Marielle virou semente. Estamos aqui cumprindo sua agenda.
Três anos após o assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes, o estado do Ceará decidiu inscrever o dia 14 de março em seu calendário oficial — não como feriado, mas como convocação. A Assembleia Legislativa aprovou por unanimidade, em maio de 2021, o 'Dia Marielle Franco de Enfrentamento à Violência Política contra Mulheres', reconhecendo que a morte de uma mulher negra, periférica e eleita não foi um crime isolado, mas o sinal visível de uma violência estrutural que persiste nos corredores do poder. O gesto legislativo transforma luto em agenda e memória em instrumento de mudança.
- O assassinato de Marielle Franco em 2018 permanece como ferida aberta: três anos depois, o crime ainda ressoa como símbolo da violência que silencia mulheres na política brasileira.
- A aprovação unânime do projeto no Ceará revela uma convergência rara entre partidos distintos — Psol, PCdoB, PDT e PT — em torno de um tema que transcende disputas eleitorais.
- O projeto não se limita à homenagem: exige que escolas, universidades e espaços públicos realizem atividades educativas sobre violência política contra mulheres, tornando a data um instrumento pedagógico.
- A deputada Augusta Brito nomeou o que muitas vezes fica implícito: a violência não é só o tiro, mas o silenciamento cotidiano que mulheres enfrentam dentro do próprio Legislativo.
- O Ceará passa a reconhecer oficialmente que a morte de Marielle não foi acidente nem exceção, mas parte de um padrão que precisa ser nomeado e enfrentado pelo Estado.
Em 13 de maio de 2021, a Assembleia Legislativa do Ceará aprovou o Projeto de Lei 88/2021, que institui o 'Dia Marielle Franco de Enfrentamento à Violência Política contra Mulheres' no dia 14 de março — data em que a vereadora carioca e seu motorista Anderson Gomes foram assassinados em 2018. A aprovação foi unânime entre os autores e reuniu parlamentares de diferentes partidos, refletindo uma convergência incomum em torno de um tema que ultrapassa fronteiras ideológicas.
A iniciativa partiu do deputado Renato Roseno, do Psol, com apoio de Augusta Brito, Romeu Aldigueri, Salmito Filho e Elmano Freitas. Roseno resumiu o espírito do projeto com uma frase que circula entre os que mantêm viva a memória de Marielle: 'Marielle virou semente.' Para ele, transformar o assassinato em combustível para mudança — em vez de deixá-lo virar apenas luto — é o que justifica a lei.
Na prática, o projeto cria obrigação institucional: escolas, universidades, praças e equipamentos públicos deverão realizar seminários, palestras e atividades educativas sobre Marielle Franco e sobre a violência política que atinge mulheres, especialmente as negras, periféricas, LGBTs e mães solteiras. Não é apenas homenagem — é convocação para uma conversa estruturada sobre quem tem acesso ao poder e quem é eliminado quando ameaça a ordem.
A deputada Augusta Brito foi direta sobre o que está em jogo: a violência não se resume ao crime de 2018, mas acontece 'toda hora, no dia a dia, no Legislativo' — no silenciamento, na intimidação, na exclusão. Ao inscrever o 14 de março no calendário oficial, o Ceará reconhece publicamente que a morte de Marielle e Anderson não foi um episódio isolado, mas parte de um padrão que o Estado tem a responsabilidade de nomear, estudar e enfrentar.
Em 13 de maio de 2021, a Assembleia Legislativa do Ceará votou a favor de um projeto que transformaria o dia 14 de março em data oficial de memória e reflexão. Não se trata de mais um feriado esquecido nos calendários. Trata-se de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro assassinada a tiros em 2018 junto com seu motorista Anderson Gomes, e da decisão de usar seu nome como ponto de partida para uma conversa pública sobre violência política contra mulheres.
O Projeto de Lei 88/2021, aprovado naquela quinta-feira, institui o "Dia Marielle Franco de Enfrentamento à Violência Política contra Mulheres" no calendário oficial do estado. A iniciativa partiu do deputado Renato Roseno, do Psol, com apoio de parlamentares de diferentes legendas: Augusta Brito do PCdoB, Romeu Aldigueri e Salmito Filho do PDT, e Elmano Freitas do PT. A aprovação foi unânime entre os autores, refletindo uma convergência rara em torno de um tema que transcende divisões partidárias.
O que o projeto propõe, na prática, é criar espaço institucional para que escolas, universidades, praças e equipamentos públicos realizem seminários, palestras e atividades educativas sobre Marielle Franco e sobre a realidade da violência política que atinge mulheres. Não é apenas homenagem. É convocação. O documento que justifica a lei coloca no centro da questão algo que o assassinato de Marielle tornou inescapável: a luta pela visibilidade e representatividade de mulheres nos espaços de poder, especialmente aquelas vindas das periferias, mulheres negras, LGBTs, mães solteiras, pessoas dos setores mais explorados e oprimidos da sociedade.
Renato Roseno, ao comentar a aprovação, usou uma imagem que circula entre os que mantêm viva a memória de Marielle. "Marielle virou semente", disse. Ele apontou que várias casas parlamentares já haviam abraçado essa agenda em defesa das mulheres e de sua participação política, cumprindo assim uma agenda que a própria irmã de Marielle havia instituído. A frase resume uma estratégia: transformar um assassinato em combustível para mudança, em vez de deixá-lo virar apenas luto.
A deputada Augusta Brito, co-autora do projeto, foi mais direta sobre o que está em jogo. Ela reconheceu a tristeza de viver em um país onde a violência política chega ao ponto de tirar vidas por razões que estão "visivelmente na nossa frente": ser mulher, ser negra, defender direitos. Mas também apontou para algo que o projeto tenta enfrentar: a violência cotidiana, aquela que acontece "toda hora, no dia a dia, no Legislativo". Não apenas a morte, mas o silenciamento, a intimidação, a exclusão que mulheres enfrentam quando tentam participar da política. Brito insistiu que não se pode ficar em silêncio diante desse "trágico homicídio", e que a aprovação da lei oferece inspiração para não desanimar diante das dificuldades.
O que torna esse projeto significativo é que ele não trata Marielle como figura isolada ou como símbolo abstrato. Ele a coloca como ponto de entrada para uma conversa estruturada sobre quem tem acesso ao poder político, quem é ouvido, quem é eliminado quando ameaça a ordem. A data de 14 de março, agora oficial no Ceará, marca não apenas o dia em que Marielle e Anderson Gomes foram mortos, mas também o dia em que o estado reconhece publicamente que essa morte não foi um crime isolado, mas parte de um padrão de violência que precisa ser nomeado, estudado e enfrentado.
Citas Notables
Marielle virou semente. Estamos aqui hoje cumprindo a agenda de Marielle Franco que foi instituída por sua irmã.— Deputado Renato Roseno (Psol)
É triste a gente saber que esse tipo de violência chega ao nível de tirar a vida por questões visivelmente na nossa frente, por ser mulher, negra e defender os direitos.— Deputada Augusta Brito (PCdoB)
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que um estado como o Ceará escolheu homenagear uma vereadora do Rio de Janeiro? Qual é a conexão?
Marielle não é apenas do Rio. Ela representa algo que mulheres em toda parte enfrentam quando entram na política. O Ceará aprova isso porque sabe que a violência política contra mulheres é um problema nacional, não local.
Mas criar um dia no calendário muda algo na prática? Ou é apenas simbólico?
É simbólico, sim, mas o símbolo tem peso. O projeto prevê seminários, palestras nas escolas e universidades. Isso significa que gerações de jovens vão aprender sobre Marielle, sobre por que ela foi morta, sobre o que significa ser mulher negra na política.
A deputada Augusta Brito mencionou violência "toda hora, no dia a dia, no Legislativo". Que tipo de violência ela estava descrevendo?
Não apenas ameaças de morte. Também silenciamento, exclusão de debates, descrédito sistemático. Mulheres que tentam falar sobre direitos de periféricos, de negros, de LGBTs enfrentam pressão constante. Marielle foi além do limite que alguns acham aceitável.
O projeto teve apoio de deputados de vários partidos. Isso é incomum?
Muito. Quando você consegue convergência entre Psol, PCdoB, PDT e PT em torno de algo, significa que o tema transcende divisão ideológica. Ninguém quer ser o partido que votou contra homenagear uma mulher assassinada por sua política.
E a irmã de Marielle, que instituiu essa agenda — ela estava envolvida nessa aprovação?
Não aparece nos registros dessa votação específica, mas a agenda que ela criou é o que os deputados estão cumprindo. É como se a morte de Marielle tivesse gerado uma responsabilidade que atravessa as casas legislativas do país.