Autista e superdotado, Davi conquista ouro na OBMEP aos 14 anos

Mais do que formar um medalhista, nosso maior desejo é que o Davi continue sendo reconhecido por quem ele é
A mãe de Davi reflete sobre o que realmente importa além da conquista na olimpíada de matemática.

Davi combina Transtorno do Espectro Autista, TDAH e superdotação em matemática, aprendendo a ler sozinho aos 3 anos através de hiperlexia. Sua participação na OBMEP começou naturalmente pelo interesse em padrões e desafios, evoluindo de bronze em 2024 para ouro em 2025.

  • Davi Dalmut, 14 anos, autista com TDAH e superdotação em matemática
  • Aprendeu a ler sozinho aos 3 anos através de hiperlexia
  • Medalha de ouro nacional e regional na OBMEP em 2025, após bronze em 2024
  • Irmão gêmeo Samuel também é autista
  • Participante do Programa de Iniciação Científica Jr. da OBMEP desde fevereiro de 2025

Davi Dalmut, 14 anos, autista com altas habilidades, recebe medalha de ouro nacional e regional na OBMEP. Sua trajetória mostra como acolhimento e oportunidades transformam talentos em conquistas.

Davi Dalmut tem 14 anos, mora em Itapema no litoral catarinense e recebeu nesta terça-feira uma medalha de ouro regional na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas. Mas antes da medalha, existe um adolescente — é assim que sua família prefere começar a história. Davi é autista, tem transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, e possui altas habilidades em matemática. Recebeu o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista com 1 ano e 10 meses. Seu irmão gêmeo, Samuel, também é autista. A família o descreve como tranquilo, observador, organizado, curioso, reservado, educado e dotado de um forte senso de justiça.

O interesse extraordinário por números e letras emergiu cedo. Aos 1 ano e 6 meses, Davi cantava o alfabeto em português e inglês. Por volta dos 3 anos, aprendeu a ler sozinho — um fenômeno chamado hiperlexia. Enquanto outras crianças brincavam com carrinhos, ele se fascinava com letras, números, calendários, placas de rua e tudo que envolvesse padrões. Passava horas montando quebra-cabeças e construindo com peças de LEGO. Os sinais indicavam uma forma muito particular de aprender.

Em 2020, aos 8 anos, uma avaliação neuropsicológica confirmou as altas habilidades e superdotação, com destaque especial para matemática. "O talento já existia. A avaliação apenas ajudou a compreendê-lo", resume a família. Para eles, a matemática nunca foi obrigação — resolver desafios, descobrir padrões e encontrar soluções sempre fizeram parte de como Davi brinca e aprende. Esse interesse natural o levou à OBMEP, e não o contrário.

Sua trajetória na competição se construiu gradualmente. Em 2024, conquistou medalha de bronze nacional e prata regional. Em fevereiro de 2025, ingressou no Programa de Iniciação Científica Jr. da OBMEP, com aulas três sábados por mês. No mesmo ano veio o ouro — nacional e regional. A conquista o levou com a família ao Encontro Nacional dos Medalhistas e à cerimônia de premiação no Rio de Janeiro em junho. Quando perguntado o que a medalha representa, Davi respondeu direto: "Meu amor pela matemática." Para a família, essa resposta resume tudo. Mais que um prêmio, o ouro representa a alegria de aprender, descobrir e resolver desafios.

Mas a matemática é apenas uma parte de quem ele é. Davi gosta de inglês, assiste vídeos no idioma e conversa em inglês com Samuel. É apaixonado por Super Mario, acompanha conteúdos sobre Jesus e compartilha mensagens que o inspiram. Sensível e carinhoso, busca sempre o diálogo, prefere paz aos conflitos e ambientes tranquilos aos lugares movimentados. Sua rotina inclui escola à tarde, o projeto Novos Caminhos, acompanhamento psicológico, natação aos sábados, as aulas do PIC e tempo no computador para estudar, pesquisar e se divertir. Na escola, adaptações como abafadores em ambientes barulhentos e espaços de regulação fazem diferença no seu dia a dia.

A viagem ao Rio trouxe algo inesperado. Foi a primeira vez que Davi participou de um encontro com centenas de adolescentes que compartilhavam o mesmo interesse por matemática. Além da celebração, a experiência trouxe aprendizados sobre autonomia, pertencimento e habilidades sociais. "Percebemos que, mesmo sendo um adolescente autista nível 1 de suporte, ele ainda precisava de apoio em algumas situações para se sentir seguro", conta a família, que passou a compartilhar essas reflexões com outras famílias.

Para a mãe, Josi Dalmut, a medalha significa mais que um resultado em uma olimpíada. Ela demonstra quanto o acolhimento, o incentivo e as oportunidades podem transformar a vida de um adolescente, e como talentos florescem quando cada criança é vista para além do diagnóstico. "Nossa maior preocupação nunca foi colecionar medalhas. Sempre buscamos oferecer oportunidades para que o Davi pudesse desenvolver seus talentos, respeitando seu jeito de ser." O desejo maior é que ele continue conquistando autonomia, fortalecendo suas habilidades sociais e encontrando pessoas que o acolham e valorizem quem ele é. Que sua história inspire outras famílias a acreditarem no potencial de seus filhos. "Mais do que formar um medalhista, nosso maior desejo é que o Davi continue sendo reconhecido por quem ele é."

O talento já existia. A avaliação apenas ajudou a compreendê-lo
— Família de Davi, sobre o diagnóstico de superdotação
Meu amor pela matemática
— Davi Dalmut, quando perguntado o que a medalha representa
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

O que torna essa história diferente de outras sobre crianças superdotadas?

Model

Davi não é apenas um número em uma olimpíada. Ele é autista, tem TDAH, e a família escolheu nunca separar o talento do menino. Eles não o veem como "apesar de autista" — veem como um todo.

Inventor

A hiperlexia aos 3 anos é rara. Como a família percebeu que era algo além do normal?

Model

Não foi um momento de revelação. Foi observação. Ele lia sozinho enquanto outras crianças faziam outras coisas. Mas a família não correu para competições. Deixou o interesse dele guiar.

Inventor

E a viagem ao Rio? Por que isso importou tanto?

Model

Pela primeira vez, Davi estava entre centenas de pessoas que pensavam como ele. Mas também descobriu que precisava de apoio em situações sociais. A família aprendeu tanto quanto ele.

Inventor

A mãe diz que nunca buscaram colecionar medalhas. Isso é raro?

Model

Muito. A maioria das famílias com filhos superdotados quer provas, rankings, validação externa. Aqui, o foco é autonomia, pertencimento, ser visto como pessoa.

Inventor

Qual é o maior medo deles agora?

Model

Não é que ele pare de ganhar medalhas. É que ele encontre seu lugar, pessoas que o acolham, e que continue desenvolvendo quem é — não quem esperam que seja.

Inventor

E se ele não tivesse recebido o diagnóstico de superdotação?

Model

Provavelmente continuaria aprendendo sozinho, mas sem estrutura, sem oportunidades como o PIC. O diagnóstico abriu portas, mas a família é que escolheu como usá-las.

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