Não somos sua colônia ou seu quintal
Fed menciona pela primeira vez desde julho de 2021 riscos de criptoativos para estabilidade financeira, citando crescimento rápido e plataformas descentralizadas. Aumento de juros americanos torna títulos do tesouro mais atrativos, reduzindo apetite por ativos de risco como criptomoedas e afetando correlação com Nasdaq.
- Bitcoin recuou 1,7% para US$ 43.292 após divulgação da ata do Fomc
- Fed mencionou pela primeira vez desde julho de 2021 riscos de criptoativos para estabilidade financeira
- Analistas projetam possível queda até US$ 38.734 se Bitcoin cair abaixo de US$ 41.575
- Senadores americanos apresentaram projeto de lei para aumentar supervisão sobre transferências para El Salvador
Bitcoin recua 1,7% para US$ 43.292 após divulgação de ata do Fed indicando aumento de juros e preocupações com estabilidade financeira das criptomoedas. Analistas apontam possível queda até US$ 38 mil se suporte técnico não resistir.
Na manhã de quinta-feira, 17 de fevereiro, o Bitcoin abria em queda. Não era uma desabada — apenas 1,7% — mas o movimento refletia algo maior: investidores processando notícias que sugeriam tempos mais duros pela frente. O Ethereum caía 2%, a US$ 3.071. Os números eram concretos, mas o que realmente pesava era o que havia sido dito.
A ata do Fomc, divulgada na véspera, deixava claro que o Federal Reserve estava pronto para começar a subir as taxas de juros americanas e reduzir seu balanço patrimonial — movimentos clássicos para combater inflação, mas que historicamente fazem investidores fugirem de ativos arriscados. Mais significativo ainda: era a primeira vez desde julho de 2021 que autoridades do Fed comentavam publicamente sobre criptomoedas. O tom não era amigável. O documento apontava "riscos emergentes para a estabilidade financeira associados ao rápido crescimento de criptoativos e plataformas financeiras descentralizadas". As stablecoins — aqueles ativos digitais atrelados ao dólar — também foram mencionadas como "outra vulnerabilidade nos mercados de financiamento".
O mecanismo era simples e bem conhecido. Quando juros sobem, títulos do tesouro americano ficam mais atraentes. Capital que estava em ativos de risco — como criptomoedas — migra para esses títulos. É drenagem de liquidez. Além disso, havia a questão geopolítica: a possibilidade de invasão da Ucrânia pela Rússia mantinha investidores em alerta. As criptomoedas se movem junto com as bolsas americanas, especialmente a Nasdaq. Uma escalada no conflito poderia apertar ainda mais o cerco.
Os analistas não eram alarmistas, mas tampouco otimistas. Craig Erlam, analista sênior da Oanda, escreveu que o Bitcoin havia se saído bem ao resistir à tempestade geopolítica e se beneficiar de uma melhora no apetite ao risco na terça-feira. Mas ele advertiu: o apetite ao risco continuava no radar como obstáculo. A inflação americana seguia preocupante, e a possibilidade de juros mais altos era real.
Mark Newton, estrategista técnico da FundStrat, oferecia um cenário técnico específico. Se o Bitcoin caísse abaixo de US$ 41.575, o rali seria adiado e a queda poderia chegar a US$ 38.734 ou até US$ 37.711. Mesmo assim, havia sinais de resiliência. Os analistas sugeriam que a queda seria menor do que a vista em janeiro — quando o mercado havia sofrido muito mais.
Entre as altcoins, o desempenho era misto mas contido. A Arweave, que oferece serviço de armazenamento descentralizado, liderava as perdas com queda de 7,2%. Theta Network, Gala, Axie Infinity e The Sandbox registravam perdas em torno de 5%. Na ponta positiva, a Dash subia 6,5% — movimento curioso que parecia estar ligado a um salto de 30% nas ações da DoorDash, empresa que compartilhava o mesmo ticker na bolsa de Nova York.
Mas havia outra frente de pressão sobre as criptomoedas naquele dia. Um grupo de senadores americanos havia apresentado um projeto de lei visando aumentar a supervisão do Departamento de Estado sobre transferências de dólares para El Salvador. A preocupação era clara: a adoção do Bitcoin como moeda oficial no país latino abriria portas para lavagem de dinheiro por cartéis, argumentavam os congressistas. O senador Bill Cassidy, um dos autores, afirmou que se os EUA desejavam combater a lavagem de dinheiro e preservar o papel do dólar como moeda de reserva mundial, precisavam enfrentar a questão de frente. O projeto exigiria relatórios sobre fluxo de remessas, esforços contra atividades ilícitas transnacionais e o potencial de redução do uso do dólar em El Salvador.
Nayib Bukele, presidente de El Salvador, respondeu via Twitter com tom irônico: "OK boomers... Vocês não têm jurisdição sobre uma nação soberana e independente. Não somos sua colônia ou seu quintal. Fiquem fora de nossos assuntos internos." Era um confronto entre a soberania de um pequeno país e a pressão de uma potência maior — e o Bitcoin estava no centro da disputa.
Notable Quotes
O Bitcoin continua muito saudável depois de resistir à tempestade geopolítica bem antes de se beneficiar da melhora no apetite ao risco— Craig Erlam, analista sênior de mercado da Oanda
Se os Estados Unidos desejam combater a lavagem de dinheiro e preservar o papel do dólar como moeda de reserva do mundo, devemos enfrentar essa questão de frente— Senador Bill Cassidy
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o Fed mencionando criptomoedas pela primeira vez em meses importa tanto?
Porque até então era como se o Fed fingisse que o mercado cripto não existia. Agora, ao nomear explicitamente os riscos, o Fed está sinalizando que está observando, que está preocupado. Isso muda a percepção de risco dos investidores.
E a conexão entre juros mais altos e queda de criptomoedas — é automática?
Não é automática, mas é muito forte. Quando juros sobem, títulos do tesouro ficam mais atraentes. É capital que sai de ativos arriscados. Criptomoedas são o ativo de risco por excelência.
Os analistas parecem dizer que desta vez será diferente — que não cairá tanto quanto em janeiro.
Sim. Há sinais de resiliência. O Bitcoin resistiu bem à tempestade geopolítica. Isso sugere que o mercado está mais maduro, menos propenso a pânicos extremos. Mas resiliência não é imunidade.
E El Salvador nesse meio? Por que os senadores americanos estão tão preocupados?
Porque El Salvador foi o primeiro país a adotar Bitcoin como moeda oficial. Se funcionar, outros podem seguir. Isso ameaça o domínio do dólar. E há o medo legítimo de lavagem de dinheiro — transferências internacionais ficam mais difíceis de rastrear.
Bukele parece não estar disposto a ceder.
Não está. Ele vê isso como imperialismo financeiro. Um país pequeno tentando afirmar soberania contra a pressão de Washington. É um confronto ideológico, não apenas técnico.