A inflação brasileira já mostra aumentos mais generalizados
O BC cortou a Selic de 14,50% para 14,25%, conforme esperado por 94 de 112 instituições financeiras consultadas, em movimento unânime do Copom. Conflitos geopolíticos e sinais mistos sobre desaceleração econômica levam o BC a manter cautela sobre o ritmo e extensão futuros dos cortes de juros.
- Selic reduzida de 14,50% para 14,25% em decisão unânime
- Terceiro corte consecutivo de 0,25 ponto percentual desde março
- 94 de 112 instituições financeiras esperavam esse corte
- Projeções de inflação subiram para 5,3% em 2026 e 4,1% em 2027
- Meta de inflação do BC é 3%, com tolerância entre 1,5% e 4,5%
O Banco Central reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual para 14,25% ao ano em decisão unânime, marcando o terceiro corte consecutivo do ciclo de alívio iniciado em março, mas enfrentando incertezas sobre inflação.
O Banco Central baixou a taxa Selic em um quarto de ponto percentual nesta quarta-feira, levando-a de 14,50% para 14,25% ao ano. A decisão saiu unânime do Comitê de Política Monetária, confirmando o que a maioria dos analistas já esperava. Foi o terceiro corte seguido dessa magnitude desde que o ciclo de flexibilização começou em março, quando a taxa estava em 15%.
Uma pesquisa do Valor Pro com 112 instituições financeiras mostrou que 94 delas apostavam nesse corte de 0,25 ponto percentual. As outras 18 acreditavam que o Banco Central manteria a taxa onde estava. O resultado, portanto, não trouxe surpresas ao mercado. Mas o que vem depois é menos claro. Na reunião anterior, em abril, o BC havia sinalizado que continuaria o processo de "calibração" dos juros, sem porém detalhar o ritmo ou até onde iria.
Essa cautela reflete as incertezas que cercam a economia brasileira e o mundo. A guerra no Oriente Médio criou turbulências nos preços do petróleo e nas expectativas globais. Ao mesmo tempo, o Banco Central enfrenta dúvidas sobre a velocidade com que a atividade econômica brasileira está desacelerando — informação crucial para saber se a inflação vai cair até a meta. Em comunicado oficial, o BC explicou que mantém o compromisso de trazer a inflação para o alvo, mas que o tamanho e a duração dos próximos cortes serão definidos conforme novas informações chegarem.
Em abril, as projeções oficiais do Copom apontavam para uma inflação de 4,6% no fim de 2026 e 3,5% no fim de 2027. O alvo do BC é 3%, com margem de tolerância entre 1,5% e 4,5%. Mas as expectativas do mercado financeiro começaram a subir. Na última pesquisa Focus, encerrada na sexta-feira anterior à decisão, os analistas projetavam 5,3% de inflação para 2026 e 4,1% para 2027. Essa disparada nas projeções reduz significativamente o espaço para novos cortes de juros.
O que acendeu essa luz vermelha foi principalmente o conflito no Irã, que impactou os preços de petróleo globalmente. Mas mesmo com a perspectiva de um cessar-fogo após um acordo preliminar entre Estados Unidos e Irã, os analistas não acreditam que isso mude o jogo para a política de juros no Brasil. A razão é que a inflação brasileira já mostra aumentos mais generalizados entre diferentes grupos de preços, não apenas nos combustíveis. Há também a preocupação com alimentos: a previsão de um El Niño muito forte este ano pode pressionar os preços agrícolas para cima.
Além disso, a atividade econômica brasileira continua resiliente. O governo federal lançou recentemente novos programas de crédito que podem fortalecer ainda mais a demanda. Tudo isso junto — inflação mais difundida, pressão nos alimentos, economia ainda aquecida — reduz o apetite do Banco Central para cortes mais agressivos. Antes dessa decisão de quarta-feira, havia uma corrente considerável de economistas que acreditava que esse corte poderia ser o último de um ciclo muito breve.
Citações Notáveis
A magnitude e a duração do ciclo de calibração serão determinadas ao longo do tempo, à medida que novas informações forem incorporadas— Banco Central, em comunicado oficial
A duração e extensão dos conflitos geopolíticos, assim como sinais mistos sobre o ritmo de desaceleração da atividade econômica, dificultam a identificação de tendências claras— Banco Central, ata do Copom de abril
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que o Banco Central decidiu cortar juros agora, se a inflação está subindo nas projeções?
Porque o corte já estava sinalizado e esperado. O BC está em um ciclo que começou em março, quando a inflação parecia estar caindo. Mas as condições mudaram rapidamente — a guerra no Irã, a resiliência da economia brasileira, as pressões nos alimentos.
Então esse corte pode ser o último?
É possível. Muitos economistas acreditam que sim. As projeções de inflação do mercado subiram para 5,3% em 2026, bem acima da meta de 3%. Isso deixa pouco espaço para mais alívio.
O que muda se a inflação não cair?
Se a inflação não convergir para a meta, o BC pode ter que parar de cortar ou até voltar a subir os juros. É um cenário que ninguém quer, mas está na mesa.
A economia está desacelerando ou não?
Aí está o dilema. Os sinais são mistos. A atividade econômica continua resiliente, mas há sinais de desaceleração. O BC não consegue ler a velocidade com clareza, então age com cautela.
E o acordo de cessar-fogo no Irã, muda algo?
Pode aliviar os preços do petróleo, mas a inflação brasileira já tem outras fontes de pressão. Alimentos, economia aquecida, programas de crédito do governo. O petróleo é apenas uma parte do quebra-cabeça.