é considerada. Essa confluência de fatores cria o terreno perfeito para a explosão do uso das canetas emagrecedoras.
As farmácias de varejo emergem como as maiores beneficiárias dessa onda. Raia Drogasil, Pague Menos e Panvel devem ver o valor por ação aumentar entre 12% e 15% até 2027, segundo projeções do banco. O motor dessa valorização é claro: medicamentos GLP-1 devem saltar de representar 8% a 9% das receitas dessas redes para cerca de 20% em 2030. Para que isso aconteça, os analistas estimam que 5,5 milhões de brasileiros estarão usando esses medicamentos até o final de 2027 — um número que, embora significativo, ainda representa apenas 2,5% da população total de 220 milhões.
Mas o impacto vai muito além das prateleiras de farmácia. A mudança nos hábitos alimentares dos usuários de GLP-1 está criando vencedores e perdedores claros no setor de alimentos e bebidas. Estudos nos Estados Unidos mostram que pacientes em tratamento reduzem a ingestão calórica diária em até 40% em alguns grupos. Essa redução brutal de consumo afeta principalmente as categorias de indulgência — chips, confeitaria, biscoitos — enquanto proteínas ganham espaço, já que os pacientes precisam aumentar a ingestão proteica para evitar perda muscular durante o tratamento. Ambev, Camil e M. Dias Brás enfrentarão pressão: os analistas projetam queda de cerca de 2% nos resultados financeiros dessas empresas em 2027. O Assaí já sinalizou publicamente que as canetas emagrecedoras representam um obstáculo potencial ao seu crescimento.
No segmento farmacêutico, a Hypera se destaca como bem posicionada para a era pós-patente do GLP-1. Os analistas veem potencial de valorização de 10% no lucro por ação em 2027, considerando um mercado de genéricos de R$ 8,4 bilhões naquele ano e uma participação de mercado de 15% para a empresa. Mas há ressalvas importantes. Os analistas do Itaú BBA, liderados por Rodrigo Gastim, Vinicius Figueiredo e Gustavo Troyano, alertam que a Hypera precisará fazer investimentos significativos em representantes, conferências e consultas médicas enquanto acelera o produto — e ainda há incertezas sobre o nível de concorrência e o impacto real na lucratividade.
O que torna essas projeções particularmente interessantes é a ressalva que os próprios analistas fazem: apesar da forte expectativa de crescimento da demanda por GLP-1, essas categorias de alimentos e bebidas estão atualmente excessivamente penetradas no mercado brasileiro. Com 5 milhões de usuários em uma população de 220 milhões, o impacto nos lucros consolidados ainda será limitado por enquanto. O medicamento está remodelando silenciosamente parte do cenário da saúde, mas o efeito dominó no consumo de alimentos ainda está em seus estágios iniciais. O que se desenha é um mercado em transição, onde os próximos dois anos determinarão quais empresas conseguem se adaptar e quais ficarão para trás.
Notable Quotes
O Brasil está prestes a se tornar um mercado global chave para GLP-1, com alta prevalência de obesidade amplificada por fatores culturais que valorizam profundamente a estética— Analistas do Itaú BBA liderados por Rodrigo Gastim, Vinicius Figueiredo e Gustavo Troyano
Ainda há incertezas sobre o nível de concorrência e o impacto desse medicamento na lucratividade, já que a empresa precisará fazer investimentos significativos— Analistas do Itaú BBA sobre os desafios da Hypera
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o Brasil se torna tão atrativo para esse mercado de GLP-1 em comparação com outros países?
A combinação é quase perfeita para uma explosão de demanda. Você tem uma população onde 70% está acima do peso, mas também tem uma cultura que valoriza muito a aparência física. Somos o segundo maior mercado de procedimentos estéticos do mundo. Isso significa que as pessoas estão dispostas a investir em soluções para mudar o corpo.
E as farmácias ganham dinheiro com isso de forma direta, certo?
Exatamente. Hoje, GLP-1 representa 8% a 9% das receitas das grandes redes. Em 2030, pode chegar a 20%. Isso é uma transformação enorme em um negócio que já é lucrativo. Uma valorização de 12% a 15% por ação é conservadora considerando essa mudança.
Mas há perdedores óbvios — as empresas de alimentos calóricos e bebidas alcoólicas. Como elas estão reagindo?
O Assaí já admitiu publicamente que vê isso como um risco. E com razão. Se alguém reduz a ingestão calórica em 40%, chips e refrigerante são os primeiros a sair. Ambev, Camil, M. Dias — todas enfrentarão pressão. Os analistas estimam queda de 2% nos resultados em 2027.
Proteína sai ganhando nesse cenário?
Sim, porque os pacientes precisam compensar a redução calórica mantendo a massa muscular. Proteína deixa de ser um nicho e vira necessidade. É uma mudança estrutural no padrão de consumo.
A Hypera parece bem posicionada. Há risco real ali?
Há. Quando a patente cair, genéricos vão inundar o mercado. Hypera pode ganhar 15% de market share em um mercado de R$ 8,4 bilhões, mas vai precisar investir pesadamente em representantes e relacionamento médico. A concorrência será feroz e a lucratividade pode sofrer.
Então esse boom ainda está no começo?
Muito no começo. 5,5 milhões de usuários em 220 milhões de habitantes é apenas 2,5%. O impacto real nos lucros consolidados ainda é limitado. O que estamos vendo agora é o mercado se reorganizando silenciosamente. Os próximos dois anos vão determinar quem prospera e quem fica para trás.