Os ataques sistemáticos não eram acidentais, mas planeados com antecedência
No coração do Cáucaso do Sul, um território disputado há décadas volta a sangrar: o Azerbaijão acusa a Arménia de ter bombardeado cidades civis, incluindo Ganja, matando pelo menos vinte e dois civis desde o início dos combates. O conflito em Nagorno-Karabakh — enraizado numa decisão soviética de 1921 e nunca verdadeiramente resolvido — ressurge agora com uma intensidade que o próprio primeiro-ministro arménio reconhece como talvez o momento mais decisivo da história do seu país. Neste espaço onde se cruzam os interesses da Turquia, da Rússia, do Irão e do Ocidente, cada projétil carrega o peso de gerações.
- O Azerbaijão afirma que mais de dez mil projéteis foram disparados contra zonas densamente habitadas, destruindo ou danificando mais de quinhentas casas em cidades como Tartar, Horadiz e Ganja.
- Pelo menos vinte e dois civis perderam a vida desde o início da guerra, com dois novos mortos confirmados em Beylagan num único dia, elevando a pressão humanitária sobre ambos os lados.
- Baku caracteriza os ataques como sistemáticos e premeditados, integrando o programa de prontidão de combate arménio — uma acusação que, se confirmada, aprofunda a gravidade jurídica e moral do conflito.
- As forças azerbaijanas declaram estar a responder de forma 'adequada' para neutralizar postos de fogo inimigos, mas a linha entre operação militar e escalada permanece perigosamente ténue.
- Com a Turquia, a Rússia e o Irão a observarem de perto, e o Grupo de Minsk da OSCE sem conseguir impor uma solução duradoura, o conflito local arrisca transformar-se numa crise de dimensão regional.
Na manhã de 4 de outubro, o governo do Azerbaijão acusou a Arménia de ter lançado ataques coordenados contra alvos civis em várias cidades, incluindo Ganja, a segunda maior do país, além de Tartar, Horadiz e regiões de Fuzuli e Jabrail. O conselheiro presidencial Hikmet Hajiyev afirmou que as forças armadas arménias utilizaram artilharia pesada e sistemas de foguetes, disparando mais de dez mil projéteis contra áreas densamente povoadas e danificando mais de quinhentas casas.
Hajiyev insistiu que os bombardeamentos não eram incidentes isolados, mas parte de um plano preparado com antecedência, sem qualquer justificação militar legítima. Sublinhou a necessidade de respeitar a distinção entre combatentes e civis, enquanto garantia que as forças azerbaijanas agiam de forma adequada para proteger a população. Nesse mesmo dia, a procuradoria-geral confirmou a morte de dois civis adicionais em Beylagan, elevando para vinte e dois o total de mortos civis desde o início da guerra — um número que o primeiro-ministro arménio Nikol Pashinyan enquadrou como parte do que descreveu como talvez o momento mais decisivo da história da Arménia.
O conflito tem raízes profundas: Nagorno-Karabakh, de maioria arménia, foi integrado no Azerbaijão pelas autoridades soviéticas em 1921 e proclamou unilateralmente a independência em 1991, desencadeando uma guerra que matou trinta mil pessoas e deslocou centenas de milhares. O cessar-fogo de 1994 e a mediação do Grupo de Minsk da OSCE nunca produziram uma paz estável — escaramuças continuaram ao longo dos anos, com confrontos mortais em julho de 2020 e em abril de 2016. Hoje, a região permanece um ponto de tensão onde os interesses divergentes da Turquia, da Rússia, do Irão e das potências ocidentais transformam um conflito local numa questão de alcance verdadeiramente internacional.
Na manhã de 4 de outubro, o governo do Azerbaijão acusou a Arménia de ter lançado ataques coordenados contra múltiplos alvos civis, deixando mortos e feridos entre a população. Os ataques visaram as cidades de Tartar, Horadiz e Ganja — a segunda maior cidade do Azerbaijão — além de áreas nas regiões de Fuzuli e Jabrail. Segundo Hikmet Hajiyev, conselheiro da Presidência do Azerbaijão, as forças armadas armênias utilizaram artilharia pesada e sistemas de foguetes para bombardear estas localidades.
Hajiyev apresentou números que ilustram a escala do que Baku descreve como uma campanha de ataques sistemáticos. Nos dias anteriores, alegou, a Arménia tinha disparado mais de dez mil projéteis de vários tipos contra áreas densamente povoadas, destruindo ou danificando mais de quinhentas casas. O conselheiro sublinhou que vários civis morreram ou ficaram feridos nestes bombardeamentos, e insistiu na necessidade de respeitar a distinção entre combatentes e população civil durante o conflito.
O tom das declarações de Hajiyev sugeria convicção de que os ataques não eram incidentes isolados. Caracterizou-os como parte de um plano preparado com antecedência, integrado no programa de prontidão de combate do exército arménio. Segundo esta perspectiva, os bombardeamentos às aldeias do Azerbaijão careciam de qualquer justificação militar legítima. Em resposta, afirmou que as forças armadas do Azerbaijão estavam a agir de forma "adequada" para neutralizar postos de fogo inimigos e proteger a população civil.
A procuradoria-geral do Azerbaijão anunciou nesse mesmo dia a morte de dois civis adicionais na cidade de Beylagan, resultado dos confrontos do dia anterior. Este anúncio elevava para vinte e dois o número total de civis mortos desde o início da guerra. O primeiro-ministro arménio, Nikol Pashinyan, havia descrito o conflito como talvez o momento mais decisivo da história do seu país, reconhecendo a gravidade da situação.
O enclave de Nagorno-Karabakh, onde separatistas apoiados por Erevan enfrentam soldados do Azerbaijão, permanece no centro de um conflito que atravessa décadas. Este território, de maioria arménia, foi integrado administrativamente no Azerbaijão pelas autoridades soviéticas em 1921. Setenta anos depois, em 1991, proclamou unilateralmente a independência com apoio da Arménia. A guerra que se seguiu matou trinta mil pessoas e deslocou centenas de milhares de refugiados, até que um cessar-fogo foi assinado em 1994 e o Grupo de Minsk, constituído no seio da OSCE, ofereceu mediação.
Mas a paz permaneceu frágil. Escaramuças armadas continuaram frequentes ao longo dos anos. Em julho daquele mesmo ano de 2020, os dois países tinham-se envolvido em confrontos de menor escala que causaram cerca de vinte mortos. Os combates mais significativos antes deste período remontavam a abril de 2016, quando cento e dez pessoas morreram. A região do Nagorno-Karabakh, localizada no Cáucaso do Sul, tornou-se um ponto de intersecção de interesses divergentes — a Turquia, a Rússia, o Irão e potências ocidentais mantêm posições distintas sobre o seu futuro. Este contexto geopolítico mais amplo transforma o conflito local numa questão de importância regional e internacional.
Citas Notables
A Arménia lançou foguetes sobre Ganja. As forças armadas armênias atacam deliberadamente as cidades de Tartar e Horadiz com artilharia pesada e sistemas de foguetes.— Hikmet Hajiyev, conselheiro da Presidência do Azerbaijão
O país enfrenta talvez o momento mais decisivo da sua história— Nikol Pashinyan, primeiro-ministro da Arménia
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que é que o Azerbaijão escolheu publicitar estas acusações neste momento específico?
Porque o conflito tinha escalado dramaticamente. Estes ataques não eram escaramuças ocasionais — eram bombardeamentos coordenados contra cidades inteiras. Publicitar as acusações servia para documentar o que Baku considerava violações do direito internacional e para justificar a sua própria resposta militar.
O número de dez mil projéteis parece extraordinariamente elevado. Como se verifica algo assim?
É difícil. Ambos os lados fazem acusações, e a verificação independente em zona de guerra é quase impossível. Mas o número serve um propósito — mostra a intensidade e a premeditação. Se é verdadeiro, revela uma operação massiva. Se é exagerado, revela como os governos usam números para construir narrativas.
Hajiyev insistiu que os ataques eram "sistemáticos" e "planeados com antecedência". Qual é a diferença entre isso e ataques militares normais?
A diferença está na intenção. Ataques militares legítimos visam alvos com valor militar. Ataques sistemáticos contra civis — sem justificação militar — constituem crimes de guerra. Hajiyev estava a tentar estabelir essa distinção para a comunidade internacional.
A Arménia respondeu a estas acusações?
O texto não inclui uma resposta arménia direta. Temos apenas Pashinyan a descrever o conflito como decisivo para a história do país. Ambos os lados fazem acusações semelhantes — é a natureza destes conflitos.
O cessar-fogo de 1994 durou vinte e seis anos. O que o quebrou agora?
O texto não explica o gatilho específico. Mas sugere que a paz nunca foi estável — houve escaramuças contínuas, confrontos em 2016 e 2020. A estrutura subjacente do conflito nunca foi resolvida. Eventualmente, algo cedeu.
Que papel têm a Turquia, a Rússia e o Irão nisto?
O texto menciona que têm interesses divergentes na região, mas não detalha quais são. É importante porque significa que este não é apenas um conflito bilateral — é um proxy para rivalidades regionais maiores. Isso torna uma solução muito mais complexa.