Não estamos renunciando ao socialismo, enquanto aprovam seu desmonte
Cuba autoriza desenvolvimento imobiliário privado, transformação de empresas estatais em negócios com ações e entrada de bancos privados no setor financeiro. Pressão extrema das sanções americanas, especialmente bloqueio de petróleo, forçou governo a reconhecer mercado como instrumento eficiente de alocação de recursos.
- 175 medidas aprovadas por unanimidade na quinta-feira
- Primeira vez que empresas podem contratar mais de 100 funcionários
- Propriedades estatais podem ser vendidas a estrangeiros e cubanos no exterior
- Sanções americanas incluíram bloqueio de petróleo de meses
Assembleia Nacional cubana aprova unanimemente 175 medidas de liberalização econômica, permitindo propriedade privada, empresas estatais privatizadas e bancos privados em resposta às sanções dos EUA.
Na quinta-feira à noite, os legisladores cubanos votaram por unanimidade a favor de um pacote de mais de 175 medidas que marcaria a transformação mais profunda da economia da ilha desde a revolução de 1959. O que estava sendo aprovado não era uma reforma marginal, mas uma reconfiguração fundamental: propriedades estatais poderiam ser vendidas a pessoas físicas e jurídicas, nacionais e estrangeiras, inclusive cubanos que vivem no exterior. Empresas estatais se tornariam negócios privados com estrutura acionária. Bancos privados entrariam no setor financeiro, até então domínio exclusivo do Estado. Pela primeira vez, empreendedores poderiam contratar mais de 100 funcionários e possuir múltiplos negócios simultaneamente. O desenvolvimento imobiliário privado, congelado há décadas, seria liberado.
O presidente Miguel Díaz-Canel discursou pouco antes da votação pedindo aos legisladores que mantivessem a confiança no passado socialista de Cuba, mesmo enquanto aprovavam medidas que o desmontavam. "O que está sendo debatido aqui é o dilema de como continuar o processo de construção socialista, que sofreu o bloqueio mais longo da história imposto pela maior potência do mundo", disse ele, referindo-se às sanções americanas. "Não estamos renunciando ao socialismo." O primeiro-ministro Manuel Marrero foi mais direto: apresentou o mercado como "um instrumento para a alocação eficiente de recursos", uma concessão extraordinária vinda de um dirigente do Partido Comunista cubano. Ainda assim, enquadrou as mudanças como compatíveis com as raízes socialistas da ilha, argumentando que a atualização do modelo econômico tinha como objetivo "melhorar a qualidade de vida de nossos compatriotas".
O contexto que levou a essa aprovação unânime é a pressão econômica extrema. A economia estatal cubana, burocrática e ineficiente, vinha enfrentando dificuldades crescentes desde o colapso da União Soviética, que havia sustentado o modelo socialista cubano por décadas. Mas foram as sanções impostas pelo governo de Donald Trump que tornaram a situação insustentável: bloqueios de petróleo que duraram meses, saída de empresas estrangeiras, destruição da indústria do turismo. Cuba ficou sem margem de manobra.
Raúl Castro, o histórico líder do Partido Comunista que agora enfrenta acusações de homicídio nos EUA, apoiou fortemente as medidas em uma carta apresentada primeiro ao politburo na quarta-feira e depois aos legisladores. Ele as classificou como "benéficas" e defendeu sua implementação rápida — uma posição que reverte muitas das reformas socialistas que ele próprio havia implementado após a revolução de 1959 ao lado de seu irmão Fidel.
Díaz-Canel insistiu que a decisão de abrir a economia não estava relacionada a negociações com os Estados Unidos, que haviam começado no início do ano mas aparentemente estagnaram. O Departamento de Estado americano não respondeu imediatamente a pedidos de comentário. A questão que permanecia em aberto era como e quando essas 175 medidas seriam implementadas. O discurso de Marrero delineou alguns mecanismos — um sistema bancário privado supervisionado pelo Estado, um mercado cambial digital em tempo real com agentes autorizados — mas muitas questões críticas sobre cronograma e alcance da transformação ficaram sem resposta após a votação legislativa.
Citas Notables
O que está sendo debatido aqui é o dilema de como continuar o processo de construção socialista, que sofreu o bloqueio mais longo da história— Miguel Díaz-Canel, presidente de Cuba
A atualização do modelo econômico e social tem como objetivo essencial melhorar a qualidade de vida de nossos compatriotas— Manuel Marrero, primeiro-ministro de Cuba
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que Cuba decidiu fazer isso agora, depois de mais de 60 anos mantendo o modelo socialista?
A pressão foi simplesmente insuportável. Sem petróleo, sem turismo, sem a União Soviética para sustentar o sistema. O Estado não conseguia mais fornecer o básico.
Mas Díaz-Canel disse que não estão renunciando ao socialismo. Como privatizar a economia é compatível com isso?
É uma contradição que eles estão tentando gerenciar. Eles falam em "atualizar" o modelo, em usar o mercado como ferramenta. Mas sim, é uma reversão fundamental.
Raúl Castro apoiou isso? O homem que fez a revolução?
Ele apoiou, sim. Classificou como benéfico. Talvez ele veja que o sistema que construiu não consegue mais se sustentar sem mudanças radicais.
E quanto aos cubanos comuns? Isso vai melhorar a vida deles?
Teoricamente, sim — é o que o governo promete. Mais eficiência, mais oportunidades de negócio, mais capital circulando. Mas a implementação é incerta. Ninguém sabe ainda como isso vai funcionar na prática.
Os EUA vão relaxar as sanções agora?
Não está claro. Díaz-Canel disse que as negociações tinham estagnado. O governo americano não comentou. Pode ser que Cuba tenha feito isso porque não tinha escolha, não porque esperava reciprocidade.