Cientistas identificaram sertralina e outros antidepressivos no tecido cerebral…
No litoral do Rio de Janeiro, tubarões-martelo — já à beira da extinção — carregam agora em seus cérebros o rastro químico do sofrimento humano: a sertralina, antidepressivo mais prescrito no Brasil, foi encontrada no tecido cerebral desses animais capturados acidentalmente desde 2018. O caminho percorrido pela substância — do comprimido ao esgoto não tratado, do emissário submarino ao oceano — revela uma cadeia invisível que conecta a saúde mental das cidades à neuroquímica dos predadores marinhos. É um espelho perturbador: os remédios que equilibram mentes humanas podem estar desequilibrando os guardiões silenciosos dos ecossistemas costeiros.
- Pesquisadores da UFRJ confirmaram a presença de sertralina no cérebro de tubarões-martelo, espécie criticamente ameaçada, monitorados na costa fluminense desde 2018.
- Com apenas 47% do esgoto fluminense tratado adequadamente, fármacos como antidepressivos chegam intactos ao oceano por emissários submarinos que as estações convencionais não conseguem filtrar.
- Estudos laboratoriais já demonstram que a sertralina altera o comportamento de peixes, e a exposição crônica de tubarões em zonas altamente poluídas levanta alarmes sobre mudanças neurológicas ainda não mapeadas.
- A contaminação ameaça não apenas os tubarões em si, mas o papel regulador que exercem na cadeia trófica marinha — um colapso em cascata que pode afetar todo o ecossistema costeiro.
Desde 2018, tubarões-martelo capturados acidentalmente em redes de pesca no litoral do Rio de Janeiro vêm sendo monitorados por cientistas da UFRJ. O que os pesquisadores Mariana Batha Alonso e Leonardo Vazquez encontraram ao analisar o tecido cerebral desses animais foi inesperado e perturbador: sertralina, o antidepressivo mais prescrito no Brasil, estava presente nos cérebros dos tubarões.
O trajeto da substância até o oceano passa por uma falha estrutural grave: apenas 47% do esgoto fluminense recebe tratamento adequado. Os fármacos excretados pelo organismo humano — ou simplesmente descartados — atravessam as estações de tratamento convencionais sem ser removidos e chegam ao mar por meio de emissários submarinos, dispersando-se nas águas costeiras onde esses tubarões habitam.
A preocupação vai além da presença do composto. Experimentos em laboratório já demonstraram que a sertralina é capaz de alterar o comportamento de peixes. Para tubarões-martelo cronicamente expostos em zonas de alta poluição, os efeitos sobre a neuroquímica e o comportamento ainda são desconhecidos — mas o risco é real. Trata-se de uma espécie criticamente ameaçada de extinção, cujo papel como regulador da cadeia trófica marinha é insubstituível.
O estudo, publicado na plataforma The Conversation Brasil, lança luz sobre uma conexão incômoda: a crise de saúde mental humana e o colapso da biodiversidade marinha podem estar quimicamente entrelaçados, unidos pelo fio invisível de um esgoto que o Rio de Janeiro ainda não aprendeu a tratar.
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*O artigo foi escrito pela professora Mariana Batha Alonso, adjunta do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ; e pelo pesquisador Leonardo Vazquez, (UFRJ); e publicado na plataforma The Conversation Brasil. A sertralina é o ant…
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Biólogos encontram antidepressivo sertralina no cérebro de tubarões.
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