O mercado está precificando uma possível vitória de Bolsonaro
Num momento em que o Brasil aguarda, com contenção e ansiedade, o desfecho de uma disputa presidencial histórica, o Ibovespa encerrou sua quarta sessão consecutiva em alta, subindo 0,77% e acumulando quase 5% na semana. O mercado financeiro, descolado do pessimismo americano, revelou suas preferências através das ações que mais subiram — Banco do Brasil e Petrobras —, empresas cujo destino está intimamente ligado às escolhas de política econômica do próximo governo. É o capital votando antes das urnas, à sua maneira silenciosa e precisa.
- A aproximação de Bolsonaro a Lula nas pesquisas — 45% contra 49% — acendeu o otimismo do mercado, que ainda lembra que as sondagens subestimaram o presidente no primeiro turno.
- Banco do Brasil disparou 4,68% e Petrobras avançou 2,96%, sinalizando que os investidores estão precificando um cenário de menor intervenção estatal e maior abertura a privatizações.
- A incerteza sobre o programa econômico de Lula e a ausência de um nome definido para o Ministério da Fazenda mantêm o desconforto, mesmo com apoios ilustres como Armínio Fraga e Pedro Malan.
- Analistas do JPMorgan apontam que crescimento econômico e possível queda da Selic em 2023 sustentam uma visão positiva para a bolsa independentemente do vencedor, mas não descartam turbulências.
- Enquanto Wall Street fechou no vermelho pressionada pelo Federal Reserve, o Ibovespa operou em sentido contrário, evidenciando que a narrativa local domina o humor dos investidores brasileiros.
- No varejo, Americanas despencou 13,77% e Via caiu 7,06%, contrastando com o otimismo geral e lembrando que nem todos os setores navegam na mesma maré.
A bolsa brasileira encerrou a quinta-feira em alta pelo quarto pregão seguido, subindo 0,77% e chegando a 117.171 pontos, com volume financeiro de 37 bilhões de reais. O desempenho acumulado na semana chegou a 4,55%, num movimento que ignorou o tom negativo de Wall Street e encontrou combustível próprio na política interna.
O gatilho foi a nova pesquisa Datafolha, divulgada na véspera, que mostrou Lula estável em 49% e Bolsonaro subindo para 45% no segundo turno — uma diferença que, somada à memória do primeiro turno, quando as pesquisas subestimaram o presidente, alimentou o otimismo da campanha bolsonarista e dos mercados. Banco do Brasil e Petrobras lideraram os ganhos, e analistas como Leonardo Santana, da Top Gain, foram diretos: o desempenho dessas duas ações específicas revela que o mercado está apostando numa vitória de Bolsonaro, cuja agenda econômica — com menos Estado e mais privatizações — é vista com mais simpatia pelo setor financeiro.
Do lado de Lula, nomes respeitados como Armínio Fraga e Pedro Malan emprestaram seu prestígio à candidatura, mas a falta de clareza sobre o programa econômico e sobre quem comandaria o Ministério da Fazenda segue gerando desconforto. O JPMorgan descreveu a questão como um grande enigma em relatório a clientes. Ainda assim, os mesmos estrategistas reconhecem que fundamentos como crescimento econômico e a perspectiva de queda da Selic em 2023 oferecem uma base positiva para a bolsa, qualquer que seja o resultado das urnas.
No detalhe dos setores, o otimismo não foi uniforme. O segmento bancário brilhou — Itaú renovou máximas históricas e Bradesco avançou — e a mineração acompanhou, com CSN, Usiminas e Gerdau no campo positivo. No sentido oposto, o varejo sofreu: Americanas desabou 13,77%, Via caiu mais de 7% e o índice de consumo da B3 fechou em queda. A B3 em si recuou 1,75% após rebaixamento de recomendação pelo Safra. O mercado, como sempre, não vota em bloco — ele distribui suas apostas, setor a setor, ação a ação.
A bolsa brasileira fechou em alta pela quarta sessão consecutiva nesta quinta-feira, operando desacoplada do mercado americano e impulsionada por apostas sobre o resultado das eleições presidenciais. O Ibovespa subiu 0,77%, atingindo 117.171,11 pontos, e acumulou ganho de 4,55% na semana, com volume financeiro de 37 bilhões de reais no pregão. Banco do Brasil e Petrobras lideraram os ganhos, sinalizando para onde flui o otimismo dos investidores.
O movimento reflete a reação do mercado aos números mais recentes da disputa eleitoral. Pesquisa Datafolha divulgada no final da quarta-feira mostrou Lula estável em 49% das intenções de voto no segundo turno, enquanto Bolsonaro subiu um ponto percentual para 45%, aproximando-se do limite do empate técnico. Outros levantamentos apontam a mesma tendência, alimentando o otimismo da campanha bolsonarista — especialmente porque no primeiro turno as principais pesquisas subestimaram os votos do presidente.
Para analistas, o desempenho particular de Petrobras e Banco do Brasil deixa claro que o mercado está precificando uma possível vitória de Bolsonaro. Leonardo Santana, da Top Gain, observa que embora existam outros componentes econômicos apoiando o melhor desempenho do Ibovespa em relação ao exterior, a força dessas duas ações em específico revela o peso do cenário eleitoral nas decisões de investimento. Não é segredo que o mercado financeiro prefere o perfil econômico do governo Bolsonaro — menor presença estatal, maior abertura a privatizações e uma perspectiva fiscal mais alinhada aos interesses do setor.
Lula recebeu apoio de nomes respeitados no mercado, como Armínio Fraga, Edmar Bacha, Pedro Malan e Pérsio Arida, mas a falta de detalhamento sobre seu posicionamento econômico e a indefinição sobre quem será seu ministro da Fazenda geram desconforto. Estrategistas do JPMorgan descrevem essa questão como um grande enigma, segundo relatório enviado a clientes. Ainda assim, esses mesmos analistas apontam que fatores como crescimento econômico e a possibilidade de queda da taxa Selic em 2023 sustentam uma visão construtiva para a bolsa independentemente do resultado eleitoral, embora não descartem possíveis contratempos.
No mercado americano, o cenário foi oposto. Wall Street fechou no vermelho após dados do mercado de trabalho e comentários de autoridades do Federal Reserve reforçarem expectativas de que o banco central dos EUA será agressivo na elevação de juros. Banco do Brasil saltou 4,68%, chegando a 43,60 reais e marcando a maior cotação intradia desde janeiro de 2020. Itaú Unibanco subiu 1,55% e renovou máximas históricas, enquanto Bradesco avançou 1,15%. Petrobras ganhou 2,96%, atingindo 36,47 reais, um recorde intradia, apesar do enfraquecimento dos preços do petróleo no exterior, onde o Brent caiu 0,03% para 92,38 reais o barril.
Vale subiu 1,28%, reforçando o sinal positivo do índice mesmo com o declínio dos preços do minério de ferro. O setor de mineração e siderurgia como um todo ficou na ponta positiva: CSN avançou 3,96%, Usiminas subiu 2,99%, Gerdau valorizou-se 2,52% e CSN Mineração ganhou 2,13%. No lado oposto, Americanas desabou 13,77%, caindo para 14,15 reais, em mais uma sessão negativa para o varejo. Via caiu 7,06% e Magazine Luiza perdeu 2,39%, com o índice de consumo na B3 fechando em queda de 0,95%. Natura&Co avançou 3,54%, ainda sob efeito de expectativas sobre um possível IPO ou cisão da Aesop. B3 recuou 1,75%, entre as maiores pressões negativas do índice, após analistas do Safra cortarem a recomendação para neutra com preço-alvo de 16 reais.
Notable Quotes
Esse movimento mostra que o mercado está acreditando em uma possível vitória de Jair Bolsonaro— Leonardo Santana, analista da Top Gain
Isso continua sendo um grande enigma— Estrategistas do JPMorgan, sobre o posicionamento econômico de Lula
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o mercado está tão confiante em uma vitória de Bolsonaro se as pesquisas mostram um cenário apertado?
As pesquisas mostram Lula em 49% e Bolsonaro em 45%, mas o mercado lembra que no primeiro turno as pesquisas subestimaram os votos do presidente. Há um histórico ali que alimenta a aposta.
E quanto aos apoiadores de Lula no mercado? Armínio Fraga é respeitado, não?
Sim, mas o problema não é a falta de apoio — é a falta de clareza. Ninguém sabe exatamente qual será a política econômica de Lula ou quem será seu ministro da Fazenda. Isso cria incerteza.
Então o mercado está votando contra Lula ou a favor de Bolsonaro?
Provavelmente os dois. Há uma preferência clara pelo perfil de Bolsonaro — menos Estado, mais privatizações. Mas também há medo do desconhecido com Lula.
Por que Petrobras e Banco do Brasil subiram tanto se o petróleo caiu?
Porque o mercado está precificando um governo Bolsonaro. Essas ações são sensíveis ao cenário político — Petrobras pode ter menos pressão por controle de preços, Banco do Brasil pode se beneficiar de privatizações.
E se Lula vencer? O mercado vai desabar?
Analistas do JPMorgan dizem que não necessariamente. Crescimento econômico e queda da Selic em 2023 apoiam a bolsa de qualquer forma. Mas haverá volatilidade e possíveis contratempos.