Transformou um cemitério digital em negócio bilionário
Fundada com US$ 40 mil após fracasso anterior, a Bending Spoons fez 50 aquisições e virou uma das maiores estreias de tecnologia de 2026 com ações subindo 40% no primeiro dia. O modelo compra empresas maduras com dívida, corta custos, reescreve tecnologia e mantém os negócios para lucrar, diferente de fundos de private equity que revendem após reestruturação.
- Fundada com US$ 40 mil em 2013 após fracasso anterior
- 50 aquisições realizadas, incluindo Evernote, AOL, Vimeo e Eventbrite
- Estreia na Nasdaq em 1º de julho com avaliação de US$ 25 bilhões (R$ 130 bilhões)
- Ações subiram 40% no primeiro dia de negociação
- Dívida de US$ 4,4 bilhões e 700 funcionários chamados de "Spooners"
Empresa italiana Bending Spoons estreia na Nasdaq com avaliação de US$ 25 bilhões após comprar e revitalizar marcas esquecidas da internet como Evernote, AOL e Vimeo, transformando um modelo de aquisição em negócio bilionário.
Na terça-feira, 1º de julho, as ações da Bending Spoons abriram na Nasdaq sob o código BSP e subiram 40% no primeiro pregão, fechando a 40,5 dólares. A avaliação da empresa italiana chegou a cerca de 25 bilhões de dólares — aproximadamente 130 bilhões de reais — em uma das maiores estreias de tecnologia do ano. A oferta pública levantou 1,68 bilhão de dólares e transformou o fundador Luca Ferrari e seus três sócios em bilionários. Mas a história dessa companhia não começou em um escritório de luxo do Vale do Silício. Começou com um fracasso.
Em 2013, Ferrari, Matteo Danieli e Francesco Patarnello se conheceram na faculdade de engenharia e criaram um aplicativo de diário chamado Evertale durante uma viagem pela Indonésia. O negócio levantou 1 milhão de dólares, mas quebrou em menos de três anos. Restaram 40 mil dólares, dois funcionários talentosos e a disposição de tentar novamente. O nome da nova empresa veio de uma sugestão de Danieli, inspirada no filme Matrix: Bending Spoons, algo como "entortando colheres", em referência à ideia de que a mente pode dobrar as regras aparentes da realidade.
O que Ferrari e seus sócios perceberam era simples, mas poderoso: a internet estava cheia de marcas que um dia dominaram — AOL, Vimeo, Evernote — e depois caíram no esquecimento. Essas empresas costumavam ser abandonadas ou vendidas por uma fração de seu valor anterior. A Bending Spoons desenvolveu um modelo para transformar esse cemitério digital em ouro. Comprava negócios maduros, quase sempre carregados de dívida, cortava custos drasticamente, reescrevia a tecnologia do zero e acelerava o crescimento. Diferentemente de fundos de private equity, que compram, reestrutura e revendem, a Bending Spoons ficava com os negócios e vivia do lucro que geravam.
O momento que colocou a empresa no mapa chegou em 2023, quando comprou o Evernote. O aplicativo de anotações tinha sido febre na internet e depois entrou em crise após sucessivas trocas de liderança. A aquisição gerou polêmica imediata: os novos donos demitiram centenas de funcionários, incluindo toda a equipe nos Estados Unidos, aumentaram preços e retiraram recursos que usuários antigos adoravam. Ainda assim, Ferrari aponta o Evernote como a principal aquisição da empresa. Segundo ele, o aplicativo é hoje quase um negócio inteiramente novo, com fundações tecnológicas praticamente reescritas e novos registros de usuários em alta após anos de queda. Depois vieram Eventbrite, AOL, Vimeo, WeTransfer e outras marcas conhecidas — mais de 50 negócios adquiridos no total.
O funcionamento dessa máquina depende de um grupo de cerca de 700 jovens que a companhia chama de "Spooners", contratados para substituir as equipes demitidas e injetar vida nos negócios comprados. A seleção é brutal: no ano passado, menos de 300 foram contratados entre 800 mil candidatos. A empresa paga bem para atrair recém-formados que poderiam seguir para fundos de investimento. A receita por Spooner chegou a 2,57 milhões de dólares no ano passado. Ferrari reconhece que depender de um grupo pequeno de funcionários muito motivados pode acabar limitando as ambições da companhia.
Agora, como empresa aberta, a Bending Spoons enfrenta desafios reais. Carrega cerca de 4,4 bilhões de dólares em passivos, e mais de três quartos de suas aquisições foram fechadas nos últimos três anos — o que deixa em aberto como as diferentes partes do conglomerado vão se comportar no longo prazo. O modelo não é livre de contestação. As aquisições envolvem demissões em massa, e a empresa é criticada pela baixa transparência financeira, o que dificulta analisar como os negócios comprados se comportam depois de absorvidos. Alguns bancos recusaram empréstimos à companhia justamente por essa falta de abertura de dados — um dos fatores que pesaram na decisão de abrir capital.
Há ainda a questão do tamanho. À medida que o conglomerado cresce, fica mais difícil encontrar alvos grandes o suficiente para mover o resultado, e a conta da dívida pesa mais em um ambiente de juros altos. Ferrari afirmou que a empresa mantém uma lista de cerca de 100 alvos a qualquer momento e que, como companhia aberta, passa a ter mais flexibilidade para usar as próprias ações em novas aquisições. A estreia na bolsa deu à Bending Spoons uma nova moeda de troca. Resta saber se o mercado vai continuar recompensando um modelo que aposta em ressuscitar o que a internet deixou para trás.
Citações Notáveis
A empresa procura companhias que ainda guardam um núcleo de qualidade e reconstrói todo o resto para torná-las muito melhores— Luca Ferrari, fundador da Bending Spoons, ao Financial Times
O aplicativo é hoje quase um negócio inteiramente novo, com fundações tecnológicas praticamente reescritas— Luca Ferrari, sobre o Evernote após aquisição
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Como uma empresa consegue virar bilionária comprando negócios que ninguém mais quer?
Porque ninguém mais quer não significa que não tenham valor. O Evernote tinha uma marca forte, milhões de usuários, uma base de clientes. O que faltava era alguém disposto a gastar dinheiro e energia para reconstruir tudo do zero.
Mas por que a Bending Spoons consegue fazer isso melhor que os donos anteriores?
Porque tem um modelo muito específico: corta custos brutalmente, demite a maioria da equipe antiga, traz seus "Spooners" — jovens muito motivados — e reescreve a tecnologia inteira. É desumano em alguns aspectos, mas funciona.
Funciona para quem? Os usuários ganham um produto melhor, mas centenas de pessoas perdem o emprego.
Verdade. O Evernote sozinho viu centenas de funcionários serem demitidos, incluindo toda a equipe dos Estados Unidos. Não é um modelo que se preocupa com o lado humano das aquisições.
Então por que os investidores estão apostando tanto nessa empresa?
Porque o modelo gera lucro. A empresa compra barato, corta custos, e depois vive do fluxo de caixa desses negócios. Não revende. É diferente de private equity. E agora, com ações na Nasdaq, pode usar seus papéis para comprar ainda mais.
Qual é o risco real aqui?
A dívida de 4,4 bilhões de dólares é pesada. Três quartos das aquisições foram nos últimos três anos. Se o mercado desacelerar, se os juros subirem mais, ou se as empresas compradas não gerarem o lucro esperado, tudo desaba. Além disso, depender de 700 pessoas muito motivadas para tocar 50 negócios diferentes é frágil.